“ENTRADA DE EDISON GALVANIZOU OS AVEIRENSES”

Estádio Municipal «Mário Duarte», em Aveiro

Árbitro – Américo Barradas, de Lisboa

BEIRA-MAR – César (2); Ramalho (2), Marques (2), Soares (2) e Severino (2); Inguilla (1) (71m – Edison (2)); Eurico (1) e Colorado (1); Cléo (1), Alemão (1) e Almeida (1)

U. TOMAR – Nascimento (2); Kiki (1), João Carlos (2), Cardoso (2) e Fernandes (1); Beto (1); Manuel José (3), Fernando (2) e Pedro (1) (81m – Caetano (-)); Pavão (0) e Camolas (0) (62m – Bolota (0))

1-0 – Eurico – 77m
2-0 – Edison – 82m

«Substituição – Na segunda parte, aos 26 minutos, passou a jogar o sul americano Edison (2) para Inguilla deixar o campo.

Substituições – No segundo período de tempo, registaram-se duas alterações na equipa de Tomar. Saiu Pedro (36 m.), para aparecer em campo o jovem Caetano (-) e Camolas cedeu o lugar a Bolota (0) aos 17 minutos.

Ao intervalo: 0-0.

1-0, por Eurico, aos 77 minutos.

Pontapé de canto, marcado no lado esquerdo por Colorado. A bola foi passada para Almeida, que a colocou nos pés do goleador. Um toque com um pé e «à esquerda», seguiu-se um «tiro» sesgado, sem defesa possível.

2-0, aos 82 minutos.

Contra-ataque do União bem interceptado por Soares, que com a parte de dentro do pé esquerdo colocou o esférico, em «volée», perto da zona da verdade dos tomarenses, com as defesas adiantadas no terreno. Edison correu de trás e com a cabeça bateu Nascimento, quando este saiu da baliza, ao ver o perigo.

Resultado: 2-0.

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O Beira-Mar venceu, ontem, com extrema dificuldade, um encontro que decorreu num clima de expectativa e nervosismo, com momentos de extrema «frisson», jogando-se em labaredas de paixão, sendo quase proibitivo para o público apreciar-se o futebol posto em execução.

Por sua vez o União de Tomar, a decair domingo a domingo, na escala classificativa, teve momentos de carburação esclarecida, a par de lances de verdadeira perplexidade, criando na assistência juízos anatgónicos.

Com este tipo de futebol-jogado, a crítica sente-se na obrigação de julgar a partida dentro das suas particularidades, analisando as razões da quebra de uma formação, para logo a seguir ter de interpretar a sua melhoria psíquica – porque de bom futebol esteve a partida bem ausente!

Seria mesmo estultícia da nossa parte exigir que dois «quadros» em fase de oscilação, não só na voragem de resultados, como na posição pontual, se apresentassem no relvado de Aveiro e «dissessem» para o espectador neutro: «desejam um bom encontro de futebol, vão ver como somos capazes…».

O encontro foi de uma «suspense» inesquecível, embora normalmente se jogasse em rajadas e com nervos, porque a emoção sobreveio, afinal, como uma consequência directa do estado de espírito dos jogadores dos jogadores em acção, não da beleza técnica dos esquemas, que provoca igualmente, uma euforia íntima, de satisfação e de êxtase.

Jogou-se com tanta sofreguidão, que dentro e fora do campo, pairou no ambiente um ar de tragédia, se o Beira-Mar empatasse ou não chegasse ao triunfo.

Assistimos em Aveiro, em síntese, a um jogo de máxima paixão, sendo verdadeiramente impróprios para cardíacos os noventa minutos do encontro, porque o futebol do Beira-Mar teve momentos de intensa carga emocional, culminada com o golo de Eurico, um jogador antes desastrado e, afinal, o homem do lance decisivo do «match».

Começar em melhor estilo

É a segunda vez que analisamos, em pleno campeonato, a formação nabantina, mas o jogo no Estádio «Mário Duarte» apresentou-nos um União de cariz muito especial.

Não há dúvidas que António Medeiros procurou incutir nos seus pupilos uma ideia de futebol colectivo, de relativa consciencialização técnica e dentro dos planos estratégicos maduramente estudados, em teoria.

Contudo, o futebol de movimento e a plena exteriorização do futebolista em jogo, sofre modificações tão profundas, que uma equipa mentalizada para um certo esquema pode, num ápice, desagregar-se e tudo se desune, como por encanto.

Começou em melhor estilo, o União tomarense, com um naipe de jogadas concebidas «a priori», mas de ofensiva menos dinâmica, porque o sector atacante apresentou-se muito reduzido em número (Camolas e Pavão) e com soluções audaciosas.

Tudo bem imaginado e razoavelmente executado durante quinze minutos, com o grave pecadilho da falta clamorosa de jogadas de envolvimento e sem extremos, ou homens de recurso, nos flancos, as semi-estratégias podem não frutificar.

