“PROMETER E COMPROMETER ANDARAM DE BRAÇO DADO…”

Estádio Municipal de Guimarães

Árbitro – Porém Luís, de Leiria

GUIMARÃES – José Maria (2); Costeado (1), Manuel Pinto, «capitão» (2), José Carlos (1) e Osvaldinho (1); Ernesto (1), Custódio Pinto (2) e Silva (3); Jorge Gonçalves (1), Tito (1) e Rodrigo (1) (45m – Nino (1))

U. TOMAR – Nascimento (2); Kiki (1), João Carlos (2), Faustino (3) (65m – Raul (1)) e Fernandes (2); Cardoso (2), Manuel José, «capitão» (2) e Pedro (1) (71m – Bolota (1)); Raul Águas (1), Camolas (1) e Pavão (1)

1-0 – Silva – 14m
1-1 – Raul Águas – 48m
2-1 – Jorge Gonçalves – 61m
2-2 – Bolota – 82m
3-2 – Silva – 86m
3-3 – Camolas – 87m

«Substituições: registaram-se três, uma só do lado do Vitória, todas elas no segundo tempo. Primeiro, a da equipa local, que não regressou com Rodrigo, quando do descanso, entrando Nino (1) para o seu lugar. Depois, as do União de Tomar: Faustino, aos 20 minutos, saiu para entrar Raul (1), que passou a jogar na linha média, recuando Cardoso para a defesa; aos 26 minutos, saiu Pedro e entrou Bolota (1).

Resultado do primeiro tempo: 1-0.

O único golo do primeiro tempo foi obtido por Silva, que depois de ensaiar alguns remates, disparou um indefensável, aos 14 minutos, de fora da área, impelindo a bola com força, levando-a a passar junto ao poste esquerdo de Nascimento.

Resultado do segundo tempo: 2-3.

1-1 aos 3 minutos, por Raul Águas.

Camolas cortou um alívio da defesa e, sem perda de tempo, atirou-a para a frente de Raul Águas, que estava «fora-de-jogo». Isolado, sem estorvo de qualquer espécie, Raul Águas rematou imparavelmente.

2-1 aos 16 minutos, por Jorge Gonçalves. Na sequência de um «livre» que Manuel Pinto atirara contra a barreira, a bola foi endossada para Nino, na esquerda, que centrou raso. Foram ao lance vários jogadores de ambos os lados e o esférico acabou por «sobrar» para Jorge Gonçalves, que atirou para a baliza desguarnecida. Os forasteiros protestaram, alegando «fora de jogo» de Nino, que não existiu realmente.

2-2 aos 37 minutos por Bolota. Manuel José, apoiando bem o ataque, deu a bola para a frente. José Carlos e Osvaldinho tiveram-na à sua mercê, mas Bolota, que insistiu no lance, acabou por se apoderar dela e desferir o remate, que sem culpas para José Maria, culminou no segundo empate.

3-2 aos 41 minutos, por Silva. Centro de Nino, ao qual Jorge Gonçalves não chegou com a cabeça, aparecendo, porém, Silva a emendar vitoriosamente e sem oposição de qualquer espécie.

3-3 aos 42 minutos, por Camolas. Lance novamente de culpa para a defesa local, que permitiu o seu começo sem a mínima oposição. Começou ele num lançamento da linha lateral, feito para um avançado visitante muito adiantado (até houve quem pedisse «fora de jogo», como se ele existisse nos lançamentos da «touche»), centro curto para Manuel José e entrega preciosa deste para Camolas, que, correndo de trás, rematou à vontade, à entrada da área.

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O Vitória de Guimarães, que víramos vencer (inapelavelmente) o seu homónimo de Setúbal, no termo de uma partida em que toda a muita intenção de bem jogar, intenção bilateral, acabou por exigir um altíssimo espírito de luta, necessário à obtenção do triunfo, e que, no domingo imediato, nas Antas, venceu (também inapelavelmente) o F. C. Porto, ao cabo de um encontro de conteúdo estratégico de realíssimo mérito, a que se seguiu todo um processo defensivo frio, calculista e proveitoso, não foi ontem além de um empate, no seu próprio terreno, diante de um União de Tomar que atravessou o primeiro tempo a agir cautelosa e prudentemente e só acabou por ser efectivamente perigoso depois do intervalo, quando pôs em prática um tipo de futebol simples, mas rápido, verdadeiramente acutilante, por estar impregnado de muito sentido de profundidade.

Estabelecendo um paralelo entre os três últimos adversários do «team» vimaranense, a conclusão imediata é a de que foi exactamente o União de Tomar o que pareceu presa mais fácil. Pois acabou por ser o único que não perdeu. Um tanto por mérito seu, alicerçado nomeadamente pela sua acção simplista, mas vincadamente perigosa, no segundo tempo, quando surgiu a atacar e a contra-atacar com uma rapidez e um sentido de perfuração muitíssimo apreciável, outro tanto por demérito do Vitória, que não foi o Vitória que víramos contra o «onze» de Setúbal e, sobretudo, o Vitória que víramos, nas Antas, ganhar com absoluta autoridade ao F. C. Porto.

