“AFINAL, NÃO VI O DAMAS – LAMENTO DE UM GAROTO TOMARENSE

CONHÉ, KIKI & C.ia DEFENDERAM ATÉ AO IMPOSSÍVEL”

Estádio Municipal de Tomar

Árbitro – Mário Alves, de Beja

U. TOMAR – Conhé (3); Kiki (3), Faustino, «cap.» (2), Ferreira Pinto (3) e Barnabé (3); Manuel José (1) (72m – Dui (0)), João Carlos (1) e Cláudio (0); Leitão (0), Tito (1) e Vieira (1) (65m – Alberto (0))

SPORTING – Damas (2); Pedro Gomes (3), Caló (2), José Carlos «cap.» (3) e Hilário (2); Gonçalves (2) (45m – Celestino (2)) e Peres (3); Marinho (2), Nelson (3), Lourenço (2) (65m – Alexandre Baptista (1)) e Dinis (2)

0-1 – Nelson – 59m
0-2 – Marinho – 85m
0-3 – Peres – 89m

«Na primeira parte, 0-0.

No segundo tempo, 0-3.

No reatamento, Celestino (2) apareceu no lugar de Gonçalves.

Aos 14 minutos, 0-1. O lance começou em Vieira, que veio à defesa… complicar as coisas. Teve tempo para despachar, mas quis fintar e refintar Pedro Gomes, que insistiu, ganhou a bola, centrou para Lourenço que atrasou para Nelson fuzilar.

Aos 20 minutos duas substituições, uma de cada banda: entraram Alberto (0) e Alexandre Baptista (1), saíram Vieira e Lourenço.

Aos 27 minutos, quarta substituição: Dui (0) no lugar de Manuel José.

Aos 40 minutos, 0-2, num golo parecido com o anterior: Peres a atrasar para Marinho atirar.

Aos 44 minutos, 0-3, numa boa iniciativa de Peres.

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À saída do campo tomarense, no meio daquele rio verde-e-branco que atravessava a ponte do rio barrento – rios tão vivos e agitados um como o outro – um garoto tomarense lamentava-se, com razão, para o pai:

– Afinal, não vi o Damas!…

Além de tomarense, o garoto seria também sportinguista… Mesmo que não fosse, conhecia a fama do Damas, mas talvez nunca o tivesse visto senão nos jornais, na TV, nos rebuçados… Com a visita do Sporting, chegara o dia, finalmente, de ver em acção o seu ídolo, talvez até lá na escola lhe chamem o «Damas», porque ele tem a mania de jogar como ele…

– Afinal, pai, não o vi fazer nenhuma defesa daquelas dele…

Compreende-se a decepção do garoto, uma decepção mesmo de garoto, porque nenhum adulto terá ficado contrariado pelo facto de Damas não ter brilhado. Os adultos do União gostariam de o ver bem vencido e não vencedor. Os adultos do Sporting não são nada sentimentais ao ponto de terem pena de o seu guarda-redes estar para ali parado quase a hora e meia, cheio de frio, com os pés metidos na lama. Quanto mais parado ele estiver, melhor…

Foi tão premente o assédio sportinguista, durante quase todo o tempo que Damas, praticamente, esteve a ver o jogo. E, para o ver melhor, ate se postou, largo tempo, adiantado no limite da sua área. Não foi surpreendido por isso. Pelo contrário, foi até por isso que, a meio do segundo tempo, pôde surpreender um contra-ataque desgarrado dos adversários. Estava já tão familiarizado com aqueles terrenos que saiu da área, mas não se limitou a despachar a pontapé. Como um defesa consagrado, fintou dois adversários e fez um passe a um colega.

Aí Damas brilhou, mas não era isso que o garoto esperava dele. Foi uma jogada, digamos, «à Hilário» não foi «à Damas».

Para nós, porém, esse lance serviu para ilustrar o jogo, para dar nota frisante do ascendente total do Sporting e até da sua tranquilidade, apesar de o primeiro tempo ter acabado sem golos e apesar de o 1-0 se ter mantido até cinco minutos do final.