Melhor: é quase proibitivo renderem, quer em golos, quer em situações eminentes deles serem alcançados!…

Até que…

O empertigamento de Aveiro

Havia 15 minutos de jogo, quando aconteceu um imponderável, de excepcional influência psicológica no futebol do Beira-Mar.

O negro Cléo, muito vivo, foi balanceado, de trás, aproximou-se a passos largos da grande área e surgiu Fernandes, a desarmá-lo, «in-extremis», provocando um oh! de admiração na assistência.

«Penalty», gritou-se! O árbitro Américo Barradas, excelentemente colocado, viu como deveria fazê-lo: «jogou-se» no esférico, sem a intenção de derrube ou de outra falta grave. Nunca poderia ser grande penalida[de] … falta passível da mesma, nem Américo Barradas o confirmou! Além disso, o lance «sucedeu» fora da área da verdade e apenas foi pontapé de canto, porque Fernandes foi o último jogador que tocou no esférico (não em Cléo, repito!), antes dele sair do campo, para ser assinalada em jogada bem diferente.

É evidente que a assistência estava preocupada, por observar o União a desenhar um futebol de melhor semi-sistematização, mas o golpe galvanizou o Beira-Mar.

«Aqueceu» o futebol e os aveirenses, unidos como por encanto, esqueceram tudo, mesmo o jogo mais certo do Tomar, para executarem durante trinta minutos, um jogo de relevante prevalência psíquica, desejando «provocar» (?) ao árbitro a sua total insatisfação com uma decisão não tomada, como se pretendia!

A formação de Eduardo lançou-se para a frente, com frenesim e numa aplicação total dos sentidos, que não o cérebro, claramente perturbado (admite-se a ideia), para se planificar um futebol doutra clareza, menos desgastante, mais sereno portanto, de outro rendimento global.

Com velocidade, não deixando Manuel José, Pedro e Fernando segurarem o esférico, tão pouco se preocupando com a defesa, o Beira-Mar empertigou-se de tal forma que o jogo «virou» a seu favor, por completo, até ao intervalo.

Foi curiosa a manobra de conjunto, com Inguila mais perto dos médios, Soares e Marques muito rápidos, para apoiarem mais de perto os estrategas Colorado e Eurico, este muito nervoso, mas a concepção do futebol residiu neste pressuposto: – ganhar a posse do esférico.

Sem extremos, com Almeida a correr para dentro, dando permissão às infiltrações longas de Severino, mesmo assim Nascimento muito defendeu e Fernandes salvou um possível lance para 1-0.

Duas reviravoltas no segundo tempo

Como poderia o União de Tomar ganhar fora – nunca o conseguiu no actual torneio! – se admitisse em campo um Beira-Mar mais presente, em acções de rajadas, mas positivas no fluir do futebol-jogado?

António Medeiros apercebeu-se do equívoco e, de novo, os tomarenses se assenhorearam do comando das operações, logo que o árbitro apitou para o reatamento da partida.

Com esta notável diferença: – Manuel José preparou, com rara visão, dois momentos de alta capacidade táctica, mesmo num «onze» com um semi-ataque, ou melhor, um mini-ataque…

Sobreveio, entretanto, outro imprevisto: – Eduardo tomou uma decisão infuentíssima, porque o futebol táctico passou para outro plano, completamente ignorado antes.

Saiu Inguila, a dar razoável conta de si, quando muita gente pensou que Colorado e Alemão mereciam ser substituídos.

A formação do Beira-Mar transfigurou-se tacticamente, dispondo de uma frente ofensiva com dois extremos (Edison e Almeida) e dois aríetes (Alemão e Cléo), passando Colorado para o eixo do sector médio, onde se integrou Eurico, na segunda parte a jogar mais à frente que no meio-campo.

Jogando em toda a frente de ataque (finalmente!) o «onze» de Aveiro desuniu o União, onde Manuel José só teve de recuar, para receber passes da sua defesa, já menos certa no posicional e nas antecipações.

Marcaram-se dois tentos e outros se desperdiçaram, mas o União não merecia uma derrota por números elevados.

Porquê?

– Tiveram momentos superiores ao Beira-Mar e

– Falharam, em lances decisivos

Segunda vitória em Aveiro

Depois do colapso no Restelo, o Beira-Mar procurou a salvação (possível) na chicotada psisológica, entregando a orientação do seu futebol profissional ao jogador Eduardo, que já ganhou três pontos, um na frente do Vitória Europeu.

É evidente que a turma está muito intranquila e desequilibrada, mas o novo técnico procurou manter o jogo de Bianchi, na defesa, onde Soares, Marques e Inguila foram dominantes.