Primeira conclusão: o Vitória não venceu por culpa própria.

Displicência e egoísmo

Marcada, logo de entrada, por um ar de displicência, assim a modos de quem toma o jogo como «favas contadas», a exibição da equipa vimaranense veio a ser tocada ainda por um certo egoísmo dos seus jogadores, nomeadamente dos homens do ataque e mais vincadamente de Tito e de Jorge Gonçalves, que passando a partida a serem alvos de uma cerrada marcação, pretenderam sempre receber a bola, dominá-la e passar, depois, o adversário que os marcava.

Com regularidade metronómica, os «pontas-de-lança» vimaranenses perderam lances sobre lances do género, em muitos deles acabaram, até, por ficar estendidos na relva, as mais das vezes em falta, é certo, mas não conseguiram, por esse processo, abrir brechas na defensiva contrária, desgastando-se e perdendo frescura, mas insistindo, logo depois, em lances do mesmo género, que, em regra, não resultam contra antagonistas de evidente pendor defensivo, como foi, principalmente até ao descanso, o União de Tomar.

No lado esquerdo, também Rodrigo, e, depois, Nino, usaram o seu bocado de processos semelhantes, ainda por cima servidos por uma displicência inicial que não conduziu à velocidade necessária, antes a reduziu comprometedoramente, erro em que laborou, de resto, toda a formação.

Ernesto esteve também em dia-não e posto que o facto houvesse sido contrabalançado pela actividade de Silva, um «peão de brega» que ontem se elevou à categoria de «espada», enchendo o campo, indo a todas, defendendo e atacando e, mais que isso, rematando frequentemente, ao ponto de ter marcado dois dos três golos da sua equipa, toda a acção menos arguta e lúcida dos atacantes e de Ernesto foi o «lamiré» para a reacção do adversário, que depois de encontrar o caminho do golo, começou a acreditar em si, a crer na possibilidade de evitar a derrota, a admitir a possibilidade de deitar mão a um ponto, ao menos. Como veio a suceder.

E posto não se possa deixar de referir que o golo inicial dos forasteiros foi precedido de um «fora de jogo» evidente, pois Raul Águas estava deslocado antes de partir o passe de Camolas, não é sem mérito que uma equipa responde a cada golo sofrido com outro golo marcado, acabando, antes do term[o] da luta, [a] pôr em sobressalto constante a defensiva local, que acumulou os erros os mais diversos, erros que toda a equipa pagou com a perda de um ponto que, por três vezes, chegou a estar-lhe nas mãos.

De resto, em todos os golos dos visitantes houve erros da defesa local. No primeiro, o passe foi cortado por Camolas, que lançou imediatamente José Águas. No segundo, José Carlos e Osvaldinho estiveram ambos mais perto do esférico e acabaram por permitir que Bolota dele se apoderasse e obtivesse o tento. No terceiro, a série de erros começou no lado direito, permitindo que um adversário, muito adiantado, recebesse um lançamento da linha lateral (e tão adiantado estava que houve quem se fartasse de pedir «fora de jogo», como se houvesse «foras de jogo» nos lançamentos da linha lateral!) e continuou no lado oposto, quando os homens da esquerda quiseram dobrar os companheiros batidos pela jogada astuta do antagonista e acabaram por não barrar o caminho de Camolas, que veio a receber o esférico em posição excelente para o remate, sensivelmente à entrada da área, entre esta e a marca da grande penalidade, desferindo o remate na passada e sem o mínimo estorvo.

No primeiro lance, repetimos, além do erro da defesa vimaranense, houve também descuido da arbitragem, pois o juiz de linha sr. Vitor Manuel, em situação perfeita para ajuizar o lance, deixou passar em julgado a delocação de Raul Águas. De qualquer dos modos, e referindo o facto, como nos compete, é evidente que nos outros golos os erros foram só dos defensores locais, que acabaram em verdadeiro sobressalto a partida que os dianteiros não souberam ganhar e eles acabaram por comprometer, tornando infrutífero todo o precioso e excelente trabalho de Silva, que não terá visto assinalada com um triunfo a por certo melhor exibição da sua vida – feita a jogar e a marcar golos.

