“MELODIAS DE ROUXINOL GARRAS DE ABUTRE

FUTEBOL É UM JOGO MAS NÃO DE PALAVRAS”

Estádio Municipal de Tomar

Árbitro – Ismael Baltasar, de Setúbal

U. TOMAR – ascimento (1) (45m – Silva Morais (1)); Kiki (1), João Carlos (1), Cardoso (2) e Raul (2) (60m – Fernandes (1)); Fernando (1), Manuel José (2) e Pedro (2); Caetano (2), Raul Águas (1) e Camolas (1)

BELENENSES – Mourinho (3) (80m – Ruas (2)); Murça (3), Calado (3), Freitas (3) e Pietra (3); Quinito (3), Quaresma (3) e Godinho (2) (15m – Ernesto (3)); Laurindo (3), Luís Carlos (3) e Gonzalez (3)

0-1 – Gonzalez – 26m
0-2 – Gonzalez – 35m
0-3 – Laurindo – 39m
0-4 – Luís Carlos – 51m
0-5 – Laurindo – 67m
0-6 – Luís Carlos – 80m



«No começo da segunda parte, Silva Morais (1) substituiu Nascimento. Quinze minutos depois, Raul, magoado, cedeu a sua posição a Fernandes (1).

Aos quinze minutos, Godinho, magoado, praticamente, desde o primeiro minuto, foi substituído por Ernesto (3). A dez minutos do fim, Ruas (2) entrou para o lugar de Mourinho.

Ao intervalo, 0-3.

Aos 26 minutos, 0-1. Na marcação directa de um «livre», assinalado para castigar um empurrão de Raul a Laurindo, Gonzalez, apesar do mau ângulo para remate, imprimiu efeito tal ao esférico, que, obrigando-o a descrever um arco caprichoso, o levou a entrar nas balizas de Nascimento, rente à base de um poste.

Aos 35 minutos, 0-2. Foi um golo assombroso. Gonzalez captou a bola no meio-campo do União, dominou um adversário, deu alguns passos em frente. Depois, parou e circunvagou o olhar pelo campo que tinha à sua frente, dando-nos a sensação de estar a escolher o sítio para onde queria fazer seguir a bola. Escolheu o ângulo superior direito das balizas e, com um remate estupendo, fez entrar o esférico por lá.

Quatro minutos depois, 0-3.

Do meio-campo tomarense, Ernesto lançou a bola, em profundidade, por entre os defesas adversários. Rápido no arranque, Laurindo passou por eles, isolou-se na grande área e, quando Nascimento, completamente desamparado, tentou sair-lhe ao caminho, evitou-o, arrastando a bola consigo e rematando-a, depois, tranquilamente, para as balizas desertas.

Aos seis minutos da segunda parte, 0-4. Murça apanhou a bola na zona do círculo central, sobre o lado direito. Foge que foge, passa que passa, atingiu, isolado, a grande área dos nabantinos, onde, tendo apenas Silva Morais, na sua frente e podendo, legitimamente, aspirar a ser ele o marcador do golo, preferiu entregar o esférico a Luís Carlos, que rematou sem dificuldade.

Aos 22 minutos, 0-5. Descida rápida do ataque belenense, com passe final de Luís Carlos para Laurindo, que, já em plena grande área, visou o alvo e acertou nele.

A dez minutos do fim, 0-6. Foi Luís Carlos o autor do golo, numa jogada algo semelhante à que dera a Laurindo o tento anterior e que bem ilustra a facilidade com que os jogadores lisboetas penetraram durante toda a partida, na defesa do União.

———-

Até há pouco, muita gente (toda a gente) achava surpreendente o facto de o Belenenses, com os jogadores do ano passado, mais o ex-nabantino Calado e o paraguaio Gonzalez conseguisse realizar a «performance» que o guindou ao segundo lugar da classificação geral, onde, neste momento, desfruta da confortável vantagem de cinco pontos de avanço sobre o Sporting. Tem-se chamado a esse «prodígio» dos «azuis» o «milagre de Scopelli», um nome que vai ficar, sem dúvida, duplamente, histórica nos anais do grande clube lisboeta.

