“UM TEMPO DE PROBLEMA – OUTRO DE REGALO…”

Estádio do Bonfim, em Setúbal

Árbitro – Fernando Martins, de Lisboa

SETÚBAL – Vital (2); Conceição, «cap.» (3), Cardoso (2), Herculano (2) (72m – Alfredo (2)) e Carriço (3); José Maria (2), Vítor Baptista (3) (63m – Tomé (3)) e Wagner (2); Arcanjo (2), Figueiredo (3) e Jacinto João (2)

U. TOMAR – Arsénio (2); Kiki (2), Caló (3), Faustino (2) e Barnabé (3); Vicente (2), Ferreira Pinto, «cap.» (3) e Cláudio (1); Leitão (3), Alberto (2) e Totoi (1) (45m – Dui (1))

1-0 – Arcanjo – 44m
2-0 – Figueiredo (pen.) – 50m
3-0 – Figueiredo – 66m
4-0 – Arcanjo – 68m

«Ao intervalo: 1-0.

O Vitória marcou o seu primeiro golo já no último minuto do primeiro tempo, por intermédio de Arcanjo. em remate fácil de cabeça, no seguimento de um centro de Jacinto João, do lado direito. Sem poder segurar o esférico, que «pingava» sobre as suas balizas, mas podendo e devendo socá-lo, Arsénio apenas lhe aplicou uma palmada fraca, que colocou a bola, logo ali, à mercê do pronto remate de cabeça de Arcanjo.

No segundo tempo: 3-0.

2-0, por Figueiredo, de «penalty», aos 5 minutos. Em lance confuso, dentro da grande-área dos tomarenses, houve dois remates sadinos consecutivos, sendo o segundo (cremos que de Vítor Baptista) sustido com as mãos por Caló, entre os postes. Não vimos que tivessem razão, realmente, os protestos de alguns jogadores visitantes (incluindo o próprio Caló) e, depois de haver a sensação de que seria Wagner a apontar o castigo (pois tomou posição para tal e chegou a ir ajeitar a bola), foi Figueiredo quem o transformou, com um pontapé fortíssimo e alto, para a direita de Arsénio.

3-0, por Figueiredo, aos 21 minutos. Lance simples e rápido, com Tomé a servir o ex-sportinguista, colocado em posição frontal e perto da entrada da grande área dos tomarenses. Muito decidido, Figueiredo simulou ir passar a bola, mas «furou», fulgurante, por entre os dois «centrais» adversários, para não tardar em rematar, forte, com o pé esquerdo e rasteiro, colhendo Arsénio no momento da saída das balizas.

4-0, por Arcanjo, aos 23 minutos. Excelente lance de «J J» pela esquerda, onde correu ao longo da linha de cabeceira e acabou por atrasar a bola, na direcção de Arcanjo, que vinha em corrida. O disparo partiu logo, sem apelo.

Resultado: 4-0.

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Antes de que entremos na apreciação do encontro disputado, ontem, no Bonfim, permita-se-nos um breve aditamento aos comentários que fizemos, no último número acerca da deslocação e do jogo dos setubalenses em Belfast.

Em determinada passagem, afirmamos que o Vitória (tal como a selecção) devia um «thank You» ao seleccionador pela maneira como o dr. José Maria Antunes colocou os seus serviços de médico à disposição do clube setubalense, chegando mesmo a ter grande influência (psicológica) no facto de «J J» reconhecer que estava em condições de alinhar.

Da forma como apresentámos o assunto, talvez se possa ter deduzido que, da parte dos responsáveis do Vitória, não houvera a atenção e o cuidado de registar e agradecer, ao seleccionador, tal gentileza.

A verdade, porém, é que, quer o dirigente Francisco Nascimento, quer o técnico Fernando Vaz, não cometeram esse lapso (e  o contrário é que seria para estranhar, em quem tão correcto em tudo se mostrou sempre), pois, na nossa presença e por mais de uma vez, ambos tiveram, para com o dr. José Maria Antunes, as palavras de apreço e de reconhecimento que, realmente, se justificavam.

As nossas desculpas a quantos possamos ter induzido em interpretação menos certa dos factos – ainda que se tratasse, afinal, de um simples pormenor de redacção.

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E, agora, sim, falemos do que se passou, ontem, no Bonfim, começando por dizer que está equivocado quem tomar por referência, apenas, o resultado do jogo, e, daí, conclua que houve, apenas, um «passeio» ou um treino para os sadinos, diante de um adversário que lhe foi muito e sempre inferior e que, no fim de todas as contas feitas, não confirmou nada do que vinha mostrando neste seu primeiro ano de I Divisão, pois ficou batido com grande clareza.

