“AS NINFAS DO NABÃO INSPIRARAM CALADO E KIKI”

Estádio Municipal de Tomar

Árbitro – Maximino Afonso, de Lisboa

U. TOMAR – Nascimento (2); Kiki (2), Cardoso (2), João Carlos (2) e Barnabé «capitão» (2); Manuel José (2) e Calado (2); Pavão (1), Bolota (1), Camolas (1) (85m – Raul (-)) e Fernando (1) (57m – Faustino (1))

TIRSENSE – Barrigana (1); Albano (1), Luís Pinto (1), Cristóvão «capitão» (1) e Viana (1) (66m – Sebastião (1)); Francisco Baptista (1), Ernesto (1), Amaral (1) e Araponga (0) (55m – Carlos Manuel (0)); António Luís (1) e Chico Gordo (1)

1-0 – Calado – 24m
2-0 – Kiki – 57m

«Substituições – Aos 57 minutos, saiu Fernando e entrou Faustino (1), passando Cardoso para a função de médio e derivando Manuel José para um plano mais atacante; cerca dos 85 minutos, o jovem Raul (-) foi substituir o colega Camolas.

Deixou o campo o brasileiro Araponga (55 m.) para surgir Carlos Manuel (0), com ideias de avançado; aos 66 minutos, recolheu à cabina o defesa Viana, aparecendo Sebastião (1), que actuou no lado direito, tendo Albano recebido ordem para jogar ao lado de Pavão.

Ao intervalo: 1-0.

1-0, aos 24 minutos, por Calado. Uma jogada de surpresa para Barrigana, com o sol nos olhos. O goleador rematou de 40 metros, com força e direcção, mas o guarda-redes do Tirsense não mostrou reflexos apurados para a dificuldade do lance. Levantou os braços e a bola entrou mais longe, com muita rapidez!…

No segundo tempo: 1-0.

2-0, aos 57 minutos, por Kiki, com um «tiro» de grande efeito. A jogada começou no meio-campo do «team» de Santo Tirso e Pavão, isolado, foi servido com precisão. Seguiu-se um passe atrasado, que o «colored» aproveitou para rematar espectacularmente.

Primeira vitória do União de Tomar, por 2-0, com dois tentos de rara violência, um dos quais, no entanto, poderia ser defendido por um guardião menos surpreendido…

Num «Nacional» muito desequilibrado, com várias equipas exibindo um nível aquém do exigível, as formações menos qualificadas têm de viver os próprios anseios, procurando a conquista de pontos, se as circunstâncias lhes são favoráveis.

É incontroverso que o aumento de concorrentes no presente campeonato ainda não provou as benesses do sistema, devendo demorar as conclusões, porque as infra-estruturas do futebol nacional mantêm-se sem sofrerem transformação.

Há que aguardar algum tempo para ilacções mais completas, mas é certo que muitos «teams» não correspondem às necessidades de um futebol profissionalizado, tendo sérios embaraços para vencerem.

Tanto o Tirsense como o União de Tomar estão colocados na cauda da classificação, sem grandes possibilidades de competirem num «Nacional» que poderá atrair público, nos grandes encontros e com outra atracção nos chamados «jogos entre pequenos».

Coube, ontem, aos nabantinos a oportunidade de ganharem pela primeira vez, com mérito absoluto, a uma equipa de Santo Tirso, modestinha, que sabe jogar, mas incapaz de obter tentos, mesmo se os adversários lhes oferecem ocasiões…

A partida de Tomar teve o seu relativo interesse, dentro da mediania das equipas, com um «futebolzinho» gracioso e com laivos de entreajuda, possível quando os movimentos são executados a baixa velocidade e os jogadores mais qualificados podem luzir os seus dons.

Jogou-se, na verdade, com intencionalidade, tanto no União como no Tirsense, num ritmo sedutor, de embalar, mas a grande satisfação dos adeptos de Tomar esteve nos dois momentos empolgantes do encontro.

Quando o «colored» Calado se inspirou nas musas do Nabão e tentou o golo – de muito longe!… – estava a lutar contra a frustração total dos seus colegas de ataque, incapazes de encontrarem inspiração para baterem Barrigana.

Também o tento de Kiki, outro «colored», foi obtido numa fase de futebol inconsequente, por parte dos tomarenses, precisamente quando o «quadro» do Norte se exibia noutra cadência e o empate pod[e]ria acontecer

Mas Kiki teve um golpe de audácia, aproximou-se rapidamente dos seus avançados e aproveitou superiormente um toque esclarecido de Pavão para colocar Barrigana em face desta realidade: – dois tentos de rara espectacularidade, num desafio morno, frio, jogado a passo, excepto em escassos minutos de outra movimentação.

Futebol em profundidade

Durante o jogo, que decorreu num sistema maneirinho, mesmo engraçado, com as duas formações a praticar um futebol mais aberto, embora o Tirsense usasse da «arma» do contra-ataque, como lhe convinha, pensámos quais serão as razões básicas porque ambos os conjuntos são tão módicos em golos marcados.

