“NENE HÁ-DE SER «CRACK» MESMO… SEM ASTROLOGIA”

Estádio Municipal de Coimbra

Árbitro – Fernando Leite, do Porto

ACADÉMICA – Viegas (3); Curado (1), Alhinho (3), Vieira Nunes (2) e Gervásio (2); Rui Rodrigues (2) (64m – Silvestre (2)), Nene (3) e Rocha (3); Quinito (2), Manuel António (2) e Peres (2) (84m – Luís Eugénio (1))

U. TOMAR – Conhé (2); Kiki (1), Caló (2), Faustino (1) e Barnabé (1); Ferreira Pinto (2), Lecas (1) (64m – Dui (1)) e Santos (0) (45m – Bilreiro (1)); Alberto (1), Cláudio (1) e Totói (1)

1-0 – Rocha – 5m
2-0 – Rui Rodrigues – 29m
3-0 – Manuel António – 41m
4-0 – Manuel António – 78m


«Ao intervalo: 3-0.

O primeiro golo da «Briosa» surgiu logo aos 5 minutos de jogo, sendo seu autor Rocha que, já dentro da área, captou um passe de Peres e atirou sem quaisquer possibilidades de defesa para Conhé.

Aos 29 minutos, Rui Rodrigues, que conseguira escapar à vigilância da defesa nabantina, adiantou-se no terreno, trocou o esférico com Manuel António, recolheu-o já dentro da área de grande penalidade e aí, já sem oposição de qualquer defensor, limitou-se a atirar para fora do alcance de Conhé, fazendo, assim, o segundo golo da sua equipa.

O terceiro golo da «Briosa» surgiu aos 41 minutos. Quinito interceptou uma jogada de ataque tomarense, já no seu meio-campo, progrediu com o esférico sem que qualquer defensor adversário aparecesse a estorvá-lo e da linha de cabeceira atirou um centro curto para Manuel António, que se antecipou a Faustino e atirou para o melhor sítio.

Na segunda parte: 1-0.

O derradeiro tento do encontro nasceu quando eram decorridos 33 minutos de jogo duma primorosa combinação estabelecida entre Nene, Peres e Manuel António, que recolheu um passe do seu colega já dentro da pequena área, limitando-se assim a furtar a bola a Conhé que entretanto abandonara os postes para vir ao seu encontro.

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A partida do Calhabé jogou-se sempre sobre um piso que poderia estar apto para tudo menos para a prática do futebol, outros motivos não tinha a recomendá-la que o de ser derimida entre duas formações que entraram já a viver um período de tranquilidade, dado que uma – a nabantina – alcançou já a grande meta que se propunha neste Campeonato e que era não descer de Divisão; enquanto a outra – a de Coimbra – agora sob a batuta de Maló, parece mais apostada do que nunca a ser sempre e cada vez mais académica, sem transigir jamais com funções de compromisso antes revivendo dia a dia os ideais que, afinal, projectaram decididamente a «Briosa» para a alta roda do futebol nacional.

Na fria linguagem dos números, que muitas vezes assume contornos que tendem a afastá-la dos caminhos da justiça e da verdade, ganhou a Académica. Mas agora há também que dizê-lo que, se ganhou, ganhou bem e que, se marcou quatro golos sem ter sido desfeiteada por uma vez que fosse pela turma do Nabão, poderia até ter construído um «score» mais expressivo, pelo acerto da sua exibição, dado o domínio e a pressão que efectivamente sobre o adversário exerceu, tal o número de ocasiões de bater Conhé de que dispôs.

Velho e relho, afinal, é o «slogan» que parafraseado por formas várias, acaba, afinal, por dizer pouco mais ou menos que futebol e lógica estrita são realidades que não se comprazem. Ora a verdade até é bem diversa, pois é ponto assente que, se a lógica nem sempre assenta arraiais nas coisas da bola, milita por lá na grande maioria das vezes e é, afinal, com base na normalidade que se escreve a história das competições.