Ora, a realidade é bem diferente desse raciocínio precipitado, porque em Setúbal, esteve um União de Tomar que, durante 45 minutos (os primeiros), «explicou» a razão de ser da bela carreira que vem fazendo – e que, aliás, estava expressa, de forma inequívoca, na tabela da classificação, quando o encontro do Bonfim se iniciou: – seis pontos dos tomarenses, com 9-7 em golos) e três, apenas, dos sadinos (com 6-7 em golos).

A equipa de Tomar só cedeu e «caiu», realmente, na segunda parte do jogo e, para isso, viu-se o Vitória obrigado a lançar mão de todos os seus recursos de grande equipa, para realizar nova exibição a todos os títulos assinalável (sobretudo, na meia-hora inicial) e, assim, acabou de vez com o problema e com o antagonista, que até podia – então sim – ter sofrido punição ainda mais severa.

Já o deixámos escrito: – os tomarenses não fizeram aquilo a que pode chamar-se «jogar à defesa». Tiveram, apenas, o cuidado de não se aventurarem numa ofensiva aberta, não descurando a protecção à sua baliza e tratando de «povoar» o meio-campo.

Oscilaram os tomarenses, assim, entre o «4-3-3» e o «4-4-2» (juntando-se Leitão ou Totoi a Vicente, Ferreira Pinto e Cláudio) e, embora o último desde cedo revelasse bons pés e intenção, mas lentidão em demasia, o certo é que os setubalenses, durante toda a primeira parte, foram uma equipa desordenada e, por vezes, perturbada (até pelas manifestações de desagrado do seu público…), porque lhes faltou velocidade – e lentidão era o que mais podia convir (como se viu depois) a um adversário que, de pressas, nada tinha, nem no seu futebol, nem nos seus objectivos.

Vital não teve (nem viria a ter), é certo, uma única intervenção de apuro, em todos esses 45 minutos de abertura. Só muito raramente os homens de Tomar foram capazes de penetrar na «zona da verdade» sadina. Mas, para além de um «tiro» de Wagner (12 m.) e de um remate de cabeça de Arcanjo (42 m.), ambos bem detidos pelo guarda-redes visitante, pode afirmar-se que, até marcar o primeiro golo, já mesmo à beira do intervalo, os setubalenses uma só vez estiveram em vias de bater Arsénio – aos 12 minutos, quando Figueiredo não conseguiu, em queda, visar as balizas adversárias e, na sequência do lance, Vítor Baptista levou a bola às malhas, com a cabeça, mas mercê de carga irregular sobre o guarda-redes – conforme viu (e muito bem fez punir) o árbitro.

Pela forma como se mostrou organizado a defender e a trocar a bola, a ponto de obrigar alguns jogadores sadinos a enveredarem por individualismos que não estão (nem poderão estar) nos hábitos da excelente equipa de Fernando Vaz, não se força a nota repetindo que a equipa do União de Tomar merecia ter chegado ao intervalo com o empate inicial – só desfeito aliás, aos 44 minutos e no que terá sido o único lapso de Arsénio, que «ofereceu» a bola a  Arcanjo, com uma pequena palmada, quando estava em posição de aplicar um soco no esférico.

Para o Vitória, volte a dizer-se, o problema estivera na falta de velocidade e, para o confirmar, bastaram os minutos iniciais do segundo tempo. Como que despertando (sério terá sido, na cabina, naturalmente, o aviso…), os setubalenses regressaram ao jogo tal como se fossem outros (melhor, talvez, iguais a si próprios e cá temos nós, os actos a darem razão às referências a displicência, que fizemos no «rescaldo» de Belfast…) e, depois de «J J» ter dado o «toque», em três ou quatro lances de velocidade e incisão, só por mero acaso José Maria não conseguiu (chutando contra as pernas de Arsénio, e logo a seguir, não rematando, em boa posição) o segundo golo – que surgiria, logo aos 5 minutos, já com toda a naturalidade.

E estava lançado o Vitória, assim, para um período de verdadeira sensação, que foi regalo (em tudo!) não só para o público setubalense, mas também para o adepto desapaixonado do futebol, e que se prolongou até cerca da meia hora, oferecendo espectáculo de enorme categoria e justificando a obtenção de mais dois golos, tal como justificaria o aparecimento de outros tantos.

Quando sofreu o 0-2, o União de Tomar ainda teve uma ligeira reacção, procurando «abrir-se» mais um pouco e chegando os seus avançados, então, a aparecer dentro da grande área dos sadinos. Sem criarem no entanto, perigo de qualquer espécie para Vital, que continuou a ser quase espectador do jogo, enquanto Arsénio era chamado a frequentes, e bastas vezes, difíceis intervenções, porque os seus companheiros, a meio do campo e na defesa (o ataque pouco se viu sempre), iam-se desunindo e desarticulando, cada vez mais, perante a velocidade e o engenho dos magníficos jogadores sadinos.

