Julho 2010


(“A Bola”, 25.05.1970)


(Imagem – “A Bola”, 25.05.1970)

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(“A Bola”, 18.05.1970)


(Imagens – “A Bola”, 18.05.1970)


(“A Bola”, 04.05.1970)

(“A Bola”, 27.04.1970)

(Imagem – “A Bola”, 23.04.1970)

(Imagens – “A Bola”, 27.04.1970)

(foto enviada por Carlos Silva)

Fotografia da que terá sido a primeira equipa do União de Tomar (na altura, ainda sob a denominação de Sport Grupo Caixeiros de Tomar)

Em 1º plano, da esquerda para a direita: Augusto Mata Gatos, Pinto Bastos e João Silva
Em 2º plano: Manuel Perna, Viriato e João Alves
Em 3º plano: António Vital, João Carrasqueira, Freitas, João Maria e António Nunes

“COIMBRA NÃO FEZ «BONITO» NEM À HORA DA DESPEDIDA”

Estádio do Calhabé, em Coimbra

Árbitro – Carlos Monteiro, de Setúbal

ACADÉMICA – Cardoso (-) (4m – Abrantes (2)); Feliz (2), Alhinho (1), Rui Rodrigues (2) e Marques (2); Mário Campos (2) (69m – Vitor Gomes (1)), Rocha (2) e Vítor Campos (1); António Jorge (2), Nene (2) e Serafim (3)

U. TOMAR – Fernando (0) (50m – Conhé (2)); Faustino (2), João Carlos (2), Dui (1) e Carlos Pereira (1); Raul (1), Ferreira Pinto (1) e  Manuel José (2); Vieira (1) (71m – Totói (1)), Tito (1) e Leitão (1)

1-0 – Mário Campos – 1m
2-0 – Rui Rodrigues – 48m
3-0 – António Jorge – 77m
4-0 – António Jorge – 87m

«Substituições – Aos 4 minutos Cardoso lesionado cedeu o seu lugar a Abrantes (2). Aos 50 m. foi Fernando que saiu entrando Conhé (2) para a baliza do União. Finalmente aos 69 e 71 m. Mário Campos (Académica) e Vieira (Tomar) foram rendidos, respectivamente, por Vitor Gomes (1) e Totói (1).

Resultado ao intervalo: 1-0.

O primeiro golo da partida surgiu quando o minuto inicial ainda mal decorrido era. Assim, Serafim escapou-se pelo seu flanco, centrou, Fernando rechaçou com os punhos mesmo para a frente das suas balizas, Rocha surgiu oportuno a fazer a recarga acabando o guardião nabantino por deixar escapar infantilmente o esférico quando o tinha já nas mãos. Mário Campos, que acorreu lesto, mais não fez que confirmar o tento pois que tento haveria ainda mesmo que não houvesse metido o pé à bola em momento anterior a este ter ultrapassado a linha de golo.

Resultado da 2.ª parte: 3-0.

Aos 48 minutos, novo golo, sendo desta feita Rui Rodrigues o seu autor. Remate falho de potência desferido pelo moçambicano de distância superior a 30 metros, que o guardião Fernando deixou escapar para dentro das balizas depois de ter tido – uma vez mais… – a bola nas mãos.

3-0, aos 77 minutos. Serafim lançou António Jorge, que correu em direcção às balizas seguido de perto por um defensor de Tomar e rematou fazendo o golo.

Finalmente, 4-0, aos 42 minutos. Nene lançou António Jorge que se adiantou na direcção das balizas tomarenses iludindo muito bem saída de Conhé para fazer depois o golo com um disparo frontal e quase que já sem qualquer espécie de oposição.

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Na tarde cinzenta e melancólica que ontem caiu sobre Coimbra a emprestar à cidade tonalidades de um romantismo há muito ultrapassado, teve qualquer coisa de fatalmente simbólica a derradeira apresentação do União de Tomar no Calhabé.

Situada num plano ímpar na geografia do pensamento português Coimbra traz atrás de si toda uma tradição literária que teve a sua origem não se sabe já quando e agora, em pleno Século XX, quando os americanos saltam (quando saltam…) menos segundo coordenadas tradicionais, continua a chamar de Saudade à Saudade, de despedida à despedida.

Ontem, numa jornada que mau grado ser a derradeira do «Nacional» trazia envolto o aliciante da definição das muitas posições de importância, o embate de Coimbra nenhuma particularidade definitiva tinha a recomendá-la – marcava apenas a derradeira apresentação da equipa de Tomar no «Nacional» da I Divisão e o reencontro da Briosa com os últimos lugares da tabela, a bem dizer hábito que a equipa de há muito tinha perdido, ia de julgar-se mesmo que para sempre.

