“O MELHOR GOLO FOI ANULADO E PERTENCIA AOS NABANTINOS…

Estádio Municipal de Tomar

Árbitro – Fernando Leite, do Porto

U. TOMAR – Silva Morais (2); Kiki (3), Faustino (3), João Carlos (4) e Barnabé (3); Manuel José (3) e Cardoso (3); Pavão (2), Bolota (2), Camolas (2) (60m – Fernando (2)) e Calado (4)

SPORTING – Damas (3); Laranjeira (2), Caló (4), José Carlos (3) e Hilário (3); Tomé (2) (77m – Pedro Gomes (1)) e Gonçalves (2) (45m – Manaca (2)); Chico (3), Nelson (3), Vagner (2) e Dinis (4)

0-1 – Nelson – 24m
0-2 – Nelson – 68m

«Substituições: Manaca (2), Fernando (2) e Pedro Gomes (1) renderam Gonçalves (intervalo), Camolas (60 m) e Tomé (77 m).

0-1 – Insistência de Dinis, aos 24 minutos, centro e entrada fulgurante de Nelson, a rematar de cabeça.

0-2 – Excelente passe de Vagner aos 63 minutos, para Nelson, que se limitou a colocar a bola fora das possibilidades de intercepção de Silva Morais.

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Tomar, debaixo de uma violenta tempestade apreciou o brio com que duas equipas de futebol se bateram.

O facto no entanto, não tirou o brilho a esta partida, e, somente por brio, por abnegação, se admite que se pratique futebol com tão mau tempo. Quanto a nós, o esforço físico exigido aos atletas é demasiado propício a toda a casta de lesões, mas a decisão do árbitro para estes casos é que conta e, portanto, nada se pode apontar sobre este difícil problema.

Como em jeito de intróito se analisar as condições em que esta partida decorreu e que apenas devido à disciplina evidenciada pelos componentes de ambas as equipas, não se tornou pernicioso (a lisura das jogadas foi corrente) passaremos a analisar as actuações de todos esses elementos.

Iniciado o jogo com a saída pertencente ao Sporting, logo houve a percepção de que os lisboetas procuravam estabelecer o resultado no início da partida e, assim, aos 5 minutos, João Carlos aliviou bem para o meio-campo quando a bola rondava a sua baliza. Com parada e resposta, a bola bem conduzida no meio campo, ambas as equipas procuravam concretizar as suas possibilidades, e os extremos eram chamados, para as aberturas feitas pelos médios.

Aos 20 minutos, o perigo rondou seriamente as balizas de Damas, o qual teve de executar uma grande defesa a remate de Manuel José, mas cedendo «canto».

Quando decorriam 24 minutos surgiu o procurado golo sportinguista. Dinis, na extrema esquerda, junto à bandeirola de canto, centrou, para Nelson fazer o primeiro golo da partida, pois Silva Morais não conseguiu segurar o esférico, quando da saída dos postes.

Embora se possa pensar que o golo seria defensável, a verdade é que com a irregularidade de que se queixam os jogadores unionistas, logicamente que esse golo ter-se-ia tornado indefensável. Alegam os tomarenses que Nelson teria dado uma palmada na bola. No entanto na bancada onde nos encontrávamos não nos apercebemos deste lance. Com a obtenção deste golo a equipa sportinguista subiu e aos 30 minutos Silva Morais com uma saída oportuna, salvou um momento extremamente crítico para as suas redes. O jogo continuou a manter o mesmo ritmo de até então, tornando-se evidente a aplicação extraordinária de todos os elementos.

Mas, e «não há bela sem senão» eis que surge a primeira precipitação do árbitro, sr. Fernando Leite, no julgamento de um «fora de jogo», quanto a nós mal julgado. Os ânimos exaltaram-se e o sr. Fernando Leite mostrou o cartão amarelo a Manuel José.

Este jogador talvez se tivesse excedido mas depois de ter caminhado com a bola desde o centro do terreno e levar a melhor sobre a defesa sportinguista, conseguindo isolar-se viu o fruto do seu esforço cortado pelo árbitro em flagrante benefício da equipa sportinguista.

Para o final do primeiro tempo o União de Tomar tentou carregar sobre o meio-campo defendido pelos «leões», não conseguindo, no entanto, concretizar os seus intentos.

No 2.º tempo a feição do jogo em nada se alterou, embora em abono da verdade, se diga ter a equipa «leonina» a que mais vezes rematou à baliza e o golo alcançado aos 60 minutos veio confirmar essa mesma predisposição.

O lance deste golo, obtido na sequência da marcação de uma falta perto da área unionista foi um golo de sorte, que, aliás, Nelson soube aproveitar da melhor maneira.

Aos 75 minutos surge o «caso do jogo», e mais uma vez o sr. Fernando Leite não soube julgar convenientemente o lance pois que Bolota, depois de fintar um defesa sportinguista, ao endossar a Pavão (para este fazer o melhor golo da tarde, mas anulado) se encontrava à frente deste. Daí até ao final do jogo em nada se alterou a feição do jogo e o interesse dos elementos em campo continuou sempre até soar o apito final.

Na análise à equipa sportinguista diremos que toda ela cumpriu tendo as suas pedras base em Caló e Dinis que foram inexcedíveis desde o princípio até ao fim do jogo.

Sobre o União de Tomar, de quem francamente não esperávamos tanto, foi uma equipa que se bateu de igual para igual e pelo menos merecia o ponto de honra pois foi uma equipa com bastante força anímica e com uma coragem e moral de apreciar. Calado e João Carlos foram os esteios de uma equipa toda muito certa.

A consideração final para os vinte e dois jogadores que vimos sobre o lodaçal do Municipal de Tomar e a maior e o seu brio, como bons profissionais é de louvar a todos os títulos.

Quanto à arbitragem teremos que dar ao sr. Fernando Leite e seus acólitos, uma classificação má, pois esteve exactamente na arbitragem o pior inimigo dos 22 jogadores em campo.»

(“Record”, 18.01.1972 – Crónica de Luís Santos)

(Imagem – “Record”, 18.01.1972)