“QUANDO TITO E CLÁUDIO SÃO «CARRASCOS» NO BARREIRO…”

Estádio «Alfredo da Silva», no Barreiro

Árbitro – Fernando Pereira Martins, de Lisboa

CUF – Vitor Cabral (1) (37m – Guimarães (1)), Bambo (1), Américo (1), Medeiros (2) e Castro (1); Pedro (1) e Arnaldo (1); Eduardo (0) (45m – Capitão-Mor (1)), Fernando, «cap.» (1), Monteiro (1) e Louro (ex-Lusitano de Évora, 1)

U. TOMAR – Conhé (1); Kiki (1), João Carlos (ex-Atlético, 2), Faustino (1) e Barnabé (1); Ferreira Pinto (1), Leitão (1) (45m – Cláudio (1)) e Manuel José (ex-Benfica, 1); Armando Luís (ex-Sporting, 1), Tito (ex-Atlético, 3) e Vieira (ex-Benfica, 1)

0-1 – Tito – 65m
0-2 – Cláudio – 89m
1-2 – Fernando – 91m


«Num lance de grande perigo, aos 37 minutos, Vítor Cabral ficou seriamente magoado, ao lançar-se aos pés de Tito, desmarcado na sua frente e com a bola perto. Foi substituído por Guimarães (1).

Outras substituições – no início do segundo tempo, Cláudio (1) ocupou o lugar de Leitão e Capitão-Mor (1) o de Eduardo.

Ao intervalo: 0-0.

0-1, aos 65 minutos. Jogada de contra-ofensiva dos nabantinos, com parte do «onze» do Barreiro parado, a observar o toque de Cláudio para Vieira, este a receber o esférico e tocá-lo para a frente da baliza. Tito, com um «tiro» de grande efeito, obteve um golo de espectáculo.

Novo tento tomarense aos 89 minutos. Armando Luís desceu ao seu meio-campo, dominou a bola e serviu Tito, livre no flanco direito. Um centro-passe e Cláudio, de cabeça, colocou o resultado em 2-0, a favor do União de Tomar.

1-2, aos 91 minutos, por Fernando, hábil a tirar proveito de um deslize adversário, tocando a bola para golo, à beira da baliza defendida por Conhé.

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A partida do Barreiro, entre dois conjuntos que estão preparados para serem animadores do «Nacional», não aspirando a títulos de sensação nem pensando nas posições de despromoção, foi ganha pelo União de Tomar, com o mérito que premeia as turmas capazes de aproveitarem, no melhor momento, as flutuações de um encontro de futebol.

Não foi famoso, em cintilações de talento individual o encontro disputado no excelente relvado do muito funcional Estádio «Alfredo da Silva», tão pouco as duas formações se distinguiram na explanação de futebol-jogado digno de encómios.

Jogou-se num tom brando, muito punhos de rendas, excepto nalgumas entradas mais viris e maldosas prontamente banidas do espírito de certos jogadores, pelo que o encontro não poderá merecer da parte de uma crítica feita com objectividade e frieza uma adjectivação sonora e entusiasta…

Os dois conjuntos têm estrutura, jogadores e potencialidades intrínsecas capacíssimas de chegaram a outro nível exibicional com mais alguns encontros do «Nacional», porque será na competição a sério, sem rodriguinhos e experiências, que aparecerá o melhor rendimento, a «forma» que nos dará a verdadeira ideia sobre o valor do União do Tomar e do Grupo Desportivo da C. U. F.

Ontem, as duas equipas desinspiraram-se, apresentando-se muito distantes do seu realíssimo valor. Ganhou o «onze» de Tomar, que não procurou o domínio territorial – uma concepção de futebol desactualizada e que «obriga» as formações «caseiras» a imporem o seu futebol junto da defesa adversa… E venceu bem! Houve no conjunto nabantino uma melhor adaptação às circunstâncias fortuitas do jogo: não estarem a render muitos dos «peões» de cada equipa.

Poderá argumentar-se que o «team» do Barreiro soube durante muito tempo assediar as balizas de Conhé, batido por más saídas em três ocasiões flagrantíssimas, duas salvas «in-extremis», por João Carlos (49 m) e Barnabé (58 m).

É incontroverso!

Mas a C. U. F. não se apresentou como uma equipa audaz, de futebol jogado com plena consciência, atacou mas não executou essas ofensivas com «self-control», firme convicção e a decisão habitual quando o conjunto se encontra em «forma» notável.

Jogou o Tomar? Desagradou também, mas a formação soube construir alguns movimentos de certo engenho e os dois tentos resultaram do inteligente aproveitamento da aptidão técnica de alguns jogadores.

No primeiro, a equipa do Nabão foi rapidíssima numa jogada de ressaca e quando Cláudio colocou a bola ao alcance de Vieira, porque motivo o «team» do Barreiro não recuou para apoiar Bambo, Américo e Castro? Seguiu-se um lançamento para os pés de Tito e o ex-Atlético, à vontade, rematou portentosamente, obtendo um golo de antologia, tal a força e direcção do pontapé!