Assim, ilação a que as duas equipas conduzia, não seria difícil vaticinar um êxito da turma de Maló. O contrário sim, é que pertencia ao domínio adivinhável e essas coisas só podem ser previstas pelos astrólogos, que são quem domina as ciências ocultas.

Acrescerá agora dizer que tão esperada supremacia dos estudantes foi coisa que levou tempo a aparecer, podendo mesmo acrescentar-se que tardou em surgir. Aliás, a constante do primeiro período do encontro foi essa mesmo, foi o arreganho com que os homens de Tomar se entregaram à luta, com brio, com pundonor, com raiva mesmo, repegando sempre toda e qualquer espécie de superioridade. E nem sequer foi, quando o golo isolado de Rocha, surgido logo aos 5 minutos do começo, a quebrar a monotonia de um princípio de jogo desencantado onde a moldura descolorida das bancadas desertas quase até aos cocorutos se coadunava da melhor forma com o [que] lá dentro das quatro linhas ia, veio dar uma machadada na turma tomarense, a qual não se conformou com a situação de mera participante no jogo que os prognósticos gerais lhe conferiam, prognósticos esses que o decurso do tempo haveria de legitimar depois.

Nada impressionados com o golo tão temporamente consentido, os rapazes do Nabão prosseguiram na partida com o mesmo ritmo com que a tinham iniciado, descendo amiudadas vezes ao campo do adversário, sem que, contudo, se lhes tivesse vislumbrado nunca uma atitude de ataque, isto é, uma intenção deliberada de atacar, e acometer o último reduto escolar, de tomar de assalto a baliza de Viegas.

E foi aí, aí precisamente, que começou a desenhar-se a derrota da turma de Tellechea que de resto, nunca em circunstância alguma teria envergadura para discutir o resultado com a Académica, e menos ainda com esta remoçada Académica, mais coesa, mais ligada, mais homogénea que nunca. Em lugar de uma atitude de ataque que a sua falta de condição lhe não permitiria impor, a equipa nabantina acabou, afinal, por adoptar uma atitude de espera que consistia em segurar na medida do humanamente possível o jogo a meio do campo, e descer depois quando Deus queria ao terreno defendido pelos escolares sem que nessas arremetidas, que nem sequer primavam pela sequência, fosse alguma vez visível o intuito de tentar o golo, de dar uma volta ao resultado. Bem pelo contrário os rapazes de Tomar quando desciam lá abaixo, ao meio campo da Académica, era mais por uma questão de desenjôo, para permitirem aos homens dos sectores mais recuados um momento de tréguas, do que com intenção de causar qualquer mossa ao adversário.

Esse primeiro período, por assim dizer,  durou aproximadamente meia hora e só não durou mais porque Rui Rodrigues, aí a quinze minutos do termo da primeira metade da partida, logrou bater Conhé, a um passe de Manuel António, adregando assim o segundo golo da sua equipa. A partir desse momento, não podiam restar mais dúvidas: a equipa de Tellechea estava batida, irremediavelmente batida. Nada mais havia a camuflar, nada mais havia a disfarçar, e então sim, então a Académica pôde explanar validamente todo o seu futebol, demonstrar toda a gama dos seus recursos, e marcar mesmo à beira do intervalo o seu terceiro tento, que nasceu de uma jogada primorosa de Quinito.

A segunda metade da partida, definido como já estava o vencedor, e embalada como ia a Académica para uma exibição à altura da sua valia e real capacidade, estava condenada a não ter história. E há que dizer que, efectivamente, a não teve, a sensaboria do futebol então praticado, quer por parte dos tomarenses, já conformados com o descalabro, quer por parte da «Briosa», a quem, pelos vistos, o resultado já satisfazia.

Nesta segunda meia parte apenas mais um golo se marcou e de novo da autoria de Manuel António que via assim crescer as suas possibilidades no que à conquista da «Bola de Prata» aspira. Mas, para lá desse tento isolado, alguns mais se poderiam ter marcado, sobretudo por parte da Académica, que só não construiu, porque não o quis, um resultado deveras expressivo, que poderia mesmo ter sido sensação neste «Nacional», que tão pobre de golos anda.