Parece inacreditável que o Tirsense ainda não tenha obtido um  único golo em várias deslocações.

Será possível que o União de Tomar, com Bolota e Camolas, tenha tantos problemas com o sector dianteiro, a ponto de serem os homens do meio-campo e da defensiva os autores dos golos de ontem?

Não se poderá argumentar que ambas as equipas não disponham de jogadores de certo nível, relativamente capazes de executarem esquemas jeitosos, com a bola bem entregue – em zonas muito curtas.

O futebol desenhado pelo União e pelo Tirsense teve um sentido curioso de evolução, mas está nitidamente ultrapassado pelo processo em voga, noutros países onde se executa com muito mais rapidez.

Existe um profundo equilíbrio, mesmo por parte de conjuntos menos famosos em recursos humanos, na explanação do futebol-jogado, muito lateralizado, em toques e mais toques, sem progressão e sem mudanças de velocidade.

No «onze» Tirsense, que evoluiu em Tomar e sofreu uma derrota de todo justa, nota-se uma preocupação latente em reter o esférico, no meio-campo, com triangulações vistosas, entre Ernesto, Amaral e Francisco Baptista, bons executantes, mas falhos de objectividade quando se lhes exige algo mais…

A equipa teve períodos de certo agrado, combinando com oportunidade, no «miolo», numa zona onde se constroem os lances de futebol, mas foi monocórdico e sem largas perspectivas o jogo tecido para o ataque.

Na segunda parte, a equipa impôs, inicialmente, um outro ritmo, vencendo o torpor que se lhe viu antes do intervalo, em que desfrutou de aleatório domínio do terreno de manobra.

Metendo muitos homens na estratégia do meio-campo, mesmo o extremo Araponga, uma espécie de «vagabundo», entre Cristóvão e Viana, o «team» do Norte segurou o esférico, teve-o mais vezes nos pés dos estrategas (?), não sabendo, no entanto, como executar o resto:

– a caminhada veloz pelos flancos, e

– as infiltrações rápidas no sector da defesa do União.

Poderá argumentar-se que Nascimento operou duas defesas dificílimas, com Chico Gordo em fases de possível golo (na primeira parte seria 0-1), mas os lances surgiram por mero acaso, um, num deslize de Cardoso, nunca como consequência de futebol de contra-ataque, desenhado com velocidade,veneno e visão, para a frente de António Luís, «aríete» de mais movimento.

Entre o União de Tomar, com um estilo suave de manobra no médio Manuel José, mais extensão em Calado, houve, igualmente, uma fase final muito desinspirada, para «tiros», na corrida, remates mais constantes e, sobretudo, capacidade atlética para jogar na grande-área do adversário… Bolota e Camolas têm força natural? É certo, mas faltou-lhes «força de futebol» para explorarem os lapsos da defesa de Santo Tirso, onde Luís Pinto e Cristóvão estiveram muito hesitantes, no primeiro tempo.

Natural que jogar para o ataque exige mais recursos, especialmente um sexto sentido do passe, para espaços vazios, que raramente foram observados em Tomar.

Contam-se pelos dedos de uma mão os momentos em que os atacantes do União e do Tirsense souberam jogar sem bola, em desmarcações bem vistas, para explorarem as ocasiões em que os seus médios estavam de posse da bola.

Daí o futebol sem profundidade, inócuo e improdutivo, de ambas as equipas, onde não se lançaram os espaços abertos por detrás dos defesas laterais (alguns a hesitar… a hesitar), nem se colocou o esférico em zonas que fossem difíceis para os homens do centro – João Carlos, Cardoso, Cristóvão e Luís Pinto, nem todos em dia de inspiração.

Assim, o União venceu, indiscutivelmente, por mérito de Kiki e Calado, mas continuará a sofrer, no futuro, se o técnico não resolver problemas de manobra, sem dúvida, difíceis, porque exigem talento criador e visão de jogo nos atacantes.

Será também preciso renovar, ou melhorar o futebol ofensivo com outra utilização dos extremos, que estão a cair num grande pecadilho: recuam para o meio-campo, mas falta-lhes capacidade muscular, pulmão, ritmo, resistência e visão para aparecerem lá na frente na hora-H.

O futebol para ter outra eficiência exige mais dos atacantes, porque os defesas já sabem do ofício. Basta-lhes um agrupamento denso para jogarem com relativo à-vontade.

Como têm ainda muitos médios a ajudar o panorama é sempre o mesmo: os avançados começam a ser inofensivos em muitas formações. As do Tirsense e do União de Tomar não fogem à regra…

Têm, portanto, a palavra os técnicos, porque noutros países procuram-se soluções para o problema e algumas irão resultar.

A partida foi disputada num ambiente de cortesia, exemplarmente disciplinada, com um ou outro momento mais áspero, num futebol de harmonia, dando os jogadores a impressão de estarem a jogar em ritmo de treino, porque a emoção, que esconde deficiências potenciais, não foi o prato forte de Tomar.

