“FUTEBOL DE CAMPEONATO AMASSADO EM FORÇA E JEITO”

Estádio Municipal de Tomar

«Assistência muito numerosa, embora sem haver esgotado a lotação. Campo pelado, com muitas poças de água, mas permitindo, perfeitamente, a prática do futebol.»

Árbitro – Joaquim Campos, de Lisboa

U. TOMAR – Arsénio (2) (63m – Conhé (2)); Kiki (2), Faustino (2), Dui (2) e Santos (2); Bilreiro (1) (82m – Lecas), Ferreira Pinto (2) e Cláudio (1); Leitão (2), Alberto (1) e Totoi (2)

PORTO – Rui (2); Bernardo (2), Valdemar (2), Atraca (2) e Sucena (2); Rolando (2) (78m – Vítor Gomes (2)) e Pavão (3); Pinto (2) (82m – F. Baptista), Lisboa (2), Djalma (2) e Nóbrega (2)

0-1 – Djalma – 80m
0-2 – Pavão – 90m

«Ao intervalo: 0-0.

Faltavam apenas dez minutos para o termo da partida, quando o F. C. Porto marcou o primeiro golo. Na marcação dum «livre», assinalado no flanco esquerdo do ataque portista. Nóbrega executou-o com um centro raso que levou a bola a cruzar todo o terreno fronteiro às balizas nabantinas, sem ninguém lhe tocar, acabando por, no lado oposto, ser rematada por Djalma, que, em corrida, não encontrou a mínima oposição.

Já no período de compensação de tempo perdido, o F. C. Porto marcou o seu segundo golo, em lance algo semelhante ao do tento anterior, com Djalma, agora, a fazer o centro, a bola a passar por uma floresta de pés e a ser rematada, no outro lado, por Pavão.

Aos 18 minutos, Arsénio, seriamente magoado, foi substituído por Conhé (2). Quinze minutos depois, o F. C. Porto procedeu, também, a uma substituição. Vítor Gomes (2) entrou para o lugar de Rolando.

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É bem certo que cada jogo tem a sua história e que as verdades de um dia, relativamente a cada equipa ou a cada jogador, soam a falsidades, muitas vezes, alguns dias depois.

Ocorreu-nos este pensamento, com certa frequência, durante a partida de ontem, no Estádio Municipal de Tomar. É que, olhando o modo como se batia a equipa do F. C. Porto, com o seu «futebol de campeonato», «amassado» em força e em jeito e, pelo menos na aparência, terrivelmente desgastante, demos connosco a pensar como é que, poucos dias antes, essa mesma equipa sossobrara, à míngua de poder e de velocidade, perante a equipa eslovaca do Slovan.

Por outro lado, observando o conjunto tomarense e tentando adivinhar-lhe os méritos, que ele não exibia nesta tarde, vimo-nos forçado a acabar por concluir que, ou União de Tomar foi, ontem, uma pálida e longínqua imagem de si própria, ou a lenda da sua invencibilidade – a «lenda do Nabão» – não era mais do que isso: uma lenda, sem outra razão de ser que não fosse a sensação provocada pelas vitórias sobre o Sporting, o Vitória de Guimarães e a Académica.

Voltando ao F. C. Porto, estava tudo à espera de que os seus jogadores acusassem o desgaste provocado pelo embate de quarta-feira passada. A própria equipa nabantina nos deu a sugestão de contar com isso também, ao adoptar uma toada de jogo prudente e quase passivo, durante a meia hora inicial, que seria, segundo a generalidade dos prognósticos que em redor do campo se teciam a tal respeito, o período máximo de duração para as escassas reservas de energia física e psicológica dos portuenses. E quando, esgotado esse «período-limite» da resistência portista, se começou a verificar simultaneamente, uma quebra acentuada no ritmo de jogo dos visitantes e um notório crescendo de velocidade e de audácia nos movimentos dos visitados, também nós chegámos a admitir que estavam certas as previsões e que o F. C. Porto acabaria por cair, como em Bratislava, à míngua de força, de velocidade, de poder.

Os leitores, que já conhecem o resultado, sabem muito bem que não foi isso o que aconteceu. Mas nós, antes de contarmos, pela ordem devida, o que se passou no «Municipal de Tomar», queremos e devemos esclarecer que  a razão decisiva do triunfo portista residiu, precisamente, na sua enorme superioridade de condições físico-atléticas em relação ao adversário.

Como adiante se verá.

Força e jeito

O facto de atribuirmos particular importância e relevo ao atributo de ordem física patenteados pelo conjunto portuense não significa, evidentemente, que tenhamos em menos apreço as virtudes de ordem técnica dos seus jogadores, que, de facto, também nesse aspecto, emparceiram com os melhores de Portugal. Já no título desta crónica, aliás, acentuamos o facto de existir uma «aliança» entre a força e o jeito no «futebol de campeonato» exibido pelos portistas.