Jogo calmo, morno como a tarefa morna, como se a Natureza quisesse comungar da nostalgia dos espíritos. Bancadas silenciosas, aqui e além a agitarem-se com a presença de um ou outro curioso de fim de estação que as circunstâncias não davam também para mais. Silêncio no Calhabé, um silêncio de quietude final, que aconchega os espíritos, que os restitui à paz merecida. Quando merecida… Isso tudo e uns solistas, entoando baixinho, num tom monocórdico:

«Coimbra tem mais encanto
na hora da despedida…»
… … … … … … … … … …

Pois é. Que antes, pois era. Mas não foi. A princípio acreditou-se nisso, acreditou-se que as duas equipas, metidas em brios, pudessem fazer bonito. Tratava-se de uma despedida e as despedidas convidam a rasgos poéticos. Acreditou-se. Chegou a haver quase que uma promessa. Mas ficou-se por aí.

Verdade que de uma promessa unilateral se tratou e quem a ela se vinculou foi só a equipa da Académica, quando ainda mal um minuto de jogo decorrido era e Mário Campos (ou Rocha? o mérito não foi todo do macaísta? Se ele até fazia o golo mesmo sem o mais novo dos Campos ter metido o pé à bola…) inaugurou o marcador nas circunstâncias em cima já descritas. Tratou-se, é claro, de um golo um bocado facilitado («escandalosamente» facilitado…) mas, que diabo, um golo é um golo e quando surgido logo no minuto inicial pode até ter o condão de atirar uma equipa para um resultado do outro mundo e a outra para uma exibição desastrosa.

Tudo isso aconteceu no primeiro minuto de jogo. Pois dois minutos volvidos Serafim (que aliás nem parece o mesmo de há meses… para melhor, claro está) iludindo muito bem a vigilância da defesa nabantina, se escapuliu por uma nesga de terreno para «arrancar», já à entrada da área, um autêntico «tiro» à trave que não possibilitava quaisquer hipóteses de defesa ao guardião Fernando. E em resposta desce o União de imediato ao meio-campo defendido pela Académica – bola conduzida por Tito, que aguardou a saída de Cardoso para depois, um tanto ou quanto infantilmente, lha fazer passar a rasar a base do poste. Aconteceu aos quarenta [quatro] minutos de jogo, saindo Cardoso lesionado do lance e cedendo por via disso o seu lugar a Abrantes que fez, assim, um tanto ou quanto inesperadamente a sua estreia no Campeonato.

Quatro minutos de jogo. Saldo: um tento e duas expectativas de golo desperdiçadas, acontecendo que em qualquer delas a sensação de que a bola iria transpôr o risco fatal se arrastou até ao derradeiro momento.

Um grande jogo em perspectiva? Pelo menos a promessa de emoção a rodos. Uma promessa que se ficou pelos bons prenúncios. Porque a verdade é que se a partida tivesse ficado por aí nada se perderia. Nadinha. A bem dizer «quase tudo» quanto ontem de bom se viu no Calhabé aconteceu nesses quatro minutos iniciais. O resto? O resto foram os outros 86 minutos necessários para que se cumprisse o tempo regulamentar mas que acabaram por fazer gorar toda a expectativa que em seu torno se tinha criado!

Esteve mal a Académica e esteve mal o Tomar também. Essa a verdade primeira do jogo. Aliás, nos momentos que se seguiram ao golo ainda foi a equipa de Tomar que melhor futebol praticou, exibindo uma toada certinha, bola passada ao primeiro toque, triangulações bem imaginadas. Claro que de um futebol mais ou menos estéril se tratou o que aliás não surpreende visto ser essa uma das características dominantes da equipa, de uma equipa que tem – teve sempre – bons executantes, mais ou menos disciplinada tacticamente, mas que não vai além disso, que não vai além dessa cadência quase primária que toda a época tem exibido.

Para caricaturar o que foi a manobra do grupo de Tomar bastará dizer-se que Abrantes, entrado aos 4 minutos de jogo, praticamente não foi chamado ao longo dos 86 minutos que permaneceu em campo para resolver uma situação verdadeiramente difícil!

É claro que não falte quem argumente que a equipa tinha jogadores para poder manter-se na I Divisão. Certo. Mas valha a verdade que o Braga também tinha jogadores para isso. E desceu. E que as doze equipas que se classificaram nos doze primeiros da geral o fizeram com muito mérito. E que todos os anos desce, pelo menos, uma equipa que na opinião mais ou menos sentimentalista do público dos Estádios tem futebol para não descer.