Não impressionou a equipa de Tomar, como de resto não se acreditaria que viesse a impressionar. Bem vistas as coisas, a equipa de Tellechea acabou o seu Campeonato na altura em que o «Nacional» se encontra ainda a quatro jornadas do seu termo, e isto nanja porque se lhe pretendam sonegar méritos, mas porque a turma nabantina veio para o Calhabé animada de modestas intenções, intenções essas que são, afinal, as que melhor se coadunam com as suas reais possibilidades.

Recém-promovida à Divisão Maior, e ainda sem qualquer experiência, da alta roda do futebol nacional, o União outras aspirações não poderia ter que não respeitassem à permanência no escalão para onde só Deus sabe à custa de quantos sacrifícios adregou trepar. Pois bem, essa meta já se encontra atingida, o União de há muito que tem assegurada a sua permanência entre os «grandes» e agora o objectivo da equipa, que outro não pode ser, que não marcar presença por alguma forma, ainda que nunca à custa de «sangue, suor e lágrimas», que foram, afinal, os ingredientes postos na batalha da sobrevivência. Ontem, em Coimbra, o União lutou enquanto houve algo porque lutar, jogou enquanto a Académica deixou jogar e, depois, com a partida perdida, e senhores como estavam os rapazes de Coimbra do jogo, os nabantinos mais não tinham que submeter-se a uma defesa mais ou menos porfiada, que só não foi esclarecida tal como as circunstâncias sempre aconselhariam, porque o adversário, possuidor de uma envergadura técnica bem acima da mediania do futebol indígena, nunca o consentiu.

Na turma tomarense, apenas um homem conseguiu emergir em todo o tempo da mediocridade geral e esse homem foi Conhé, o guarda-redes barreirense, que, com um punhado de boas defesas, terá realizado, quiçá, a missão que se deve exigir aos guarda-redes a sério, defendendo tudo quanto era de defender, e consentindo quatro golos para que se não vislumbraram quaisquer espécie de responsabilidades.

Caló, no eixo da defesa, exibiu-se também em bom plano, lutando bem com o duo de aríetes de Coimbra, ainda que a sua actuação não tenha conhecido períodos de especial fulgor. Ferreira Pinto, terá realizado outra das exibições válidas da equipa de Tomar, se bem que o seu comportamento seja passível de recriminações graves, a menos grave das quais terá sido o facto de, pelo tempo fora, ter adoptado um ritmo muito menos vivo do que aquele que imprimiu às suas primeiras arrancadas, denotando assim falta de condição física.

Da equipa de Coimbra já pouco mais há que dizer. À falta de um adversário que incentivasse para uma actuação ao nível daquilo que se encontra ao seu alcance, a turma de Maló realizou aquele mínimo que seria lícito exigir-lhe. O resultado, cifrando-se numa margem de quatro golos, dá bem uma imagem do que foi a sua supremacia. De salientar a execução desse «gravoche», Nene de seu nome, a quem mesmo sem o beneplácito e os favores de todos os astrólogos do Mundo, não será difícil vaticinar largo futuro, dada a gama de recursos agora exibidos. No resto, há, a denotar simpatia pelo passado de grande jogador que foi, a actuação do «capitão» Rocha, a merecer nota «três», ainda que, pelo tempo fora, lhe possam ser apontados momentos de menos rendimento, compreensíveis, contudo, se se atender a que já não se trata de um jovem; as exibições marcadas pela pendularidade do duo Alhinho-Vieira Nunes, o segundo, quiçá, menos bem que o primeiro, e finalmente, os dois golos de Manuel António, que parece agora ter arrancado decisivamente para a grande corrida ao ceptro dos grandes marcadores do futebol indígena.

Do trabalho de Fernando Leite, dir-se-á que não deixou margens para grandes reparos, se bem que, aqui e ali, um ou outro lapso lhe possa ser imputado, particularmente quando se tratou de destrinçar o intencional do não intencional e na apreciação da lei da vantagem, capítulo em que usou um critério que teve o seu quê de viscoso.»

(“A Bola”, 17.03.1969 – Crónica de Carlos Sequeira)