No outro tento, Tito desmarcou-se no flanco direito do seu ataque e Castro ou Medeiros deixaram-no sem marcação, uma falha justificável, talvez, por fadiga, para se seguir um estupendo «passe-centro»: Cláudio viu e apareceu a cabecear o esférico para a baliza de Guimarães, não surgindo ninguém, da CUF a perturbar o brasileiro.

Não haja dúvidas: Tito e Cláudio foram no Barreiro dois «carrascos» das ambições do Grupo Desportivo da CUF.

As mesmas sinfonias

Tanto o União de Tomar como a CUF mesmo não se exibindo com um futebol-jogado de rica expressão mostraram-se mentalizados para construírem um jogo pleno de «association», muito colectivo, simples e esclarecido, quando decorrerem mais domingos de intensa actividade.

Existe nas duas formações uma concepção moderna das ideias em voga, porque a Académica de Coimbra e o Benfica, no melhor dos seus dias, são os paradigmas do futebol que somos capazes de pôr em prática.

Apercebemos essa tendência, agora em firme evolução no Sporting, no «team» da CUF, mas a sua condição física não pareceu ser a melhor, porque o processo aparentemente económico exige que os jogadores estejam perto da bola, para a passarem entre si, movimentando-se o conjunto para a frente sempre que se forjem espaços vazios na defensiva do adversário.

Igual tendência se notou no União de Tomar, com muitos jogadores a defenderem e bastantes quando era preciso atacar – em todo o primeiro tempo.

Tanto o União de Tomar como a CUF pretendem tocar a mesma «sinfonia» que alguns treinadores ensinam a outros «quadros», mas os intérpretes não possuem todos a mesma capacidade de execução e, ontem, no Barreiro a desafinação foi grande, por outras razões.

O ataque do Tomar começou em ritmo de franca ofensiva. Procurou a baliza de Vitor Cabral, com insistência. Pouco rematou. A defesa da  CUF, com Américo na sua «cobertura» frontal, não se desuniu e Tito ou Leitão passaram, de início, despercebidos.

Essa preocupação de atacar, por parte de Tomar, acabou por ser prejudicial psiquicamente para o «onze» de Costa Pereira, que começou o encontro com prudência. A jogar calmamente com Fernando e Monteiro na junção de «pontas-de-lança», móvel o segundo, mais incrustado no reduto contrário, o «capitão» da equipa.

Replicava o Tomar: Tito adiantado e em desmarcações constantes. Leitão o outro «aríete» que recuava, sempre que o seu «team» defendia. Certo. Sinfonia conhecida noutras orquestras.

Perigo? Nulo durante trinta minutos…

Mas o Tomar mudou de opinião, ou o «team» da CUF, com Pedro e Arnaldo, numa fase de melhor carburação, obrigou o adversário a jogar em «4x4x2». Retendo a bola. Segurando-a, quando podia. Manuel José, Ferreira Pinto e Leitão uniram-se no meio campo, apoiados também em Armando Luís. Contra-ataques de Tomar? Ainda poucos… e detectados, à distância, por Medeiros e Américo, este numa junção de «pronto-socorro».

Até final do primeiro tempo, a CUF teve mais oportunidades de possível golo e desaproveitou-as.

O que se passou ao intervalo? Tanto Costa Pereira como Óscar Tellechea procuraram novas soluções. Na CUF entrou o «ponta-de-lança» Capitão-Mor e reconstituiu-se o temível par com Fernando. Preocupação? Jogar mais ao ataque, mas com dois homens-golo em cima de João Carlos e de Faustino.

A formação de Tomar teve outras preocupações: ganhar a hegemonia do «miolo», com o terceto Ferreira Pinto, Manuel José, mais ao centro, como «pivot» do processo, além de Cláudio, um jogador lento mas esclarecido. Como ganhar? Seria Tito o jogador a lançar, em velocíssimos contra-ataques, desde que a defesa e o meio-campo não se descontrolassem.

A CUF tentou tudo. Atacou com outra determinação e João Carlos ou Barnabé «salvaram» possíveis golos.

Mas o futebol é uma caixinha de surpresas e os melhores planos, bem arquitectados, nutrem eficiência por uns pequenos nadas.

Quando Cláudio, aos 20 minutos, ficou com a bola nos pés, depois de uma avançada de grande efeito da CUF, com Pedro, Arnaldo e Medeiros lá para a frente, o brasileiro tocou a bola para Vieira e criou o momento psicológico do jogo: o de um golo, julgado impossível.

A vencer por 1-0, o União refinou na retenção da bola: uniu-se atrás; procurou manter-se cerrado e não abrir, para a CUF se preocupar com a falta de espaços onde circulasse a bola.

Inesperadamente, Tito foi capaz de criar outra ocasião soberana, perto do termo do encontro. O resultado de 2-0, era imerecido para ambas as turmas. Fernando colocou a marca em 2-1, mais equitativa e de harmonia com as flutuações do encontro.

