“QUANDO AS DEFESAS SÃO TÃO DESIGUAIS…”

Estádio Municipal de Tomar

Árbitro – Ismael Baltasar, de Setúbal

U. TOMAR – Conhé (3); Kiki (2), Caló (3), Faustino (2) e Barnabé (3); Ferreira Pinto «cap.» (2) e Cláudio (2); Vicente (1) (67m – Santos (2)), Alberto (1), Leitão (2)  e Totoi (1)

SANJOANENSE – Fidalgo (3); Freitas (2) (52m – Jambane (1)), Caneira (3), Zequinha (1) e Almeida «cap.» (1); Ferreira Pinto (3), Moreira (2) e Orlando (2); Adé (1), Louro (1) (31m – Carlitos (1)) e Vitor Silva (1)

1-0 – Alberto – 18m
2-0 – Leitão – 42m
3-0 – Leitão – 67m


«Ao intervalo: 2-0.

1-0, por Alberto, aos 18 minutos. Do lado esquerdo e já perto da linha de cabeceira da Sanjoanense, Ferreira Pinto marcou um «livre», entregando a bola a Leitão, que rematou rasteiro. Talvez devido à velocidade que animava o esférico, Fidalgo apenas conseguiu desviá-lo para a sua esquerda e, beneficiando da deficiente «cobertura» dada ao seu guarda-redes pela defensiva de São João da Madeira, Alberto fez a recarga vitoriosa, com um pontapé de baixo para cima.

2-0, por Leitão, aos 42 minutos. Flagrante precipitação de Zequinha, que, com Leitão (servido por Kiki) à ilharga, não se apercebeu da saída e da aproximação do seu guarda-redes e, já com ele muito próximo, deu um desvio à bola, que o ultrapassou e logo deixou batido. Com aqueles dois adversários para trás, Leitão visou as balizas desertas.

Na segunda parte: 1-0.

3-0, por Leitão, aos 22 minutos. Com a equipa da Sanjoanense adiantada no terreno, Totoi lançou a bola para a frente de Leitão, que correu pela meia-direita, isolado, e acabou por atirar o esférico, em arco, para o lado oposto, quando Fidalgo saiu ao seu encontro. A bola deu a sensação de ir sair rente ao poste contrário, mas bateu no terreno e, aparentemente com efeito, tomou altura e foi entrar quase junto ao ângulo superior direito das balizas.

Resultado: 3-0.

———-

A Sanjoanense, se tem conseguido ganhar, ontem, em Tomar, talvez ainda visse surgir uma réstea de luz e de esperança no seu caminho, que parece conduzi-la, implacavelmente, ao regresso à II Divisão. Sim, talvez, não só porque passaria a ter 11 pontos, contra 14 do Varzim (que perdeu em Braga) e 16 do Sporting de Braga e do próprio União de Tomar, mas também porque havia ganho aos tomarenses, em «casa» por 4-1.

De aí, o termos compreendido e, até, achado natural que a equipa de São João da Madeira fizesse toda a primeira parte do encontro de ontem numa toada cautelosa e expressa na colocação normal de apenas dois homens na frente – diante do União de Tomar que, em posição bastante mais tranquila na tabela e jogando no seu terreno, desde cedo se mostrou – como se esperaria – muito mais sereno e muito mais ambicioso no seu futebol de ataque franco.

Teve a Sanjoanense contra si, porém, a autêntica desventura de, em circunstâncias tão especiais, ver a sua organização defensiva falhar, com grande aparato, por duas vezes, ainda antes do intervalo, e esse fenómeno – que faz parte do próprio futebol, evidentemente – logo lhe queimou todas as possibilidades de não sair derrotada, pois, do lado oposto, houve um União de Tomar com o notável mérito de não desperdiçar tão soberbos ensejos e de se lançar, assim, para um triunfo que imediatamente se sentiu já não poder ser discutido.

Após o intervalo, ainda se inverteram os papéis, com os sanjoanenses a chamarem a si o comando do jogo e a exercerem, mesmo, um domínio territorial que se prolongou por todos esses 45 minutos. Mas, a par de uma quase confrangedora inoperância dos dianteiros de São João da Madeira, foi então chegada a altura de se confirmar a muito melhor organização defensiva dos tomarenses e, desse «balanço» ofensivo dos sanjoanenses, de novo aliado a outro lapso colectivo das respectivas linhas atrasadas, até acabou por surgir o 3-0 – que terá sido castigo exagerado para os vencidos, mas que não pôde deixar de constituir prémio justo e adequado, se não para a exibição técnica, pelo menos para a maior serenidade e sentido prático da equipa de Tellechea.

Quer-se dizer, em síntese: – larga contribuição sanjoanense para a inapelável vitória tomarense.