Mas o «milagre de Scopelli» não foi só esse de pôr a sua equipa a ganhar jogos e pontos, como, durante muito tempo, se supôs. Na verdade, o Belenenses convencia mais pelos resultados do que pelas exibições, impressionava mais pela força física e anímica dos seus jogadores do que pelos primores do seu futebol. Por outras palavras: poderia admitir-se que, mais do que um produto da técnica e da táctica, o Belenenses seria… um «estado de espírito». A ser verdadeira esta hipótese comportaria sérios perigos, porque permitiria o receio de que, no dia em que os resultados começassem a mostrar-se desfavoráveis, o tal «estado de espírito» se fosse desvanecendo, desmoronando-se e provocando o próprio desmoronamento da equipa. É que os tais «estados de espírito» são excelentes adjuvantes de uma equipa de futebol, mas não bastam para lhes dar longa vida, isto é, para as «prolongarem» para além do tempo que duram os efeitos dos bons resultados e das boas classificações.

Ontem, porém, tivemos a confirmação de que o «milagre de Scopelli» não consistiu, apenas, em dar ao Belenenses uma equipa transitória, nascida dos efeitos efémeros de uma excelente carreira no Campeonato deste ano. Foi mais longe a visão do «arquitecto», penetrou mais fundo o dedo do «construtor». Na verdade, o Belenenses já não é só determinação, só crença, só garra, só um «estado de espírito», mas também pratica do melhor futebol que se joga hoje em Portugal.

Efectivamente, futebol como aquele que os «azuis» exibiram, ontem, em Tomar, não pode aparecer por acaso, ao sabor de tarde de inspiração. Para o pôr em prática, não obstante a vivíssima oposição do adversário e as condições desfavoráveis do ambiente (piso lamacento e tarde chuvosa), é necessário que os jogadores o sintam, o saibam de cor.

No título desta crónica, usamos uma imagem que pode parecer algo presunçosa e descabidamente poética: «melodias de rouxinol e garras de abutre». Mas foi assim mesmo, porque o Belenenses modelou jogadas de sonho, sem perder em nada da sua virilidade, da sua pujança atlética e psicológica, do realismo criador que tem caracterizado muitas das suas actuações neste Campeonato. Jogou bem; por vezes, extraordinariamente bem, mas lutando, sempre, pela forma decidida e empolgante que se lhe tem visto. Técnica e táctica, velocidade e força, segurança na defesa e poder realizador no ataque – não será tudo isto suficiente para definir uma equipa de firme presente e de grande futuro?

De sorte que, ao ver o Belenenses jogar assim – jogar como só as grandes equipas o podem e sabem fazer – demos connosco a pensar que já não surpreende o facto de estar no segundo lugar da classificação, a cinco pontos do Sporting e a sete do Vitória de Setúbal. O que espanta, isso sim, é que os «azuis» se encontrem a nove pontos do Benfica…

Gigantismo artificial

Outra ideia que não nos largou, durante a maior parte do encontro, foi a de como são descabidos, inúteis e, porventura, perniciosos, certos processos de «gigantismo artificial», de que alguns treinadores usam e abusam, não sabendo se convencidos de que conseguirão, por esse modo, superar as deficiências de «matéria prima» com que trabalham, se desejosos, antes, de se lançarem, por essa via, nas tubas da popularidade.

A verdade é que o método não tem dado os resultados que os seus autores dele fiavam. Viu-se isso com o Belenenses de há algumas épocas. Assiste-se, agora, de novo, à mais completa desautoração do processo. Não é com palavras sonoras, com promessas ribombantes, com afirmações megalómanas, que se constroem grandes equipas e conquistam resultados sensacionais. O futebol é outra coisa: são bons jogadores, são tácticas adequadas, são defesas que defendam, são ataques que marquem golos.

Que no-lo perdoe o treinador do União – que não precisa do nosso aval, nem das suas fantasias, para ser, na verdade, um homem com muitas possibilidades de êxito na espinhosa profissão que abraçou – mas discordamos, frontalmente, dos métodos de mentalização psicológica com que fez crer a jogadores e adeptos do União na existência de uma grande equipa em Tomar. A verdade é que o União não tem – nem poderia ter, se nos lembrarmos de que, na sua maioria, os jogadores de que dispõe já haviam sido testados em clubes com muitas aspirações – essa grande equipa. O União tem (ou poderia ter), isso sim, uma equipa mediana, suficientemente apta a fazer carreira tranquila no Campeonato. Para mais do que isso, não. Afigura-se-nos, por isso, um erro lamentável obrigar tanta gente a sonhar com castelos dourados, para, na hora da verdade, lhe fazer sentir todo o doloroso desencanto destas horas de frustração e de inquietação, já com o espectro dos últimos lugares a rondarem pela porta da «super-equipa» que até fazia curvar à sua passagem os peixinhos do Nabão.

Sinceramente, o que o União de Tomar precisa, neste momento, não é de palavras bonitas, mas sim da VERDADE, ainda que esta seja menos agradável de ler ou ouvir do que aquelas. É preciso fazer cessar o sonho e regressar à realidade. As «vedetas» da «super-equipa» precisam de voltar, urgentemente, ao seu lugar de «bons jogadores» de uma «equipa mediana».