Iniciou-se o União num estilo de jogo. Mudou. Acabou por ser uma formação de «4x4x2»… Começou a CUF muito serena. Pouco veloz. Acabou em «4x2x4». Com outra velocidade depois do 1-0. Foi tarde, porque o «onze» de Tomar ganhou moral e o estado psíquico é um grande trunfo.

Nutriu-se o jogo de intencionalidades que definem os progressos do futebol nacional ao nível dos conjuntos mais modestos. Mesmo não ganhando foros de brilhante, as equipas de Tomar e do Barreiro deram ao espectador uma planificação de jogo calmo, com a preocupação de o esférico andar mais junto à relva, em triangulações. Faltou emoção, a faixa de perigo que desperta o favor da assistência. Jogou-se em marcação, enquanto os defesas tiveram pernas para correrem e ganharem lances de antecipação. Neste capítulo, João Carlos, Américo, Bambo e Castro procuraram acertar, de acordo com a sua actual condição físico-atlética. Houve uma ideia – nem sempre aliviar o esférico de qualquer forma. Houve tendências em Barnabé, Faustino e Medeiros.

Na estratégia procurou-se que a bola não fosse do adversário. Acertou-se nos passes a dez ou cinco metros, o que é fácil, mais que os lançamentos longos, ontem quase inexistentes com conta, peso e medida. É difícil.

Por essa facto o jogo foi parco em futebol objectivo nos dois ataques. O de Tomar, nas deslocações, será contundente se Tito for mal marcado. Na CUF, a oscilação dos «aríetes» complicou.

As figuras

A derrota da CUF não justificará desânimo, porque poderá ser recuperada, quando a turma chegar a outra condição físico-atlética, para o «association» do seu estilo. Simples e com soluções.

Houve frustrações que inibiram a vitória. O sector médio, tão influente na época anterior, não carburou. Desuniu-se a defesa em trechos dominantes, não se apoiou o ataque, nas fases mais necessitadas. Da má tarde (ou irregular) de Pedro e Arnaldo se ressentiu o conjunto.

Vitor acertou em defesas ao seu alcance e foi vítima da sua temeridade quando Tito apareceu à sua frente. Bambo e Castro não estiveram no seu melhor. Américo bastante sofrível, numa tarefa que exige atenção. Medeiros à procura do seu ritmo. Pedro e Arnaldo inconsequentes. Eduardo não se inspirou. Louro, um jogador potencialmente dotado, teve uma estreia infeliz, parecendo vencido pela responsabilidade. Monteiro e Fernando não estiveram omnipresentes e Capitão-Mor, sem progressos técnicos, andou à procura da sua jogada predilecta. Magalhães cumpriu.

O Tomar não actuando em grande estilo, mostrou-se, no entanto, capaz de jogar melhor que na época anterior. Reforçou-se e melhorou em qualidade. Nota-se no «team» que existe gente apta. Indiscutivelmente. Lentidão a remediar.

Individualmente, Conhé foi afortunadíssimo, porque falhou e os colegas salvaram-no… em dois lances. Noutros dois, a bola roçou a madeira da baliza. João Carlos: uma grande aquisição e o jogador mais regular em noventa minutos. Com um árbitro mais exigente teria sido expulso quando agrediu a pontapé, Pedro.

Kiki e Barnabé regulares, nada mais. Faustino enérgico como sempre e no seu rendimento. Ferreira Pinto teve ocasiões de boa concepção, a par de outras pouco influentes. Manuel José vai ser um bom trunfo, com outros jogos, desde que discipline melhor a sua movimentação. Cláudio sabe e impõe a técnica, mesmo com a sua congénita lentidão. Leitão sem força (ou treino) para tanta movimentação. Vai melhorar. Vieira, hábil é um reforço, que se verá com o tempo. Tito, o melhor jogador do ataque, um excelente elemento para o contra-ataque.

Impressionante de serenidade, no seu golo e no outro que «ofereceu». Armando Luís o futebolista do tecnicismo, magnífico sempre que tem a bola, resistência à parte.

A arbitragem

Fernando Pereira Martins, em «forma» oscilante como os jogadores, ressentiu-se desse senão, não acompanhando as jogadas. Teve bons julgamentos técnicos, sem dúvida, porque conhece as leis e sabe aplicá-las. Não percebemos, no entanto, porque deixa os guarda-redes «passear» com a bola na grande-área, agarrá-la depois e com tanta perda de tempo, não marcou os livres-indirectos que eram de exigir.

Porque consentiu tanta «conversa» ao jogador Fernando?

O «capitão» de uma equipa não poderá discutir por tudo e por nada. Já demos a nossa opinião, numa agressão de João Carlos, que se passou perto de si.»

(“A Bola”, 08.09.1969 – Crónica de Mário Macedo)

(Imagem – “A Bola”, 08.09.1969)