“…MAS A SENSAÇÃO – FARIAS IA SENDO MAIOR!”

Estádio Municipal de Tomar

Árbitro – Henrique Silva, de Lisboa

U. TOMAR – Conhé, «capitão» (1); Kiki (1), João Carlos (1), Faustino (2) e Barnabé (2); Ferreira Pinto (3), Armando Luís (1) e Cláudio (0);  Alberto (2) (37m – Leitão (1)), Tito (2) e Vieira (2) (73m – Raul (1))

BARREIRENSE – Bento (2), Murraças (2), Almeida (1), Bandeira (2) e Patrício (1); Valter (2), João Carlos (2) e José João (2); Farias, ex-central do Recife (3), José Carlos «capitão» (0) e Rogério (2)

1-0 – Vieira – 33m
1-1 – Farias (pen.) – 45m
1-2 – Farias – 53m
2-2 – Cláudio (pen.) – 60m


«Substituições – No União de Tomar, Leitão (1) entrou para o posto de Alberto (lesionado) aos 37 minutos e a 17 minutos do fim Raul, ex-junior (1) rendeu Vieira. Antes logo a seguir ao 1-2, Faustino trocara com Leitão que recuara para o posto de Cláudio o qual passara a jogar no centro da defesa tomarense.

Ao intervalo: 1-1.

Marcou, primeiro, o União de Tomar aos 33 minutos. Tito marcou um «corner» do lado esquerdo atirando sobre a baliza de Conhé que repeliu a soco para a saída da área. Kiki metido no seu ataque devolveu a bola para junto da marca de «penalty» onde Vieira à mei volta e sem deixar a bola bater no solo obteve um belo tento.

No último minuto, 1-1. Farias lançado muito bem em profundidade pelo flanco esquerdo entrou isolado na área tomarense e quando se preparava para rematar foi rasteirado pelas costas por João Carlos. O brasileiro transformou o castigo atirando Conhé para um lado e a bola para o outro.

Na segunda parte: 1-1.

Aos 8 minutos, 1-2. Valter executou um centro largo, junto à linha lateral, lançando a bola para a entrada da pequena área onde se encontravam Kiki, Conhé e Farias. O brasileiro foi o único a saltar e cabeceando de cima para baixo colocou a sua equipa a vencer.

Ao quarto de hora, Vieira quis adiantar a bola a Almeida, mas este, muito rápido, atrasou a bola para o seu guarda-redes sem sequer tocar no dianteiro tomarense. Vieira, no entanto, atirou-se para o chão a «ver se pegava» e «pegou» mesmo. O árbitro assinalou um «penalty» escandaloso que os barreirenses protestaram sem proveito. Cláudio marcou muito bem, batendo Bento.

Resultado final: 2-2.

———-

A equipa do Barreirense jogou ontem sobre a excelente relva do Estádio de Tomar um futebol superior ao dos seus adversários, tirando partido de um meio-campo muito rápido e batalhador que impôs ao desafio o andamento que mais lhe convinha. Com efeito a turma de Manuel de Oliveira, explanando-se num «4-3-3», (que aliás foi o sistema seguido, também, pelo seu adversário) tirou assim excelente efeito da lentidão de Cláudio, um jogador com bons pés mas que está a jogar num ritmo impróprio para desafios da primeira divisão e da inexperiência de Armando Luís, um jogador também habilidoso mas que não tem nas pernas nem na cabeça o ritmo que se pede a um jogador de meio-campo.

A lentidão com que o União de Tomar jogou – a viver apenas do esforço de Ferreira Pinto – foi desde logo aceite pelos barreirenses que puseram em campo um futebol que parecia ser igualmente lento, mas que deixou de o ser em inesperadas mudanças de velocidade que desorientaram sempre a insegura defesa dos tomarenses.

No primeiro quarto de hora, o União de Tomar atacou mais, mas os seus três homens que jogaram em posição mais adiantada recebiam a bola sempre tarde e a más horas, em passes feitos «para cima» do jogador e não a solicitá-los em profundidade, como se sabe ser necessário à dinâmica de uma equipa que queira fazer golos no futebol de hoje em dia.

Esse futebol lento, mastigado de jogadas repetitivas onde Alberto procurava «furar» à base de jogadas em força e onde Tito que dava algum sinal de perigo pelo repentismo com que procurava desmarcar-se (e conseguiu-o por duas vezes, mas em ambas estava off-side sem que o árbitro o assinalasse…) e onde Vieira não recebia bolas a explorar a sua velocidade de pernas, vinha a fazer com que a bola se perdesse nos pés dos barreirenses que depois a trocavam lentamente, calmamente, à espera que Farias se desmarcasse, ou que Rogério pudesse sprintar para levar a bola à linha de cabeceira e daí centrar atrasado pelas costas dos defesas tomarenses e para a frente dos dois aríetes seus colegas.

Este futebol barreirense poderia ter dado os seus frutos muito mais cedo se a equipa visitante não tivesse lá à frente uma «pedra morta», o «capitão» José Carlos, um futebolista que jogou sempre só com uma «velocidade» (?). Podendo tirar partido de um «ponta de lança» móvel que fugisse à marcação da defesa da «casa» tal como Farias o fez – e muito bem – um jogador que não fosse um alvo imóvel para os tomarenses, talvez já muito antes do intervalo Conhé tivesse passado por mais dificuldades do que aquelas por que efectivamente passou.