Tomar o pulso

Longe do brilho habitual, da movimentação certinha que nos mostrara nas partidas anteriores, do espírito de luta de que, sempre que necessário, fizera magnífico alarde, o Vitória veio a cair numa actuação nem carne-nem-peixe, em que, posto tenha atacado mais, não conseguiu impor-se de modo terminante, para pôr cobro às intenções contrárias, manifestadas até ao descanso de maneira a tentar apenas evitar os golos. Depois do intervalo, naturalmente alertada para a possibilidade de também fazer valer o seu contra-ataque, que salpicou de velocidade e determinação, o União de Tomar tomou o mesmo o pulso ao Vitória e, a golpes de tenacidade, como no segundo golo, ou de inteligência, como no terceiro, acabou por chegar (e por três vezes) à igualdade com que terminou o encontro.

E observe-se que, golo a golo, dos três com que respondeu ao adversário, o tempo para repor a igualdade foi sensivelmente encurtado. Para o primeiro empate, foram necessários 34 minutos. Para o segundo, foram necessários já só 21. Para o derradeiro e definitivo, bastou um minuto, apenas um minuto só. Para o Vitória, prometer e comprometer andaram de braço dado.

O facto sublinha perfeitamente o modo como os visitantes tomaram o pulso ao adversário, continuando a «segurar» muito bem os dianteiros vimaranenses (e Silva teve de desdobrar-se para os superar e marcar dois golos) e fazer oscilar a defensiva local, que viveu em realíssimo sobressalto a meia hora final do encontro, acumulando erros que estiveram na origem de golos além de outros erros que não tiveram consequências.

De um primeiro tempo prudente e cauteloso, disputado com a equipa retraída, claramente a agir com pendor defensivo, traduzido, em regra, por um «4x4x2» que nunca chegou a evoluir para o «4x2x4», ficando, quando muito, num «4x3x3» hesitante e pouco determinado, o União de Tomar acabou por passar para uma actuação, em que, firme sempre na defesa, contra-atacou com entusiasmo, firmeza e, sobretudo, velocidade, sendo excelente, neste período, a acção de apoio de Manuel José, de resto na origem dos dois golos últimos.

Silva e Faustino

No «onze» do Vitória, Silva foi a figura número um, a figura maior, entregando-se à luta com total generosidade e à equipa com absoluta devoção. Tipo e jogador cheio de força, que não pára, que luta sempre, que corre constantemente, ele encheu o campo, defendendo com utilidade, atacando com entusiasmo, atrasando-se e adiantando-se consoante as necessidades do jogo. Marcou dois golos excelentes. O primeiro, com um remate de força e colocação inexcedíveis. O segundo, aparecendo junto da baliza para conseguir emendar o centro de Nino, a que Jorge Gonçalves não conseguiu chegar.

Depois dele, os manos Pinto foram os mais regulares, os mais lúcidos, os mais certos. Tal como José Maria, o guarda-redes batido três vezes, que em nenhum dos golos teve culpas. O resto da defesa comprometeu-se na fase final do encontro. Claramente. O ataque, com Ernesto, comprometeu-se durante todo o jogo.

Faustino e João Carlos foram os eixos de uma defesa dura, impiedosa, que soube marcar em cima, que não deu tréguas nem um palmo de terreno aos «pontas-de-lança» contrários. Faustino foi inexcedível na marcação a Tito, que não pôs pé em ramo verde, a despeito de ter sido menos egoísta que Jorge Gonçalves, de ter variado mais os lances, de ter procurado, mais decididamente, contrariar a marcação que lhe foi feita. Jorge Gonçalves deu mais possibilidades aos antagonistas, prendendo mais o esférico.

A meio do terreno, Manuel José acabou por ser o homem das grandes decisões, apoiando depois do descanso o seu ataque de maneira excelente, solicitando-o, lançando-o, obrigando-o a jogar para a frente.

Todos os companheiros, aliás revelando excelente condição física, colaboraram activamente na defesa prudente e inicial da baliza de Nascimento, que também não teve culpas nos golos que sofreu, e na reacção que conduziu o «team» à conquista de um ponto.

Poucos «poréns»

A arbitragem do sr. Porém Luís foi, de um modo geral, bem conduzida. O erro maior foi cometido pelo seu auxiliar sr. Vitor Manuel. O tal erro do «fora de jogo» que precedeu o primeiro golo nabantino e o terá tornado possível. Aliás, o mesmo auxiliar nem sempre acertou com os «foras de jogo» que assinalou e também deixou passar sem punição outros que o foram mesmo. Os «poréns» da arbitragem foram, afinal, mais do sr. Vitor Manuel que do sr. Porém Luís.

Os protestos da equipa de Tomar, quando do segundo golo, alegando «fora de jogo» de Nino, foram injustificados. O árbitro olhou bem para o outro auxiliar, sr. Agostinho dos Santos, que, seguindo o lance com atenção, viu perfeitamente que não existira, realmente, deslocação do extremo esquerdo vimaranense do segundo tempo.»

(“A Bola”, 06.11.1972 – Crónica de Álvaro Braga)

(Imagens – “A Bola”, 06.11.1972)