E que outra coisa foi, se não uma demonstração dessa «aliança» quase perfeita, a actuação da equipa do F. C. Porto, em especial durante os primeiros trinta minutos?

É possível que os próprios responsáveis e jogadores nortenhos não tivessem muita confiança na sua capacidade de resistência, quatro dias depois do tremendo esforço de Bratislava. Daí, a pressa com que se deram à tarefa de construir uma vitória, que, quanto mais tardasse, mais problemática poderia tornar-se.

E, dado que não estavam aí para deslumbrar o público nabantino pela técnica, mas sim para vencer a equipa local, os «azuis-brancos» puseram de parte tudo quanto «cheirasse» a exibicionismo, para pensarem, única e exclusivamente, na melhor forma de chegarem às balizas adversárias. Os passes ao primeiro toque, as desmarcações e as progressões contínuas, os cruzamentos rápidos dos extremos, os centros bem medidos, as infiltrações acutilantes, a integração dos médios no desenvolvimento final das jogadas de ataque, tais foram as características predominantes deste «tipo» de futebol, com o qual os tomarenses deram, logo de início, a sensação de não se entenderem nada bem. Tanto assim que, tendo sido anunciado, pelo técnico do União, o propósito de jogar ao ataque, a sua equipa, incapaz de resistir à «nortada tempestuosa» da ofensiva portuense, não teve outro remédio se não acantonar-se, inteirinha, no seu meio-campo.

Quis-nos parecer, aliás, que os jogadores tomarenses aceitaram bem essa necessidade de se remeterem à defesa, na expectativa de, quando a altura propícia surgisse (isto é, quando o F. C. Porto «estoirasse…»), se lançarem, então, abertamente, irresistivelmente, ao ataque. Essa oportunidade nunca chegou, embora se tenha verificado, no último quarto de hora da primeira parte, como já acentuámos, uma quebra evidente no ritmo e na produção de jogo dos visitantes.

Importa esclarecer, de qualquer modo, que o domínio técnico e territorial dos portistas, o número e a qualidade das oportunidades de golo que criaram (e desperdiçaram), o grau de maturidade e de personalidade que patentearam, em contraste com o ar acanhado, tímido passivo do futebol produzido pelos nabantinos, davam ao F. C. Porto o «direito moral» a uma vitória expressiva, quando se atingiu o intervalo. A força e o jeito dos portistas, o serviço dum «futebol de campeonato» onde não há lugar para as coisas fúteis do jogo, bem poderiam ter acabado com a «lenda do Nabão», antes das equipas descerem às cabinas para os dez minutos de descanso habituais.

Jeito sem força

É curioso que, tendo os jogadores tomarenses confiado num rápido desgaste dos adversários, não tenham pensado na hipótese de se «gastarem» tão depressa como eles. Jogar à defesa, especialmente quando o adversário não concede folgas nem se furta aos choques corporais, pode cansar e desgastar tanto como jogar ao ataque.

Aí está o exemplo da equipa do União a demonstrá-lo, de forma bem explícita.

Ainda vemos os jogadores unionistas, no derradeiro quarto de hora da primeira parte, empenharem-se na concretização do plano que, provavelmente, tinham em mente, o qual consistiria em «cair sobre o F. C. Porto» logo que os seus jogadores acusassem os mínimos sintomas de decadência física. Mas também nos pareceu, imediatamente, que a equipa tomarense, ou alcançava o que pretendia nesse breve período que faltava para o descanso, ou estava a tornar irremediável a sua derrota, pois era evidente, para nós, que, sendo uma equipa com mais jeito do que força, ao contrário da adversária, estava prestes a atingir o limite da sua capacidade física.

Cremos que os acontecimentos da segunda parte provaram, exuberantemente, essa nossa presunção. A permanência de Arsénio entre os postes, eventualmente, terá obstado à concretização da superioridade, agora total (técnica, táctica, física e territorial) dos portuenses, pois o guarda-redes titular do União já tinha interceptado vários lances semelhantes àqueles que, por falta de reflexos e de recursos dos defesas tomarenses, estes deixaram passar e evoluir no sentido do golo. Mas Arsénio já não estava lá…

Por outro lado, o treinador portuense, José Maria Pedroto, soube jogar, na melhor altura, com a «nova arma» das substituições, ao fazer entrar para o lugar de Rolando (que se batera até à exaustão) por um jogador fresco. A entrada de Gomes, com efeito, acabou por acentuar e apressar de maneira irreversível o desequilíbrio de poder de força, de velocidade, já existente entre as duas equipas, tanto mais que, por carência de homem apto para o efeito, ou por qualquer outro motivo de nós ignorado, não foi tomada idêntica medida no lado oposto.