Em tarde muito agradável, com sol «quentinho», terreno seco e regular presença de público, a primeira metade do encontro foi bastante curiosa, porque a maior amplitude do futebol do União de Tomar e a sua maior tendência atacante tiveram compensação no «povoamento» que a Sanjoanense fez a meio-campo, jogando, com frequência, em «4-2-4».

O despique, normalmente travado com a bola rasteira conheceu ardor (correctíssimo – como sucederia, aliás, até ao fim) e chegou a oferecer nacos de execução apreciável, em trocas de passes intencionais – até à entrada das duas áreas, onde ambas as equipas revelaram dificuldades em penetrar ou, pelo menos, em criar ocasiões para remate.

Marcou o União de Tomar, por duas vezes, e tudo o resto constituiu flagrante manifestação de esterilidade dos ataques – facto em maior realce nos tomarenses, não só porque tiveram sempre na frente um maior número de unidades, mas também porque a organização defensiva sanjoanense, para além dos lances dos dois golos sofridos, não revelou a coesão necessária – talvez em consequência do «bichinho» da descrença, naturalíssima, que se foi notando em toda a equipa de São João da Madeira.

As possibilidades atacantes da Sanjoanense ainda mais diminuídas ficaram com a saída de Louro, que vinha revelando mais codícia do que aquela que o substituto Carlitos levou à equipa, mas os 2-0 registados ao intervalo, se haviam resultado de claros lapsos da defensiva visitante, espelhavam e traduziam a supremacia global evidenciada pelos tomarenses, melhores a defender e melhores a atacar.

O segundo tempo – não teve a mesma beleza espectacular. O futebol desceu mesmo a plano assaz modesto, porque a Sanjoanense atacou muito, do começo ao fim, mas sem discernimento, sem profundidade, talvez sem confiança em si própria e nas suas hipóteses de recuperação e, por seu turno, o União de Tomar como que se acomodou à posição de dominado, jogando com lentidão, procurando mais reter a bola do que conduzi-la até lá à frente – salvo nos momentos em que o pôde fazer com um mínimo de segurança, em contra-ataques exploradores do adiantamento dos sanjoanenses no terreno.

Foi dessa forma que apareceu o 3-0, logo a seguir à substituição de Vicente por Santos (que entrou para o meio-campo, adiantando-se Cláudio) e é evidente que esse golo ainda mais ampliou o mencionado estado de espírito das equipas, ou seja, refreando as já escassas ideias atacantes dos unionistas, lançando por terra, de vez, as já nada risonhas perspectivas dos sanjoanenses – apesar da evidência das actuações de Ferreira Pinto e Orlando, na zona central do terreno e, até, metendo-se bem na frente.

A Sanjoanense teria merecido, então, um golo – quanto mais não fosse, pelo seu inconformismo – apesar do seu jogo se apresentar pouco esclarecido e nada «perfurante». Mas, verdadeiramente, essa hipótese só pareceu ter alguma viabilidade num remate de Orlando, desviado por Conhé, por cima da barra (34 m.) e num outro disparo de Ferreira Pinto, que encontrou um corpo pela frente, quando o guarda-redes de Tomar já dava a sensação de batido (37 m.).

Pouco, realmente – muito pouco.

Dum jogo que não ofereceu grande história, teremos deixado dito tudo quanto havia para contar sobre o modo como ele decorreu e sobre as virtudes e deficiências dos dois contendores.

Mas, se a actuação global das equipas não deu para que nos alonguemos mais, o mesmo se pode afirmar das individualidades, pois também foi escasso o número de jogadores que conseguiram atingir plano de evidência.

Estão nesse grupo, apenas, os dois guarda-redes (que não tiveram muito trabalho, mas não cometeram erros manifestos, devendo salientar-se o «desamparo» a que Fidalgo se viu lançado pelos seus companheiros mais chegados); os dois defesas-centrais, Caló e Caneira, que se confirmaram jovens de grandes qualidades; o «lateral» Barnabé, que voltámos a ver em bela «forma», e o Sanjoanense Ferreira Pinto, que foi dos valores mais firmes e esclarecidos da sua equipa.

Depois deles, merecem referência a regularidade de Kiki; a clarividência do «mano» Ferreira Pinto e de Cláudio; a abnegação de Faustino; a influência de Leitão (que «esteve» nos três golos, marcando dois) e a oportuna «ajuda» de Santos – no União de Tomar; a vivacidade de Freitas e de Moreira e o belo segundo tempo de Orlando, na Sanjoanense.

Bastante «frouxos» os restantes, onde se incluem quase todos os avançados – e aí temos a «explicação» para muito do que deixámos escrito.

Sem problemas técnicos, nem disciplinares, a equipa de arbitragem, bem chefiada por Ismael Baltazar e com colaboração do mesmo nível de ambos os auxiliares, foi – a larga distância – a melhor das três. Muito bem!»

(“A Bola”, 03.03.1969 – Crónica de Cruz dos Santos)