“OS «BEBÉS» DE MATOSINHOS ESTRAGARAM A FESTA…”

Estádio Municipal de Tomar

Árbitro – Carlos Dinis, de Lisboa

U. TOMAR – Conhé (2); Kiki (2), João Carlos (1), Faustino (1) e Barnabé (2); Ferreira Pinto, «cap.» (1) e Cláudio (0) (45m – Alberto (2)); Armando Luís (2), Tito (1), Leitão (2) e Vieira (1) (79m – Dui (1))

LEIXÕES – Ferreira (3); Barros (2), Adriano (2), Raul Machado (2) e Raul de Oliveira, «cap.» (1) (44m – Geraldinho (2)); Gentil (2) e Bené (1); Quim (1), Esteves (2), Horácio (0) (58m – Albertino (2)) e Neca (2)

0-1 – Neca – 76m


«Ao intervalo: 0-0.

0-1 aos 31 minutos do segundo tempo. Excelente lance de infiltração no flanco esquerdo da defesa nabantina, Gentil aproveitou e centrou rasteiro, falhando rotundamente a intercepção necessária os defesas João Carlos e Faustino, que poderiam ter tocado no esférico. Surgiu, em corrida, o extremo Neca que num remate com o pé direito soube explorar a situação.

Substituições. Raul Oliveira por Geraldinho (44m), que passou a capitanear o «onze» do Norte. O brasileiro merece a nota 2. No reatamento de jogo, Alberto (2) substituiu Cláudio; Albertino (2) entrou para o lugar de Horácio, aos 58 m e, finalmente, Dui (1), aos 79 m, passou a ser um dos defesas do Tomar, por saída de Vieira. Faustino foi para a frente…

A linda e atraente cidade de Tomar esteve, ontem, em festa, com a inauguração de um excelente tapete de relva, no seu inacabado Estádio Municipal, que, pouco a pouco, adquire contornos de maior beleza.

Dia de temperatura aprazível, neste Verão de Outono, com o Sol menos perturbador, e duas formações que têm equilibrado as suas exibições, ganhando e perdendo pontos sem um ritus de amargura nos dias maus, ou uma alegria transbordante quando vencem…

Jogou-se em Tomar um futebol calmo, de centelhas, com os jogadores expressando a sua categoria com uma serenidade que nimbou muitas vezes os esquemas de um certo «romantismo», porque, à parte uns períodos de «forcing», da autoria de Alberto – jogador mais de nervos do que de lances embelezados -, a partida teve esta característica: muitos «punhos de renda»!

Um espectador neutro que contasse as fases de domínio ofensivo, ou os lances de «suspense» nas duas balizas, teria forçosamente de estabelecer uma «magra» estatística…

Gostaria o União de Tomar ganhar, no regresso a um campo de tradições, mas os «bebés» de Matosinhos não estiveram pelos ajustes e venceram merecidamente – «estragando», no entanto, a festa do «onze» nabantino.

Esta formação tomarense, tão diferente da que defendeu, com arreganho e garra, na época transacta, a sua permanência na I Divisão, acabou por perder um encontro que estava ao seu alcance, se tivesse imposto um ritmo uniforme, veloz e vibrante, um estilo menos burilado, contra uma equipa tanto mais difícil quanto se se deixar tocarem na bola os magníficos jogadores que dão pelo nome de Barros, Gentil, Esteves, Neca, Albertino e Horácio (menos certo…), capacíssimos de se exibirem num futebol de requintes.

Mas o Leixões de ontem, não justificou, totalmente, na exibição a tarde esplendorosa que teve contra o Belenenses, embora a vitória seja indiscutível, e credora de elogios: foi a melhor turma que evolucionou no magnífico relvado que existe agora junto ao rio Nabão…

Começar bem e desunir-se depois

No momento em que se discute se os nossos jogadores são tecnicamente superiores ou não aos de outras nações onde se pratica um futebol mais atlético, o União de Tomar e o Leixões movimentaram-se, em regra, com muita serenidade, executando, por vezes, com bastante certeza.

Quão antagónico o encontro de Tomar de alguns que vimos recentemente, no estrangeiro, onde se jogou duríssimo, mas lealmente, com os jogadores empenhados numa luta sem quartel, mas mostrando possuirem uma técnica apurada, de primeira, superior, indiscutivelmente, à média dos jogadores do Tomar, mesmo do Leixões, que ainda não são capazes de jogar bem, mas sempre num ritmo veloz, com a sua «sarrafada» à mistura.

Não se podem considerar violentas as fases de um encontro Escócia-Irlanda do Norte ou de um Chelsea-Arsenal, onde os choques de pés e de ombros foram frequentes, como ontem raramente se viu em Tomar, entre formações de maior modéstia.

Cá, o futebol é outro… evidentemente.

Foi, por vezes, agradável o futebol do União, nos vinte minutos iniciais, com um desdobramento fácil de esquemas, pautado por Ferreira Pinto, muito certo a servir o ataque, ou a integrá-lo na fase de total ofensiva.