O resultado, que a diferença de valores individuais e de capacidade técnica global poderia, só por si, justificar, acabou por ser uma consequência directa, afinal, do desnível de forças puramente físicas. Apareceram os dois golos da vitória portista nos últimos dez minutos. Outros teriam de surgir, inevitavelmente, na proporção directa do tempo que o jogo durasse, porque, repetimos, o tempo jogava, então, de maneira esmagadora, a favor da equipa atleticamente mais apta.

A conquista do título

Mais do que gostar desta equipa do F.C. Porto, devemos confessar antes, que ela nos impressionou vivamente. O F. C. Porto não joga para agradar a ninguém. O seu objectivo imediato é o resultado, a sua meta distante, o título. Não sabemos, evidentemente, se logrará alcançá-lo, mas podemos afirmar que respira força, confiança, maturidade, «por todos os poros».

Não vimos alardes excessivos de técnica em nenhum sector, em nenhum homem, mas também é verdade que todos exibem o «quantum satis» da arte de jogar a bola para que o seu futebol não seja, apenas, força, músculo, nervo, vontade. A «liga» entre os predicados de ordem técnica, física e psicológica é quase perfeita. O resultado dessa «liga» é  o tal «futebol de campeonato», que tanto nos impressionou.

A defesa é, porventura, o sector que mais fere a nota da combatividade. É difícil penetrar naquela «sebe» de homens rápidos, enérgicos, rudes, prontos a tudo e tão unidos entre si, que mais parecem um só. Rui jogou tão bem como o teria feito Américo, executando duas ou três defesas de grande categoria. Não obstante o que atrás se disse, relativamente ao sentido de união patenteado pelos quatro defesas, ainda há lugar a uma referência especial para Bernardo da Velha, que está um defesa lateral moderno, ao nível dos bons jogadores que o futebol português possui nesse lugar.

Rolando e Pavão constituiram uma «dupla de centrocampistas»de grande eficiência, não só a «mandar» na sua zona de acção, como também em lances de penetração e integração nas jogadas de ataque da sua equipa. Rolando, que mais vezes se deu a lances desse teor, acabou por esgotar-se prematuramente. Quanto ao seu companheiro do lado, foi de uma regularidade e de uma eficácia admirável. Pouco faltará para a recuperação total da «forma» atingida em certo período da época passada.

Pinto é um dos raros casos do avançado que volta, com brilho e utilidade, a desempenhar esta função, depois de ter permanecido, durante muito tempo, na posição de médio. Ontem, não marcou nenhum golo, mas teve remates (de cabeça) perigosíssimos, e desmarcações, em passes, em jogadas individuais, alardeou uma técnica e uma «classe» só ao alcance dos «grandes» do futebol. Que pena não tentar o remate com os pés!…

Lisboa começou muito bem (ou muito mal, pois perdeu um lance de golo, logo aos três minutos), mas o seu jogo miúdo foi-se diluindo, perdendo clareza e objectividade, até acabar por cair num tom incaracterístico… Como habitualmente, Djalma foi o avançado em que o temperamento de lutador igualou o talento do tecnicista. Não teve muitas oportunidades de visar as balizas, falhou uma ou duas, até, mas acabou por marcar um golo bonito e… preciso. Pareceu-nos que Nóbrega já não se encontra (ou ainda não se encontra) em «forma» apurada. Raras foram as vezes, com efeito, em que conseguiu ludibriar e ultrapassar o defesa direito do União.

Esse defesa tomarense (Kiki) foi, aliás, um dos melhores elementos da equipa nabantina. Tão brilhante como ele (ou, talvez, um pouco mais), apenas o infeliz Arsénio, que, após um choque com Djalma, teve de abandonar o terreno. Ainda na defesa, agradou-nos o trabalho certo, seguro, eficiente, de Faustino.

Dos três homens do meio-campo (Bilreiro, Ferreira Pinto e Cláudio) nenhum logrou exibição de vulto. Bilreiro foi o mais veloz (mas pouco esclarecido), Ferreira Pinto o mais esclarecido (mas pouco veloz) e Cláudio o menos veloz e o menos esclarecido.

No ataque, impressionou-nos a capacidade de execução de Leitão, que, todavia, se «gastou», inutilmente, em prolongadas e inconsequentes iniciativas de cunho individual. Valha a verdade, porém, que, como «ponta de lança», Alberto não foi um companheiro ideal. Na extrema-esquerda, Totoi gizou alguns esboços de jogadas curiosas, mas só episodicamente lhes deu o desfecho mais útil e adequado às circunstâncias.

Uma palavra basta para definir o trabalho de Joaquim Campos: impecável.»

(“A Bola”, 02.12.1968 – Crónica de Alfredo Farinha)

(Imagem – “A Bola”, 02.12.1968)