É verdade que, por muito que o Sporting se superiorizasse, enquanto o 1-0 se mantivesse, havia sempre a possibilidade (teórica) de o União ir lá abaixo (e até houve o tal contra-ataque que Damas resolveu longe das balizas) e conseguir um empate, que pecaria mais pelo despropósito do momento, pela injustiça daquele resultado daquele jogo, do que por constituir uma contrariedade de vulto no tocante à marcha dos «leões» para o título. Tanto mais que na Luz…

A verdade é que essa possibilidade era tão teórica, tão-apenas-teórica que de modo nenhum preocupava os «leões» de dentro e fora do campo, pois iminente, sim, se afigurava a cada momento um segundo golo sportinguista.

Além de que o 1-0 já chegava perfeitamente ao Sporting para somar os dois pontos (e a substituição de Lourenço por Alexandre Baptista até pode ter dado a ideia de que o Sporting queria defender o 1-0), aquela «resistência heróica» da defesa tomarense não poderia durar sempre e, a breve trecho, até parecia que era o União que estava interessado em defender… o 0-1.

Se não se tratasse de um jogo de Campeonato, até se poderia justificar perfeitamente essa atitude tomarense porque, tal como as coisas se estavam a passar, aquele 0-1 era um excelente resultado, quase incrível em face da sucessão de oportunidades de golo inaproveitadas, ou por inépcia própria (principalmente de Marinho) ou por virtude alheia (especialmente de Conhé).

Mas o dique tinha mesmo de ceder, perante tantas e tão impetuosas vagas e não vem para o caso que cedesse apenas a cinco minutos do fim… E cedeu sem culpas directas para os defensores do União, pois foi um avançado que veio estragar tudo, porque o 0-1 era quase um bonito e o 0-3 ficou quase uma goleada.

O avançado foi Vieira que foi fazer coisas «de avançados» para a grande área. Quis fazer fintas e dribles e «nós» a Pedro Gomes, que é homem que desarma bem e não é homem que desarme. Ganhou a bola e fez o centro. Do centro nasceu o golo. Do golo nasceu a quase goleada que só não se tornou mais pronunciada… p[o]r falta de tempo.

Ainda houve tempo para passar dos 2-0 aos 85 minutos para os 3-0 aos 89 e, se houvesse um prolongamento, é de crer que o Sporting continuasse a marcar golos naquele ritmo, de quatro em quatro minutos, pouco mais ou menos, porque, então, também naturalmente, ao passar do heróico 0-1 para o cruel 0-2, a defesa tomarense soçobrou por completo. Até aí, fizera das fraquezas forças… A partir de aí, fez das forças fraquezas e foi salva pelo «gong».

Fez quase pena ver essa derrocada final, mas a verdade é que a conta, assim nos 3-0, ficou muito mais de harmonia com o sentido do jogo, que se fez num só sentido.

Por outras palavras, o Sporting mereceu bem ganhar por 3-0, mas o União de Tomar, pelo que a sua defesa labutou, merecia bem perder apenas por 0-1.

A solução é tirar a média e «fiquemo-nos» por uns 2-0, moralmente, salomonicamente aceitáveis na perfeição por ambas as partes.

Uma coisa é certa: o «zero» do União de Tomar, porque foi zero mesmo no ataque. Teve uma única oportunidade. Não a tal do Damas-a-pontapé, porque essa nem chegou a ser. Damas matou-a à nascença.

Um símbolo chamado Pedro Gomes

A tal única oportunidade aconteceu logo aos oito minutos, num livre assinalado por derrube de Hilário a Vieira e marcado por Manuel José. Damas calculou mal a saída e o remate (de cabeça) de Leitão foi desviado (de cabeça) por Pedro Gomes.

O garoto tomarense não viu Damas nesse lance, porque, na verdade, Damas, ou por frio, ou por desatenção… não estava lá. Não estava Damas, mas estava Pedro Gomes. Estava nesse minuto e esteve nos minutos todos, porque começou a correr, por todo o seu flanco, quando o desafio começou e só parou quando o desafio acabou. E foi tão notável e tão útil nessas suas deambulações que esteve em dois dos três golos, pois tanto o primeiro como o último saíram de centros seus.

Se se quer um símbolo da determinação sportinguista, neste jogo e neste Campeonato, aí está Pedro Gomes e já não é a primeira vez que o apontamos como tal, porque, na verdade, nenhum outro nos parece tão expressivo. Meão na altura, grande no querer, aí o tivemos sempre numa actividade desbordante, nada conformado com a folga que aproveitaria em face da ausência de ataques tomarenses.