Na tarde de ontem, optou-se por várias ideias, no fluir ofensivo. Primeiro, o contra-ataque, uma vez que o União se entregou a uma retenção do esférico no meio-campo, onde criou uma base de operações, com o esclarecido Manuel José. Mas um contra-ataque, com Cleo, Almeida e Alemão, balanceados de trás, sendo Severino o homem do flanco esquerdo, menos Ramalho no outro lado. A finalizar o encontro, um ataque total, de quatro unidades, mas sem defesas a compensarem a falta de extremos. Foi diferente!

Continua o duo de defesas centrais, com Inguila à sua frente, mas sendo outra a intenção de ataque, com menos toques «abrasileirados», ou jogando os futebolistas mais habituados ao jogo português…

César teve pouco para defender, mas merece uma boa nota, porque teve dois ou três golpes de decisão e espectáculo, um maravilhoso, a «tiro» de Manuel José.

Ramalho começa a revelar-se. Bons pés coragem e a melhoria irá acentuar-se porque sabe jogar. Severino adoptou outro estilo, de franco ataque, mas recupera pouco, quando perde o esférico. Soares muito bem no segundo golo e nalguns cortes. Marques à procura da melhor forma, tardando a excepcional de 1971.

Inguila, assim, assim, intencional longe ainda do fulgor táctico do ano passado. O médio Colorado teve momentos de lucidez, quebrou depois e acabou em bom estilo, sendo o «ressuscitado» dos derradeiros minutos. Cléo, um «colored» de inteligência, frágil para choques, mas estilista e com toques de visão. Será «aríete»? Não pensamos assim. Remata bem de longe, pouquíssimo na grande-área. Alemão teve altos e muitos baixos e foi o outro «ressuscitado», no período da vitória.

Eurico, em dia negro, a executar passes sem destino e muito nervoso, mas foi maravilhoso no golo que obteve. Bela execução! O jovem Almeida teve de jogar fora do flanco, por obediência táctica, mas depois reencontrou o seu lugar e acabou melhor.

Edison se jogar sempre assim, merece a atenção do público. Mais aclimatado ao futebol de nervos do fim da tabela? A sua entrada, repete-se, «baralhou tudo».

Quando se ganha fora?

O União de Tomar não está a corresponder – nem com boa vontade da Crítica – aos anseios tão desejados pelo seu treinador. A formação define uma ideia, uma vontade de «acertar as agulhas», mas tudo muito disperso, em fases fugidias, como que sendo difícil chegar-se ao futebol de nível europeu – outro futebol que o União de Tomar não executa, com naturalidade e saber.

Bem sabemos que a doutrinação é falível se as «pedras» são de categoria média. Medeiros convenceu-se (na verdade?) que com psicologia aplicada tudo passaria a ser belo e sedutor, chegando-se aos primeiros lugares do «Nacional», um «Nacional» pleno de outras frustrações, em equipas mais dotadas de material humano. Pois é…

…ainda não se ganhou fora e apenas um ponto, em Guimarães, contra um Vitória de boa personalidade, está no seu activo.

Contra o Beira-Mar, é verdade, repete-se, por necessário ao nosso raciocínio, o «team» teve momentos de melhor afinação, perdeu ocasiões soberanas (pelo menos duas), mas o conjunto não está confiante em si, desagrega-se com pouco e perde a «tuadazinha» bonita, vinda de Manuel José.

No seu íntimo, bem no âmago do jogador, na parte que nenhum treinador pode estudar – o foro interior do ego! – haverá, de facto, uma convicção no «poder europeu» do União?

Não será tudo «fogo fátuo», um sentir de «falar por falar», que se desvanece com um «assopro»? Ontem, o Beira-Mar, em esticões, descontrolou, por completo, o «futebolzinho» desenhado com tanto afã.

Por outro lado, o conjunto dá a sensação de «exausto», psíquica e muscularmente, não tendo reagido eficazmente e com reflexos à dureza competitiva do futebol atlético imposto por alguns aveirenses.

Estamos fora da razão? Esperemos pela contraprova de outras 15 jornadas.

Individualmente, Manuel José brilhou, com poucos momentos de abaixamento. Nascimento bem, mas sem apoio no segundo golo. Pedro e Fernando jogam com a bola nos pés, porque têm técnica de execução. E em conjunto, quando o adversário «aperta»? Beto foi um apoio à defesa. Pavão e Camolas isolados. Não entremos mais em pormenores, porque poderão ser enganadores. Todavia, Cardoso e João Carlos tiveram lances superiores a Kiki e Fernandes.

A arbitragem

Um ou outro equívoco (pontapés de canto) não deslustram o bom trabalho de Américo Barradas, um árbitro à altura, nesta crise de arbitragem, que existe, por haver falta de muitos juízes da sua categoria.»

(“A Bola”, 18.12.1972 – Crónica de Mário Macedo)

(Imagem – “A Bola”, 18.12.1972)