“UM ARRAIAL ALCANTARENSE EM DIA DE SANTO ANTÓNIO”

Estádio do Restelo, em Lisboa

Árbitro – Mário Mendonça, de Setúbal

ATLÉTICO – Botelho; Américo, Candeias, João Carlos e Valdemar; Fagundes e João Pereira; Seminário, Raul, Tito e Angeja

U. TOMAR – Conhé; Cabrita, Faustino, Alexandre e Santos; Bilreiro e Cláudio; Djunga, Lecas, Alberto e Totoi

0-1 – Djunga – 16m
1-1 – Tito – 19m
2-1 – Angeja – 70m
2-2 – Lecas – 83m
3-2 – Raul – 90m

De pé: Santos, Bilreiro, Faustino, Cabrita, Alexandre e Conhé.
Em 1º plano: Djunga, Lecas, Alberto, Cláudio e Totoi.

(Foto enviada pelo autor do blogue “Belenenses Ilustrado“).

«Ao intervalo: 1-1.

0-1 – Numa incursão pela ala direita, aos 16 minutos, Alberto lançou o esférico em profundidade para Djunga que desferiu um potente remate sem preparação em corrida, batendo Botelho inapelavelmente.

1-1 – Decorridos 19 minutos o Atlético estabelece o empate. No meio-campo dos tomarenses, Valdemar centrou para a frente da baliza de Conhé onde Seminário, apesar de lesionado da perna direita, conseguiu com dificuldade atrasar o esférico para Tito, o qual, de frente para as redes, disparou um forte remate sem possibilidades de defesa para o guardião de Tomar.

2-1 – Aos 70 minutos, Seminário, depois de se desembaraçar do defesa tomarense Alexandre, centrou com boa conta e Angeja, de frente para a baliza, rematou com êxito.

2-2 – Aproveitando uma oscilação da defesa do Atlético perante a rapidez do lance, Alberto centrou atrasado para o lado direito e Lecas não teve dificuldade em bater Botelho. Havia 83 minutos.

3-2 – No último minuto um passe infeliz de Cabrita ao seu guarda-redes foi aproveitado por Raul para decidir a partida.

Atlético e U. Tomar foram dignos um do outro, lutando como dignos finalistas de um Campeonato longo, duro e esgotante como o da II Divisão ao qual cada uma destas equipas demonstrou capacidade física e valia técnica para se imporem aos restantes componentes das duas zonas.

No despique emocionante e renhido que travaram entre si no Restelo, perante um público interessado e galvanizado pelas peripécias da luta, o Atlético foi indiscutivelmente o mais feliz, conquistando um título que teria assentado também com toda a justiça à turma de Tomar.

No balanço geral da partida foram os tomarenses, inegavelmente, que apresentaram melhor estrutura, praticando um futebol mais racional e por isso mesmo mais intencional e incisivo e de índice técnico-táctico mais elevado. Não puderam, no entanto, ser indiferentes ao clima decisivo do jogo e daí terem evidenciado no capítulo de concretização a mesma falta de objectividade que patentearam os alcantarenses.

As circunstâncias anormais em que o grupo de Tomar sofreu o último golo – e que ficou como o momento culminante do desafio deram ao desfecho da pugna um acre sabor de injustiça. Foi um momento de infortúnio mesmo no declinar do tempo regulamentar, mas a sorte também faz parte do jogo e o insólito desse golo, aliás muito bem executado pelo marcador, de modo algum pode ensombrar o título que ficou em poder do Atlético. De resto, a turma alcantarense, tanto pelo seu empenho, como pelo seu manifesto propósito de tornear as dificuldades criadas pelo adversário tarefa de que acabou por se sair airosamente com mais ou menos acerto – foi um digno campeão, igualando em mérito outras virtudes patenteadas pelos tomarenses.

O trabalho dos alcantarenses

Botelho – Teve actuação de bom nível, não se lhe podendo atribuir culpas nos golos sofridos que resultaram de remates bem colocados e indefensáveis.

Américo – Foi dos defesas mais inseguros.

João Carlos – Começou em bom plano, mas pelo tempo adiante cometeu alguns falhanços comprometedores.

Candeias – Exibição regular. Cortes oportunos e bom sentido de antecipação.

Valdemar – Actuação com altos e baixos. Evidenciou-se no entanto nalgumas descidas ao meio campo do adversário.

Fagundes – Desenvolveu infatigável actividade no vai-vem de apoio na manobra de meio campo em que no entanto oscilou um pouco.

Seminário – Sem ser um jogador de grandes primores técnicos, foi todavia de uma combatividade extraordinária.

Raul – Sempre em movimento procurando dar apoio a Seminário e fazer o aproveitamento dos lances de ligação com ele, teve ainda o grande mérito do oportunismo com que explorou a desatenção da defesa contrária para marcar o golo da vitória alcantarense.

Tito – Desenvolveu grande actividade, mas sem dela lograr grande proveito.

Angeja – Foi um dianteiro muito activo no desenvolvimento dos esquemas de ataque, com alguns movimentos que constituiram ameaça para a baliza contrária.

A actuação dos tomarenses

Conhé – Tal como o guardião do Atlético, revelou segurança e decisão nas saídas, não tendo sido também culpado nos tentos sofridos. No terceiro golo fez o que estava ao seu alcance para o evitar, mas era tarde para encontrar a solução da imprudência do companheiro.

Cabrita – Certo na primeira parte revelou depois falta de poder físico. O passe ao guarda-redes que foi aproveitado por Raul para obter o golo da vitória, foi um lance de infortúnio.

Faustino – Cumpriu bem, mas foi mais feliz quando o escalaram para actuar em posição mais avançada no terreno.

Alexandre – De boa compleição física e viril no despique esteve quase sempre eficiente nos cortes de cabeça.

Santos – Experimentou sérias dificuldades no despique com Seminário, a despeito deste se encontrar fisicamente afectado.

Bilreiro – Teve bom trabalho a meio-campo, com excelentes iniciativas mal continuadas.

Cláudio – Foi elemento preponderante em toda a manobra da equipa, revelando excelentes faculdades – muito habilidoso, bom estratega e com sentido de progressão para a baliza.

Djunga – Causou certos embaraços aos adversários, pela sua facilidade de execução e rapidez.

Lecas – Desperdiçou muito jogo por falta de serenidade.

Alberto – Um ponta-de-lança de boa compleição física que provocou desgaste na defesa de Alcântara.

Totoi – Bom discernimento dos lances sentido de oportunidade e intencionalidade nos centros.

A arbitragem

Mário Mendonça, de Setúbal, realizou bom trabalho, em tudo à altura da importância de uma final.»

(“Record”, 15.06.1968 – Crónica de Guita Júnior)


(Imagem – “Record”, 15.06.1968)

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