Nessa soberba meia hora, não houve um único setubalense que destoasse do belo comportamento colectivo da equipa, mas igualmente justo será reconhecer e realçar um facto curioso: – Vítor Baptista foi uma das unidades que mais contribuiram para a grande exibição do «onze» sadino e para «destroçar» os tomarenses, mas a sua substituição (aos 18 minutos), nada modificou, porque Tomé – outra realidade do nosso futebol! – continuou a excelente actuação do seu igualmente magnífico companheiro.

Foi já bem depois do 4-0 (registado aos 23 minutos) que o Vitória «tirou o pé do acelerador», um tanto por quebra física (naturalíssima!) de Wagner, outro tanto por desnecessidade de prolongar o esforço de toda a equipa (que tanto jogara em Belfast, na quarta-feira, não o esqueçamos…), mas nem por isso o derradeiro quarto de hora deixou de ser de evidente supremacia dos sadinos, que ainda tiveram ensejos de aumentar o «score» – perante tomarenses sempre garbosos e dignos, mas visível e humanamente batidos e… confundidos.

…Especialmente, nos lances pela direita, onde o talento de Tomé ou de José Maria ou a inspiração de Figueiredo haviam feito «eclipsar» Cláudio e tornavam quase inútil a notável acção do muito desamparado Barnabé.

Cremos que, com o Vitória, se está passando um fenómeno que é peculiar, sobretudo, às grandes equipas: – sentir-se-à mais à vontade em terreno alheio do que em «casa», porque o seu público exige sempre o melhor da equipa.

E não pode ser. Nem sempre as coisas podem passar-se tal como se desejam e, não havendo equipa que não tenha os seus «altos» e «baixos», afigura-se-nos que os jogadores sadinos (pese embora às responsabilidades que lhes couberam, na sua pouco brilhante primeira parte) não mereciam as manifestações de desagrado que, então, escutaram.

Houve a reconciliação, depois do intervalo. E a equipa acabou por ser despedida em ambiente de apoteose – tal como fora recebida, aliás, à entrada no rectângulo. Recolocaram-se as coisas nos seus devidos lugares…

Vital foi sempre um «homem tranquilo», sem um único problema em todo o encontro, e quase o mesmo se pode dizer dos quatro companheiros mais chegados. Mas Conceição e Carriço brilharam mais do que Cardoso e Herculano – talvez até porque os «laterais,  no futebol dos nossos dias, cada vez menos são, apenas, defesas.

Todos os restantes estiveram como a equipa, isto é, com dois tempos distintos, e já ficaram referidos os melhores – Vítor Baptista, Tomé e Figueiredo – este, realmente, em bom momento de «forma» e a denunciar ambientação de jogo para jogo.

Mas Wagner (ainda a caminho da «forma» física ideal e daí a sua quebra, na parte final do encontro), José Maria, Arcanjo e Jacinto João redimiram-se bem, no segundo tempo, de limitações verificadas antes.

Alfredo, jogando apenas os últimos 18 minutos, quando já não existiam problemas, ainda teve tempo para mostrar que o Vitória pode contar com ele, sempre que necessário.

Também já se disse – o volume da derrota não deslustra a actuação dos tomarenses, a cujo comportamento têm de render-se, na verdade, as melhores homenagens, futebolística e desportivamente.

A equipa sabe o que faz e o que quer e, se mais não fez, foi só porque o adversário tem outra «estatura» e, no segundo tempo, pôs todos os seus muitos «trunfos» na «mesa».

Ficaram a perceber-se, em Setúbal, as razões de alguns resultados que têm feito sensação. E a sensação vai continuar, certamente…

Em plano à parte Caló, Barnabé, Leitão e Ferreira Pinto – sempre mais iguais os três primeiros; sensacional o último, antes do intervalo.

Coadjuvaram-nos bem, no entanto, todos os demais, embora Cláudio (pela lentidão), Totoi e Dui se hajam evidenciado menos.

Arsénio foi um guarda-redes seguro, ágil e decidido, mas foi pena o lapso que deu o primeiro golo. É, realmente, um lugar muito ingrato!

O árbitro, Fernando Martins, assinalou auspiciosamente o seu regresso à I Divisão, apesar de alguns equívocos do seu auxiliar Daniel Castro, no que refere a «off-sides», que assinalou indevidamente.»

(“A Bola”, 14.10.1968 – Crónica de Cruz dos Santos)