Ora, é aqui que terá de entrar em jogo uma destrinça de base – ter jogadores (entenda-se, poder contar com jogadores de razoável nível) é uma coisa; ter futebol (praticar futebol de índice táctico-técnico aceitável) outra bem diferente.

Ninguém pretende negar aos jogadores do União o valor que eles efectivamente possam ter. Tomaram muitas equipas da I Divisão Nacional poder contar com homens como Conhé, João Carlos, Manuel José, Ferreira Pinto, Tito, Vieira, mesmo Leitão. E a par desses outros militam no clube de Tomar que mesmo sem pertencerem ao número dos «primeiros planos» teriam bastas possibilidades de cumprir a contento com a sua missão qualquer que ela fosse.

Então, perguntar-se-á, se tudo isso é assim, porque se afundou de tal forma a equipa de Tomar, porque se precipitou tão cedo no abismo da II Divisão?

A resposta à questão, não a trazemos na manga, não. Mas quando … que dos sete elementos …, um veio do Luso, dois do Atlético e, outro do Sporting e finalmente os três restantes do Benfica, quando se acrescentar ainda que em certos casos os quatro clubes referidos nem sequer eram os clubes de origem de todos esses homens, já se terá erguido uma ponta do véu.

Quando Cristo andava pela Terra – rezam as Escrituras, cuja veracidade tem sido, aliás, já sobejamente impugnada nesta Era de contestação… – homens houveram que tentaram erguer Babel e o resultado foi o que se conhece. A equipa de Tomar, formada por homens dos mais diversos credos, raças, origens, cores (da pele, entenda-se…) até, foi aquilo que só muito dificilmente poderia ter deixado de ser: uma Babilónia onde ninguém se entendia com ninguém mau grado as combinações na aparência mais ou menos vistosas que os jogadores ensaiavam a meio-do-terreno mas nunca antes de meio nem depois tão pouco…

Já se referiu de forma bem evidente que depois do golo e antes do intervalo os nabantinos exibiram a espaços uma toada de jogo muito certinha, com passes e triangulações bem medidos, sem que, contudo, conseguisse levar seus intentos mais além. E isso só, em futebol, nada é, nada representa. A única coisa que em futebol se reveste de significado são os golos. Tudo o mais é acessório. E golos não os fizeram os nabantinos nem estiveram tão pouco à beira disso se se exceptuar aquele ensejo por Tito desperdiçado e a seu tempo referido, no lance em que Cardoso saiu lesionado.

Golos nunca os fará o Tomar a jogar assim (e assim de resto tem jogado durante toda a santa época…) pelo menos enquanto jogar contra equipas na posse plena dos mais elementares princípios de defesa em futebol.

Em lugar disso, em lugar de fazer golos ou de tentar fazer golos sequer, o União esteve sempre por na eminência de sofrê-los quer antes quer depois do intervalo (então sofreu três mas poderiam ter «acontecido» muitos mais) o que só não sucedeu porque a equipa de Coimbra se encontra distante, muito distante da sua melhor condição. Que diferença entre esta Académica abrílica, bisonha, meio falha de imaginação, meio «burocratizada» e a Académica de Wilson, matreira, ambiciosa, azougada, eternamente arrapazada que encheu os campos desse Portugal há não muitos anos ainda.

Ontem, mesmo jogando sem aquela alegria que constituíu, de Mestre Cândido a Mário Wilson, a sua melhor legenda, ainda os estudantes desenharam várias jogadas de golo (Serafim foi um autêntico motor de propulsão, despejando centros sem conta para cima da baliza do União) que só por manifesto acidente não transformaram. Aliás, o curioso será referir-se que de tantas, tantas oportunidades de golo a Académica limitou-se a fazer funcionar o «marcador» por quatro vezes, acontecendo que desses quatro tentos só um – o terceiro – não deixou margem para qualquer reparo. Assim os dois primeiros só foram possíveis porque nas balizas da equipa de Cabrita se encontrava um homem chamado Fernando que começa por não ter nome de guarda-redes (o que é o menos) e acaba por não ter a mínima noção de como jogar na baliza – o que é tudo… Isto quanto aos dois primeiros. No quarto já a culpa não foi de Fernando – antes disso, o outro Fernando, o Fernando Cabrita, dera ordem ao moço para avançar para o duche reparador que só não haveria de reparar os «frangos»… – mas do árbitro e do bandeirinha do lado da «central» que fartos de assinalarem «deslocações» inexistentes acabaram por deixar passar em claro uma de todo o tamanho…

Isto foi, a traços largos, o que aconteceu à Académica na última jornada do Campeonato, escusando-se o comentarista de especular sobre o muito mais que lhe poderia acontecer se o Campeonato não tem terminado ontem já…

