“DUAS «EXPLICAÇÕES» E UM VENCEDOR FELIZ”

Estádio «Alfredo da Silva», no Barreiro

Árbitro – Ilídio Cacho, de Lisboa

CUF – Conhé (2); José António (1), Rodrigues (1), Vitor Marques (1) (21m – Américo (2) e Esteves (1); Arnaldo (2), Vitor Gomes (1) e Vitor Pereira (1) (75m – Manuel Fernandes (1)); Monteiro (1), Capitão-Mor e Juvenal (2)

U. TOMAR – Nascimento (2); Kiki (2), Faustino (2), João Carlos (3) e Barnabé (2); Manuel José (3), Cardoso (2) e Calado (1); Pavão (3), Bolota (2) e Fernando (1) (45m – Camolas (1))

0-1 – Bolota – 62m
1-1 – Juvenal – 80m
2-1 – Monteiro – 86m

«Resultado do primeiro tempo: 0-0.

Aos sessenta e dois minutos, Bolota, a concluir um pontapé de canto, executado por Camolas, marcou o golo da sua equipa.

Juvenal, aos oitenta minutos, recebendo a bola de Calado, que pretendia entregá-la a Nascimento, entrou com ela na baliza, depois de driblar o guardião nabantino, empatando a partida.

Na execução de um livre inexistente, junto à linha de cabeceira e próximo da grande área, Arnaldo, com um pontapé com efeito, fez a bola tabelar no poste esquerdo da baliza de Nascimento, surgindo depois um subtil toque de Monteiro, a enfiá-la  nas redes. Faltavam quatro minutos para o termo do encontro.

Resultado final: 2-1.

Substituições: Os vencedores, aos 21 minutos, por lesão, fizeram substituir Vitor Marques por Américo (2). Aos setenta e cinco minutos, Vitor Pereira deu o lugar a Manuel Fernandes (1).

O União de Tomar, depois do intervalo, entrou com Camolas (1), ficando Fernando na cabina.

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Quem tenha estado, ontem, no Lavradio, deve ter encontrado, pela maneira como o jogo decorreu, a explicação do regresso dos nabantinos ao futebol Maior do país. Do mesmo modo, terão compreendido como os cufistas chegaram ao empate, há oito dias, contra o Benfica, cometendo uma proeza que, certamente, irá perdurar, por muito tempo, na história deste campeonato…

Embora o jogo, desde o início, se houvesse repartido por ambos os campos, logo se percebeu que os visitantes não seriam presa fácil para os cufistas.

Mais ordenados nos seus movimentos, os tomarenses começaram a impôr com mais clareza as suas intenções, obrigando os seus adversários a maiores preocupações na defesa, a qual cedo passou a contar com a colaboração de Vitor Pereira que, colocado entre os quatro homens da defesa e o «duo» Arnaldo-Vitor Gomes, ia fazendo de muro contra as investidas do ataque adversário. Porém, porque o meio-campo nabantino dispunha de três homens demasiado tecnicistas e com nítida propensão para atacarem. Arnaldo passou a ver-se envolvido numa teia da qual sentia dificuldade em sair. De tal modo que, contra o que lhe é habitual, o magnífico jogador andou quarenta e cinco minutos absolutamente desencontrado da bola como se ela nada quisesse com ele.

Em contrapartida, vencido o «meio-campo» cufista, Manuel José e Calado, apareciam com frequência no ataque, possibilitando ao seu ataque uma superioridade numérica que ia pondo em dificuldade a defesa adversária.

Conhé, no entanto, sempre seguro, ia evitando que os avançados visitados marcassem antes do intervalo, realizando duas defesas de muito nível. Se não fora isso, embora Nascimento também houvesse evitado ser primeiro batido, precisamente em duas grandes «paradas» a «pontapés-livres» de Arnaldo, seria natural que o União de Tomar, em virtude da fragilidade da defesa visitada, chegasse ao intervalo já com o marcador a seu favor.

Mais lentos, quer em viragens, quer em arranques para a conquista da bola, a equipa cufista esteve, em boa verdade, muito tempo a ser vencida nestes dois pormenores. Contrariamente, os nabantinos, com uma aplicação digna de nota, embora cedendo terreno aos seus adversários, não lhes davam veleidades quando se aproximavam da grande área, onde Faustino e João Carlos se impunham com autoridade.

Até ao final do primeiro tempo, nunca a equipa fabril dera a sensação de poder ganhar a partida, tão nítida era a forma e como os seus adversários esquematizavam o seu jogo, criando, amiúde, lances de muito perigo, umas vezes por iniciativa de Pavão, outras, em maior quantidade, por arranques de Manuel José ou Calado, sempre coadjuvados pelo impetuoso Bol[o]ta, que foi, em toda a partida, um «quebra-cabeças» para o reduto defensivo da equipa da casa.

Melhoria para uns, felicidade para outros

Embora pareça paradoxal, foi precisamente quando a equipa visitante atingiu o seu melhor período de jogo, depois de regressada do intervalo, que acabou por perder a partida, depois de se ter adiantado com o golo de Bolota, coisa que já era esperada há muito, dada a superioridade revelada de minuto para minuto.

Conhé, perante as investidas que o ataque tomarense ia processando, passou a ser chamado a maior trabalho. Foi ao desviar, para «canto», um estupendo e poderoso remate de Manuel José, que, de seguida, na sequência da jogada, finalmente, se viu traído, mais por desatenção dos seus companheiros do que por mérito do marcador, que não teve mais do que se limitar a tocar a bola, já a «morder» a linha de golo.