Dois factores concorreram em favor do grande plano atingido por Pedro Gomes: essa despreocupação quanto a adversário directo (ou indirecto) e o bom estado do terreno em todos os cem metros que ele percorreu incansavelmente, num vai-vém de noventa minutos.

Na verdade, o piso do relvado tomarense está por demais desigual. Em quase todos os campos, a zona do meio-campo está mais maltratada do que nos cantos, porque é a zona mais usada, mais pisada. Em Tomar, porém, a diferença é demasiada, porque o «miolo» é um pântano, mas toda a região circundante está em condições, não diremos boas, depois de tanta chuva, mas mais do que aceitáveis, feito o confronto com o charco central.

Pela «zona temperada» fez Pedro Gomes todo o seu jogo, encarreirou o Sporting boa parte dos seus ataques e certamente não por acaso, porque, uma meia hora antes de o desafio principiar, Fernando Vaz esteve no relvado e não se limitou a fazer aquela pisadinha simbólica que tantas vezes temos visto a tanta gente boa. Andou por aqui e por ali e, assim, ficou a saber bem como aquilo estava, aqui e ali.

No caso de Pedro Gomes, o proveito foi total e, se é verdade que idênticas facilidades se depararam a Hilário, o que é certo é que ele não tirou de aí idêntico proveito, limitando-se (e sem problemas, claro) ao seu limitado papel defensivo, ou por economia, ou por determinação, mas a verdade é que os dois defesas-centrais chegaram e sobejaram… para Tito e Vieira, enquanto revelaram uma certa mobilidade.

O «miolo» remolhado

Esse estado desigual do terreno também teve influência notória no desenvolvimento do encontro… e nas substituições. Foi talvez por isso também que Fernando Vaz, desta feita, não fez entrar Chico, mas sim dois homens para o «miolo», porque aquele charco exigiu um esforço tal àqueles que mais detidamente aí tiveram de desenvolver a sua acção que o render se justificava plenamente.

Foi, em especial, o caso de Gonçalves, que já tem tendência para tornar o seu jogo «pegajoso», até mesmo em terreno seco, e de Lourenço, precioso no primeiro tempo, em toques, em aberturas, mas que apareceu em dificuldade no segundo tempo. Entrou então Alexandre Baptista. Já tinha entrado Celestino. Com ambos o meio-campo sportinguista já não teve a mesma fluência de jogo do que com Gonçalves (apesar de…) e com Lourenço, mas a maior força de dois elementos frescos teve efeitos mais importantes, até porque mais se acentuara a fadiga dos locais. E as substituições a que procedeu o União de Tomar não nos pareceram tão acertadas em face das circunstâncias, salvo os tais segredos do «banco dos réus» que não chegam ao conhecimento do crítico.

É que Cláudio, por exemplo, não teve nem equilíbrio para se manter de pé, sempre desencontrado da bola do princípio ao fim dos noventa minutos, pois jogou o tempo todo, saindo Manuel José quando estava até mais adaptado do que antes e mais empreendedor.

Não adianta continuar por este caminho, porque há os tais bastidores que se não conhecem. Digamos apenas que as substituições do Sporting, apreciadas «do lugar onde nos encontrávamos», nos pareceram muito bem vistas e as do União nem por isso, mas também é verdade que, com o plantel de que o Sporting desfruta (ou, talvez com mais propriedade, com a preparação de que o plantel do Sporting desfruta) bem mais fáceis se tornam todos os arranjos.

No Sporting, o meio-campo também foi muito mais numeroso, porque Peres – o único que aí se manteve o tempo todo – foi muito acompanhado também pelos homens da frente, não só por Lourenço, mas também por Dinis, a recuar mais do que o costume, por isto ou por aquilo, mas talvez também pela eficaz marcação que lhe moveu Kiki e que o levou a refugiar-se noutras zonas.

A permanência de Peres é que é digna da melhor nota e acabou tão bem, vivendo tanto tempo naquele «miolo de terreno» tão remolhado, que, no último minuto, arrancou, de ângulo difícil, aquele belo tiro que fechou a conta.