Reza o fado famoso que Coimbra se põe sempre mais bonita na hora da despedida. Pode ser que sim, pode ser que aconteça assim mesmo. Mais bonita, todavia mais triste também. Ontem à tarde foi de tristeza. Pôs-se triste a Natureza, triste se apresentou o Calhabé também, triste, finalmente foi o espectáculo pelas duas equipas oferecido, talvez melhor pelas três que a arbitragem também. Mas adiante que já lá vamos…

Duas notas positivas, primeiro que tudo para Feliz e Abrantes dois novatos na equipa da Académica que mostraram valor. Serafim, um jogador que conhece frequentes eclipses, apresenta-se também em boa condição, jogando agora com a alegria que antes lhe faltava. Em bom plano igualmente Rui Rodrigues, Rocha (será que ele aprendeu mesmo em manter o segredo da juventude eterna? Com trinta e muitos anos e a jogar ainda desta maneira?) e Nene. António Jorge fez dois golos, demonstrou aptidões, mas não esteve totalmente feliz quebrando muito o ritmo das jogadas. Mário Campos assim, assim. Vitor Campos uns bons «furos» abaixo do irmão. Pareceu-nos em má condição física, sem a pujança e a genica dos seus grandes momentos. Alhinho muito sobre o f[r]aco também. Marques nem sobre o fraco se esteve porque trabalho para tanto se teve.

Na equipa de Tomar Conhé com algumas defesas seguras, João Carlos, sóbrio, mas muito eficiente nos cortes e Manuel José empreendedor até ao sacrifício tentando dar arrumação a uma casa que não tinha arrumo, foram os homens que mais se distinguiram.

Infeliz o trabalho do árbitro setubalense Carlos Monteiro, que cometeu erros em excesso numa partida que nem por isso oferecia dificuldades por aí além. Se há todavia que responsabilizá-lo pelas culpas que efectivamente lhe pertenceram (e foram muitas…) haverá também que reconhecer que foi muito mal auxiliado pelos seus colaboradores (particularmente pelo que se encontrava do lado da «central» que o desajudaram em lugar de o ajudarem conforme mandam os cânones…»

(“A Bola”, 20.04.1970 – Crónica de Carlos Sequeira)


(Imagem – “A Bola”, 20.04.1970)

                            Total               Casa            Fora
                   Jg  V  E  D    G    Pt   V  E  D   G     V  E  D   G
 1º Sporting CP    26 21  4  1  61-17  46  12  1  - 36- 7   9  3  1 25-10
 2º SL Benfica     26 17  4  5  58-14  38  10  2  1 39- 3   7  2  4 19-11
 3º VFC Setúbal    26 16  4  6  58-26  36  11  1  1 36-10   5  3  5 22-16
 4º FC Barreirense 26 11  6  9  42-33  28   7  4  2 29-13   4  2  7 13-20
 5º VSC Guimarães  26 12  4 10  38-36  28  10  1  2 27- 9   2  3  8 11-27
 6º Varzim SC      26 10  8  8  31-26  28   5  5  3 20-13   5  3  5 11-13
 7º CF Belenenses  26  9  5 12  23-34  23   7  1  5 14-11   2  4  7  9-23
 8º GD CUF         26  9  5 12  24-38  23   5  2  6 13-19   4  3  6 11-19
 9º FC Porto       26  8  6 12  30-37  22   6  3  4 19-13   2  3  8 11-24
10º Académica      26  8  6 12  42-46  22   7  1  5 28-16   1  5  7 14-30
11º Leixões SC     26 10  1 15  33-47  21   9  -  4 25-14   1  1 11  8-33
12º Boavista FC    26  6  6 14  35-61  18   6  6  1 24-15   -  - 13 11-46
13º SC Braga       26  6  5 15  25-52  17   5  4  4 17-15   1  1 11  8-37
14º UFCI Tomar     26  5  4 17  20-53  14   4  3  6 15-20   1  1 11  5-33

Benfica – Varzim – 1-0
Guimarães – Porto – 1-0
Belenenses – Barreirense – 0-1
Académica – U. Tomar – 4-0
CUF – Setúbal – 0-4
Boavista – Braga – 2-0
Leixões – Sporting – 2-5

Despromovidos à II Divisão – Braga e U. Tomar
Promovidos da II Divisão – Tirsense e Farense

Apurado para a Taça dos Campeões Europeus – Sporting
Apurados para a Taça Cidades com Feiras – Setúbal, Barreirense e Guimarães
Apurado para a Taça dos Vencedores de Taças – Benfica  (vencedor Taça Portugal)

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