Entretanto, por volta da meia hora, o União de Tomar marcaria num lance de insistência do seu ataque e esse tento também caiu como um balde de água fria sobre os barreirenses, que sentiram a «injustiça» desse golpe numa altura em que estavam a criar perigosas ocasiões de golo e em que os tomarenses continuavam no seu «rame-rame» de jogadas sempre repetidas na sua lentidão.

No entanto, o cariz do jogo manter-se-ia e ainda antes do intervalo Farias iria surgir isolado diante de Conhé se não fosse rasteirado em falta.

Um «golpe» de Tellechea

Na segunda parte, nada se modificou nos tomarenses e nada se modificou também nos barreirenses, tendo Manuel de Oliveira mantido o seu inoperante José Carlos lá à frente. Mesmo assim, o Barreirense chegaria ao 2-1 e estaria à beira do 3-1, mas, a tempo, Óscar Tellechea remediou o que estava mal e as coisas ainda se puderam compor para a equipa tomarense.

O técnico do União, mandou avisadamente recuar para o meio-campo Leitão, senhor de dois bons pés e um homem com bom sentido de jogo, o qual passou a dar então excelente ajuda ao abnegado Ferreira Pinto, um jogador com uma resistência espantosa que chegou ao fim ainda a jogar no mesmo ritmo em que o começara. Por outro lado, Cláudio recuou para o centro da defesa adiantando-se Faustino, um jogador geniquento, rabioso, muito temperamental, que passando para «ponta-de-lança» deu outra vivacidade à avançada local. Leitão e Ferreira Pinto lançaram-se, então, muitas vezes com evidente perigo mas este se não chegou a causar perigo directo por não ter rotina de rematador, pelo menos obrigou a defesa barreirense que até aí tinha jogado praticamente parada, a mexer-se e em certas ocasiões a dar o flanco.

Numa dessas ocasiões, foi Vieira quem entrou na área mas não conseguiu controlar bem a bola quando a adiantou a Almeida e este conseguiu atrasar para o seu guardião. No entanto, o sr. Henrique Silva que foi ontem um árbitro «à antiga portuguesa» quis compensar, nitidamente, a grande penalidade (flagrante e irrecusável) que concedera no primeiro tempo aos visitantes e assinalou um «penalty» escandaloso. Dez minutos depois, Faustino seria rasteirado por Patrício dentro da área mas o árbitro (segundo a tal «tendenciazinha» que fez escola no futebol português de há alguns anos) em vez do «penalty», agora sim evidente e inapelável, mandou executar um livre fora da área, porque o «penalty» do primeiro tempo já tinha ficado… compensado.

De qualquer forma, para a «verdade do jogo», assinalando um «penalty» ou outro, o que é certo é que o União de Tomar mereceu então o golo que marcou, pelo que o seu empate acaba por justificar-se. No entanto, se a passagem de Leitão para o meio-campo não tem sido feita logo a seguir ao segundo tento d[o] Barreirense, talvez então já fosse tarde demais para a recuperação dos tomarenses. Assim o ex-sportinguista, beneficiando também do cansaço que já denotava o trio do meio-campo barreirense (fartaram-se de correr e tinham feito as suas viagens sempre em «ida e volta» enquanto à excepção de Ferreira Pinto o «miolo» tomarense quando avançava já não voltava para trás a marcar os adversários) conseguiu equilibrar as operações no meio do terreno e evitar a derrota que começava a desenhar-se, assustadoramente.

A sensação – Farias

Na equipa barreirense, Bento defendeu sempre muito bem. Os golos eram indefensáveis. Murraças jogou muito bem e travou um belo duelo com Vieira. Almeida ainda algo preso de movimentos esteve menos certo que Bandeira e Patrício aproveitou muito bem o recuo de Armando Luís. Valter chegou a ser brilhante no meio-campo e João Carlos e José João beneficiaram da «falta de pernas» do «miolo» tomarense. Depois do «golpe» de Tellechea, José João foi o primeiro a «estoirar» e João Carlos também acusou dificuldades. Na frente, há que registar a excelente estreia de Farias – um negro, muito bem constituído, arranca poderosamente com a bola nos pés, cobre o esférico excelentemente e mostrou um excelente pontapé. É um jogador que pode ajudar a resolver a falta de homens-golo do Barreirense, ainda que não se acredite que não tenham ficado de fora jogadores mais rápidos e perigosos que José Carlos. Rogério deu muito que fazer a Kiki.

No União de Tomar, a grande figura da equipa foi Ferreira Pinto, que sozinho no centro do terreno, sustentou uma luta desigual contra os adversários. Conhé foi culpado no segundo golo, tal como Kiki. João Carlos viu-se e desejou-se frente a Farias e Faustino cumpriu bem a sua missão de recurso. Cláudio jogou pior no meio-campo porque aí teve mais que fazer que depois como defesa. Armando Luís poderá render mais noutra posição. Leitão foi um excelente auxiliar de F. Pinto, mas como «ponta-de-lança» esteve pior que Alberto. Tito e Vieira foram os mais perigosos e se tivessem sido bem servidos, acreditamos que a sua acção pudesse ter sido mais proveitosa, tal como acreditamos também que a falta de Manuel José no meio-campo a ajudar Ferreira Pinto também tenha sido decisiva. Raul revelou intuição.

Do árbitro já se teria dito o suficiente se já tivéssemos acrescentado que se preocupou escrupulosamente em fazer alternar a marcação das faltas para um lado e para outro e que desculpou uma agressão no último minuto de Patrício a Armando Luís.

…Mas como só faltava um minuto, já não havia tempo para a «compensaçãozinha» da ordem…»

(“A Bola”, 10.11.1969 – Crónica de Jorge Schnitzer)