O poder físico de Nelson também voltou a impressionar-nos grandemente, tal como em Braga, voltando a sustentar longos «sprints» até fim deste outro encontro disputado assim em condições de terreno aparentemente desfavoráveis para ele em especial, pelo seu tipo franzino, ou melhor dizendo, ex-franzino, porque está mais encorpado e muito mais decidido nos choques. Em contrapartida, Marinho não nos pareceu tão bem como ultimamente, perdendo ocasiões demais.

Dos jogadores do Sporting falta referir o par de defesas-centrais, onde José Carlos se situou uns furos acima de Caló, talvez por se achar como peixe na água… naquela água toda, graças ao seu poder de desarme, talvez também por um certo comedimento de Caló, frente aos seus companheiros da época passada.

Em conjunto, o Sporting fez mais uma exibição convincente da sua valia actual e da sua capacidade de campeão em potência – convincente dentro e fora do campo, porque o Estádio encheu-se, eram mais os sportinguistas do que os tomarenses, muitas as bandeiras, grande o entusiasmo que fez transbordar o público, antes do encontro começar, do peão para as pistas.

O árbitro ainda teve um certo receio de fazer disputar o encontro naquelas condições, com o público praticamente junto ao relvado, com uma vigilância necessariamente escassa em tais circunstâncias, chegou a contactar com um graduado da polícia, mas tudo acabou por correr no melhor dos mundos.

Um abismo da defesa para o ataque

Quase todas as equipas têm melhores defesas do que ataques, bem se sabe, mas o União de Tomar exagera. Ontem, pelo menos, foi assim, porque a defesa jogou demais e o ataque de menos. Conhé só cedeu nos minutos finais, por natural fadiga, depois de ter sido submetido a tão grande desgaste. Ele e os companheiros, claro está, mas Kiki chegou para Dinis até ao fim e o mesmo se pode dizer de Ferreira Pinto, defesa-central, em relação a Nelson. Só que esse fim foi antecipado, quando entrou Dui para defesa-central passando Ferreira Pinto para o meio-campo. Num ápice, a conta passou de 1-0 para 3-0, mas é evidente que não foi só por isso. O tal desgaste é que explica tudo. Faustino também se bateu muito bem e Barnabé foi o «Pedro Gomes do União de Tomar», tal o empenho constante que pôs na luta.

No meio-campo, João Carlos começou muito bem, mas durou pouco e Cláudio nem começou, tal como Leitão… e Alberto. Em apontamentos ainda se deu, aqui e ali, por Manuel José, Tito e Vieira, mas a sensação do conjunto foi extremamente deficitária, porque a equipa, graças ao extraordinário labor e espírito de sacrifício da sua defesa, esteve, afinal, a perder só por uma bola até à beira do fim, mas nunca pareceu acreditar na hipótese, realmente muito vaga, de tentar o empate.

Arbitragem difícil

Com o terreno assim, não houve choque que não desse queda e Mário Alves usou o critério de apitar tudo. Ora quem muito apita corre o risco de menos acertar e, na verdade, não muitas vezes nos pareceu errada a apreciação desses choques e dessas quedas. Não foi nada «caseiro» o árbitro, porque, praticamente, era o Sporting quem estava a jogar em casa e calhou ser o Sporting o mais prejudicado nesses lances em que a apreciação do árbitro diferiu da nossa. Uma virtude: com isso de apitar a tudo, o árbitro segurou os jogadores, pois o encontro não teve casos disciplinares.

Teve, no entanto, a arbitragem o se caso técnico: a invalidação de um golo do Sporting, aos 28 minutos. Peres chutou forte um livre, Conhé largou para os pés de Dinis (que, portanto, não estava fora-de-jogo), Dinis centrou para Marinho cabecear e também não nos pareceu que este estivesse em posição irregular. No entanto, deve ter havido mesmo qualquer irregularidade de que não nos apercebemos, porque o árbitro foi pronto e firme na invalidação e os sportinguistas pareceram-nos pouco firmes nos protestos. O árbitro tem sempre razão, pois é…»

(“A Bola”, 26.01.1970 – Crónica de Carlos Pinhão)


(Imagem – “A Bola”, 24.01.1970)

(Imagens – “A Bola”, 26.01.1970)