E, na jogada imediata, o segundo golo esteve à vista. Valeu ao guardião cufista a forma como Bolota foi afastado do remate, já a dois metros da baliza, perante a indiferença do árbitro, que nem sequer considerou «livre-indirecto», pena já benévola para a irregularidade.

Com Conhé, finalmente, batido, toda  a equipa pareceu ter deitado os braços abaixo. Um ou outro rasgo de inspiração de Arnaldo não chegava para contrariar o futebol nabantino que, sempre que invadia a área cufista causava calafrios aos adeptos da «casa».

Era esta a fisionomia da partida, embora o «meio-campo» dos tomarenses, depois do intervalo, já não contasse com o mesmo Calado do primeiro tempo, visto o moçambicano ter perdido o discernimento que lhe havia proporcionado uma boa exibição nos primeiros quarenta e cinco minutos, entregando a bola com maestria e rematando sempre a propósito. Os seus passes passaram a ter outro destino: para os adversários. Esta quebra do «centro-campista» dos visitantes era visível. A coincidir com esta perda de forças do «meio-campo» tomarense, Fernando Caiado (muito bem) fez sair Vitor Pereira, para dar entrada a Manuel Fernandes. Por via disso, a baliza de Nascimento passou a ser mais assediada e, então, o guardião  nabantino que, embora de longe a longe, já «queimara» algumas boas intenções dos avançados cufistas, tendo até numa das ocasiões Faustino (milagrosamente), desviado uma bola que já o tinha batido, passou a estar mais em acção.

Ora a infelicidade de Calado mudou em absoluto, pode dizer-se, o curso do jogo. Bastou para tanto que, quando devia ter dado a bola para um companheiro da frente, pois teve tempo para isso, resolveu entregá-la a Nascimento, sem ver que, junto do seu guarda-redes estava Juvenal… O extremo-esquerdo, com a muita habilidade que possui, só teve que driblar Nascimento e entrar com a bola pela baliza dentro, em plena euforia. Estava terminada toda a tarefa que os visitantes haviam processado para chegarem a pensar em regresso vitorioso à  I Divisão. O resto não demorou, ainda que Conhé, mais uma vez, se opusesse, com classe, a um remate de Manuel José a evitar que o empate se desfizesse a favor dos seus adversários.

Os cufistas, estimulados pela «benesse» de Calado, passaram a jogar com aplicação muito maior e com melhor discernimento das jogadas.

Portanto, embora o golo da vitória tenha sido precedido de uma falta que não descortinámos, não há dúvida de que os vencedores souberam muito bem aproveitar-se das situações que procuraram criar e das que lhes criaram os seus adversários que, unicamente, terão de se queixar da infelicidade que os rodeou, em muitos aspectos da partida.

A equipa da Cuf, em boa verdade, não nos deixou a mesma impressão agradável que colhemos do seu jogo contra o Tirsense, talvez devido à sobranceria de que alguns jogadores se deixaram dominar, depois do êxito da Luz. Arnaldo, como já referimos, esteve um tanto ou quanto ausente do jogo, sobretudo nas zonas e nas jogadas em que costuma pôr o seu «aval». Mas isto não quer dizer que não tenha sido, mesmo assim, um dos jogadores mais influentes no resultado final da partida.

O mesmo poderemos dizer de Conhé que, pela categoria de duas ou três defesas que efectuou, ainda deve ter guardado um bom bocado da inspiração que lhe sobrou do jogo contra o Benfica.

Ora mesmo que uma equipa, reconhecida a sua inferioridade perante qualquer adversário, tenha de esquematizar um processo defensivo, terá sempre muita dificuldade em ser bem sucedida se não tiver um guarda-redes, como ontem, mais uma vez, Conhé o demonstrou ser.

«Meio-campo» com saber

Muito melhor do que aquela equipa que vimos na passada temporada na Divisão inferior, o União de Tomar deixou-nos óptima impressão. Nem o facto de ter cedido nos últimos minutos modificou a nossa opinião. Deu-nos pelo menos, uma certeza: está uma equipa bem ordenada, quer em movimentos, quer no sistema posicional dos jogadores.

O seu «meio-campo», utiliza os seus três componentes com muita «cabecinha».

Com dois elementos que sabem integrar-se no ataque, tem um terceiro (ao centro) Cardoso, que se mete em quase todos os lances em que é preciso disputar a bola aos adversários nessa zona do terreno, deixando, por isso, Manuel José e Calado mais à vontade para a criação de lances aos companheiros da frente e para se meterem no ataque sempre que as circunstâncias o aconselhem. E pena é que Manuel José não consiga dosear melhor o seu esforço, para poder ter actuação uniforme durante todo o jogo. Calado é, por temperamento, o jogador que só sabe jogar com a bola nos pés. Na frente Pavão, pelo que lhe vimos, é o melhor avançado da equipa, enquanto Bolota, com muito espírito de luta, consegue disfarçar a sua má execução. E, como João Carlos e Faustino são sustentáculos de considerar à frente de qualquer guarda-redes, não há dúvida de que o União de Tomar é uma equipa com que há que contar.

Arbitragem infeliz

Se não fora aquele «livre» que precedeu o segundo golo da Cuf, assim como aquele derrube a Bolota, sem qualquer punição, dentro da grande área, o sr. Ilídio Cacho teria feito um excelente trabalho, até porque esteve muito bem na lei da vantagem. Do mesmo modo que, para não estragar o espectáculo, contemporizou com dois pares de jogadores que não quiseram jogar somente…»

(“A Bola”, 27.09.1971 – Crónica de Severiano Correia)

(Imagem – “A Bola”, 27.09.1971)