Marcando sofrivelmente um ataque matosinhense muito desligado, que, de início, nem parecia ser constituído pelos habilíssimos Neca e Esteves, a turma de Tomar procurou, imediatamente, adiantar-se no marcador.

A defesa do Leixões claudicou então imenso, com Raul Machado hesitante perante as desmarcações de Leitão, mesmo com Adriano a não acertar o passo com o jogo de Tito.

Poderia ter surgido um golo, mas os avançados do União não souberam obtê-lo, se bem que na sua frente estivesse um Ferreira em tarde de absoluta segurança.

Não se alterou a toada técnica do jogo quando o Leixões encontrou na sua defesa a forma de evitar tanta infiltração, mas Raul Machado e Adriano, acertando em cheio na melhor «cobertura» de Tito e de Leitão, imediatamente asseguraram ao «onze» nortenho uma outra base para Gentil, Bené e Esteves começarem a aparecer…

Viu-se, então, que Ferreira Pinto jogara muito, mas Cláudio, lento e desgarrado, não o acompanhara. Quebrou, portanto, a espinha dorsal do União, no lado direito, surgindo Vieira no «miolo» (25 m.), para tentar o equilíbrio com o duo Gentil e Bené, cada vez mais coeso e a ter a bola ao seu alcance.

O ataque portuense não correspondia ainda, porque os estrategas, sendo primorosos com a bola nos pés, não sabiam conciliar a maior velocidade do jogo com os passes mais adequados para um Horácio ou um Esteves, que precisam de ser servidos com a bola mais em «tabelas» ou passes rentes à relva.

Certíssimo o empate ao fim dos primeiros quarenta e cinco minutos – com Conhé a defender pontapés de longe (Gentil e Esteves) e Ferreira firme a blocar e pouco perigo iminente na sua frente.

Mais velocidade e ideia de resolver o nulo

Quem assistisse à partida de Tomar deve-se ter apercebido que os jogadores de lugares influentes, como são os «armadores», que mandam, ordenam, impõem uma toada, constroiem e são estrategas, estavam preocupados em fazerem os seus números de execução, mas na frente o futebol era quase igual, sempre que os «pontas-de-lança» possuíam a bola. Havia técnica a mais e «punch» a menos, a garra, decisão, velocidade e intrepidez que os «aríetes» têm de possuir para fazer golos.

Entrou Alberto para o ataque tomarense com a nota de agressividade que o caracteriza. Não será um técnico o jogador do União, mas se Tito se encontra em «forma» irregular e Leitão anda muito cá atrás, porque o Cláudio fraqueja, a solução seria encontrar quem tentasse bater Adriano e Raul Machado.

Alberto, possante, deu outra nota de decisão ao débil e inconsequente sector ofensivo do Tomar e criou «suspense». Também o Leixões mudara de ideias ao intervalo.

Começaram os «bebés» a «bordar» o seu futebol, mantendo a bola no relvado, trocando-a, driblando, esquivando-se e perturbando a defensiva contrária, que entrou num período de menos acerto posicional – ela que nunca fora omnipresente.

Foi Albertino para o lugar de Horácio e, imediatamente, o Leixões passou a ser outro, depois do susto de um remate de Alberto à barra, que Ferreira não defendeu…

A partida adquiriu maior personalidade técnica – por parte dos médios tripeiros, com passes ajustados (à flor da relva) para Esteves e Albertino.

Procurou Leitão a réplica com força, velocidade de pernas e decisão – salvando o guarda-redes do Norte um momento excepcional – com Alberto isolado na grande-área (21 m.), mas Tito logo a seguir (23 m.) obrigou Ferreira a defesa de tarde, quando se pensava num golo na sua baliza!

Criara-se o grande momento psicológico do encontro. Variou-se!

Um futebol rápido e duro, não a dureza dos nossos adversários no estrangeiro, mas maiores choques – sem maldade!

Faustino foi derrubado, mas houve falta; Neca obteve um tento decisivo, na fase de plena carburação de todo o «onze» do Norte; Alberto (sempre ele!) esteve à beira do empate (35 m.), mas Ferreira num golpe de rins evitou o pior.

Perdendo por 1-0, o técnico do União observou – e bem – que havia necessidade de um «miolo» mais atrevido e passou Faustino para a frente, Leitão derivou mais para o meio-campo, sendo Diu o outro «stopper».

Se o Leixões se encontrara no seu futebol, repentista e ardiloso, apesar de não atingir a grande capacidade de outros jogos, procurou o União na decisão emotiva, a possibilidade de obter, pelo menos, um golo. Não o conseguiu, porque a cabeça deixara também de estar fresca.

Ambas as equipas jogaram um futebol aberto, sem a ideia de se reforçar substancialmente a defesa, o que foi magnífico para quem goste de ver actuar formações ao ataque.

Tanto o União, como o Leixões não teimaram, porém, numa toada de total ofensiva, porque se jogou com cautela na defesa, embora nem sempre os defensores tenham actuado bem…

Praticou-se um futebol elástico, com 70 por cento de técnica, nos melhores intérpretes, claro, menos estilo atlético, o que é perfeitamente coerente em jogadores de menores recursos potenciais para este tipo de jogo.