Nesta ambiência, o Tirsense dispôs os seus «peões» com um natural equilíbrio, do meio-campo para a retaguarda, faltando-lhe a mecanização para a frente, uma outra dinâmica no futebol-jogado, para surtir êxito.

Justo que se diga que o União de Tomar procurou a vitória com as suas melhores «armas», jogando com a técnica de Calado e de Pavão, de Fernando e de Manuel José, sem cair na tendência nociva de atacar em massa, um contra-senso, sempre que as equipas, actuando em «casa», se julgam no dever de «esmagar o adversário».

Houve como que uma simulação de futebol-elástico, na toada defesa-ataque que o União impôs e, por isso, a vitória tomarense assentou na forma como alguns jogadores souberam tirar partido das desatenções do Tirsense.

Os remates que estiveram na origem dos golos tiveram a sua razão de ser. Pareceram, na verdade, fortuitos, mas pensando melhor, podemos, realmente, convir que Calado e Kiki tiveram visão dos golpes – embora não sejam vulgares tentos desse jaez.

O União

Com muitos jogadores vindos de outras regiões, o União de Tomar fez em três épocas um esforço financeiro digno de menção, porque a equipa custa muito dinheiro aos seus dirigentes.

Existe no «onze» uma mescla de futebolistas, que não sendo complementares nas suas funções, devem sem dúvida, criar embaraços ao treinador, empenhado realmente na procura do entendimento óptimo.

Essa falta de complementariedade é nítida no «miolo» – onde Calado e Manuel José falam mais ou menos a mesma linguagem técnica. Dessa frustração resulta a planificação de um futebol pouco variado, nada esclarecido, quando se impõe uma toada diferente.

Se os responsáveis souberem criar um ambiente regional, nas infraestruturas jovens, é natural que o profissionalismo da maioria resulte em benefício local. A chegada de Raul ao campo foi a chama de Tomar a crepitar – num conjunto que poderia ser mais regional.

Nascimento esteve seguro, e experiente como é soube evitar ângulos de remate a Chico Gordo, em dois golpes inesperados. Entre os defesas, de Kiki, mais à-vontade, João Carlos, longe da grande «forma» de há anos, Cardoso sempre sereno até se chegar a Barnabé, doutra vivacidade e colocação, a constante foi a pendularidade de acção sem brilharetes.

Manuel José não perdeu o sentido do lançamento longo, mas não evoluiu muito em três anos. Calado – um homem esquecido dos «tackles» criminosos, que tanto o prejudicaram na sua carreira – foi um médio de acção, não veloz, mas está em boa condição física e sabe jogar.

Pavão e Fernando mantêm a sua habitual habilidade de pés, não progredindo, como se exigiria, na tarefa dupla de extremos-médios e médios-extremos. O «colored» esteve mais perto da verdade.

Que dizer de Bolota? Uma técnica inexistente, num jogador de valentia a toda a prova. Camolas, mais magro, movimentou-se muito, mas os «tiros» não lhe saíram certeiros.

Este Tirsense…

Jogou mal o Tirsense? Não se poderá afirmar que a turma de Santo Tirso não saiba jogar um certo futebol… Há ideias na equipa e uma concepção de jogo, mantida através dos técnicos.

Constituído à base de muitos ex-F. C. Porto, o «quadro» do Tirsense tem escola técnica. Não desafina tecnicamente.

Carecerá, sim, de um outro fundo táctico, uma estratégia mais moderna, mesmo que obrigue a outros retoques no conjunto. Assim, não marcará golos – se não episodicamente.

Barrigana é um jovem dotado. Admiramo-nos da forma como deixou passar o remate de Calado, potente, sim, mas disparado de tantos metros de distância, que diabo, um guarda-redes com pretensões deverá tentar mais que um simples levantar de braços. Já vimos homens da sua craveira operar defesas mais difíceis…

Viana, Luís Pinto, Cristóvão e Albano não brilharam nas antecipações. Quando estavam a encontrar-se num bom ritmo e colocação a equipa sofreu um tento de Kiki. Nos «stoppers» exige-se, hoje, mais destreza atlética e facilidade de desarme, ou futebol aéreo de outra autoridade.

Muito «bonitos» os estrategas, desde Amaral, medroso, em excesso, mas cheio de «finesse» e bom toque de bola, a Ernesto, científico, sem forças mas com algum talento, passando por Francisco Baptista, calmo mas vagaroso, Araponga não brilhou, sendo um homem apagado e triste, na sua técnica de feição brasileira.

Chico Gordo e António Luís correram mas sem terem atrás de si médios em apoio imediato. Carlos Manuel e Sebastião em dia de pouca evidência, nem tempo para compensações.

Nada a dizer de Maximino Afonso. Não teve problemas nem os criou, num jogo onde o «fair-play» imperou.»

(“A Bola”, 25.10.1971 – Crónica de Mário Macedo)

(Imagem – “A Bola”, 25.10.1971)