No momento presente, o União tomarense e o Leixões formam conjuntos que tecem um futebol-jogado de raiz técnica, com intencionalidade traduzida na descontracção dos seus jogadores de estratégia, com espaço e tempo para pensarem num estilo mais filigranado que incisivo e profundo na busca do golo.

Ao União, faltaram homens para a caminhada no sentido da baliza de Ferreira – quando o jogo correu à sua feição e a defesa nortenha, um tanto estática, permitiu brechas.

No Leixões houve a possibilidade de se chegar a um remate vitorioso, precisamente num período de inspiração colectiva, com a bola a correr bem de jogador para jogador, criação de espaços vazios e um médio a aparecer perto da defensiva adversária: Gentil.

Em abono da verdade, diga-se que o «aríete» Alberto os defesas-centrais de Matosinhos a muita atenção e Ferreira soube defender sempre que a bola chegou à sua zona de acção.

Endureceu o futebol quando o Leixões vencia por 1-0, porque a turma forasteira resolveu acelerar o ritmo das intervenções, mas com desmarcações curiosas, no evoluir dos lances, o «team» soube conservar a bola – quando ela era sua e devia tentar-se tudo para a não perder…

Com um futebol muito igual na concepção, embora com as suas ideias particulares em relação ao movimento dos médios e extremos, tanto o União como o Leixões se não luziram também não decepcionaram.

Ficou-se em meias tintas, mas os conjuntos observados na relva do Nabão estiveram interessados em ganhar sem o recurso a tácticas superdefensivas, procurando antes uma acção colectiva dos «onzes» – com falhas evidentes nos golpes finais. Quem as não tem? O ataque exige imaginação e rapidez de reflexos, para aproveitar lances. Assim foi no golo de Neca…

Equipas e nomes

A equipa de Tellechea mantém a sua ideia de futebol consciente e possui unidades que a podem levar mais longe, quando encontrarem a «forma» que, ontem, nos pareceu arredia.

Cremos que será necessário rectificar o meio-campo – onde Ferreira Pinto, com o seu tecnicismo não encontra ao lado um companheiro mais atento à marcação e também menos moroso…

Futebol bonito – mas pouco rendoso, até aos vinte minutos do primeiro tempo, mas depois Ferreira Pinto perdeu o ritmo.

Conhé cumpriu e foi batido numa jogada que era dos centrais – à sua frente, Kiki, o melhor defesa, com decisão e confiança começa a aparecer. Barnabé enérgico, mas com menos rapidez nas intervenções, dando a sensação de destreino.

João Carlos, muito distante do jogador que conhecemos no Atlético, não impressionando tanto. Faustino, um lutador, deu tudo o que sabe, mas o seu futebol é de feição para se impor mais quando o Tomar defende muito.

Cláudio não existiu, prejudicando a sua equipa por ausências de jogo, que não se compensaram noutros jogadores. Ferreira Pinto jogou vinte minutos e perdeu um lance para 1-1.

Entre os atacantes notou-se a quebra no «aríete» Tito, menos influência em Vieira, mas Armando Luís, embora frágil, foi o melhor, porque Leitão, com jogadas de brilho, teve outras inconsequentes.

Muito destra, em execução, a formação de António Teixeira, onde os dois veteranos, Raul de Oliveira e Raul Machado, são mais possantes que os restantes «bebés».

Começo desastrado, com o sector defensivo sem antecipação, meio-campo disperso e ataque inexistente. Boa recuperação, por outro «association» e fases de engenho quando o todo se uniu.

Ferreira actuou em grande plano, justificando a preferência. Que pena não sair mais dos postes, para intercepções nas zonas onde pontificam os guarda-redes de renome.

Barros certo e Geraldinho cumpridor. Adriano muito rápido de pernas. Raul Machado, com início fraco, subiu depois e deu ao sector autoridade em palavras e acção. Raul de Oliveira não desiludiu, mas jogou de molde a impor-se enquanto uma lesão muscular não reapareceu.

Gentil, com pés admiráveis, tem futebol às carradas, mas precisa de se dominar. Com um árbitro mais severo poderá sofrer dissabores. Bené assim, assim, com saber e menos força. Horácio, tocado, não se viu em campo. Albertino teve mais presença. Neca muito jeitoso e com ardis técnicos que desorientam. Esteves ainda sem «rodagem» – é um jogador de raça e boa execução. Quim acompanhou os outros.

O trabalho de Carlos Dinis

Cumpriu o árbitro do encontro. Firmeza nas intervenções e boa colaboração dos «bandeirinhas». Reclamou-se muito a marcação de «penalties». No primeiro pedido, Raul de Oliveira entrou, em recurso, mas a intenção foi jogar o esférico. Na jogada de Faustino, quando este foi à grande área do Leixões, que culpa tem Carlos Dinis que o tomarense se desequilibrasse?»

(“A Bola”, 27.10.1969 – Crónica de Mário Macedo)

(Imagem – “A Bola”, 27.10.1969)