Hão-de perdoar-nos, pois, os jogadores, os adeptos e o técnico do União, que, em vez de continuarmos a acariciar o seu sonho, em vez de juntarmos a nossa voz ao coro dos que os endeusam, tentemos obrigá-los a volver os olhos para a terra, para a realidade. O União pode salvar-se de danos maiores e de desilusões ainda mais dolorosas, se descer dos castelos roqueiros da ilusão por onde tem andado. Não o conseguirá, todavia, se persistir na sua miragem, que, como todas as miragens, desaparecerá de forma impiedosa e cruel – mais cruel e mais impiedosa do que possam parecer estas nossas palavras.

Lição de humildade

Mas joga mal o União de Tomar?

Não, não joga, se atendermos apenas ao lado técnico da sua forma de jogar. E é aí, precisamente, que nos parece residir o fundo do problema, a razão principal dos seus enganos e desenganos.

Na verdade, segundo o que vimos ontem, a equipa nabantina preocupa-se mais com a forma do que com os efeitos. Gosta do futebol bonito, rendilhado, com lances que levem um ou outro espectador mais entusiástico e precipitado (ou menos atento às veras necessidades da equipa) a gritar lá do seu posto de bancada: «Olé!»

«Olé!» Uma bonita finta, um rico drible, uma vistosa combinação. E os tais espectadores gritam: «Olé!» Não reparam, porém, que a bola girou, passou dois ou três pés, mas progrediu (quando progrediu) apenas alguns metros…

De início, ainda se notou, na equipa nabantina, a preocupação de jogar para as balizas do Belenenses, para o remate, para o golo. Não diremos que o tenha feito muito bem, porque o jogo miúdo e excessivamente burilado do meio-campo se sucediam os passes muito longos para os «pontas-de-lança» (Camolas e Raul Águas) e porque estes, sem terem com quem trocar a bola (os centro-campistas lançavam o esférico e ficavam-se nas covas, a ver no que paravam as modas), corriam a toda a brida no encalço dela e, mal a tinham ao alcance do pé, «vai de rematar que é uma pressa».

De qualquer modo, este começo do União teve mérito, criou sensação e produziu os seus efeitos. Teve, pelo menos, o condão de obrigar o Belenenses a pensar duas vezes, antes de se lançar, ele próprio, à conquista do golo.

Na verdade, a equipa lisboeta deu, na circunstância, uma bela lição de humildade e de sentido realista. Tudo quanto, nesse período de dificuldades, os belenenses quiseram fazer (e fizeram) foi no sentido de controlar o jogo, fechando bem a sua defesa, constituindo um bloco polivalente a meio do terreno e fazendo o possível para manter a bola em seu poder. Depois, a pouco e pouco, à medida que o ímpeto dos «pontas-de-lança» tomarenses, desbastados pelas correrias em que se lançavam e pela rijeza da oposição que lhes era movida, ia estiolando, começaram os lisboetas a gizar as primeiras jogadas de ataque, a tentarem os primeiros remates à baliza de Nascimento. Poucos remates, mas bons, com especial relevo para um de Quinito, aos dezanove minutos, que fez estoirar a bola na trave.

A defesa do União, tão mal apoiada pelos companheiros da linha média quanto o fora antes o ataque, ainda resistiu, durante alguns minutos, à vaga, sempre crescente, em caudal e em explosões de velocidade, dos dianteiros «azuis». Cometeu, porém, um erro bastante grave. É que, desconhecendo uma das particularidades mais significativas do Belenenses actual e sugestionada, talvez, por aquilo que tem ouvido a respeito de Quaresma, a defesa nabantina cuidou que, vigiando bem as «saídas» do médio belenense e matando as iniciativas de Luís Carlos (o ponta-de-lança, único, dos «azuis»), estaria a salvo dos golos. Ora, como se sabe, os dois extremos do Belenenses são, em conjunto, os responsáveis pela maior parte dos golos da sua equipa.

Quando o União de Tomar deu pelo engano (se é que deu por ele), tinha três golos nas suas balizas. Laurindo e Gonzalez tinham sido os seus autores…

Lição (magistral) de futebol

Devemos esclarecer que o avanço do Belenenses, ao intervalo, era, já, o corolário lógico de uma superioridade esmagadora. A sua defesa dominava, sem problemas, o «mini-ataque» do União. Sobrava-lhe tempo para se meter pelo meio-campo, para se aventurar até às imediações das balizas tomarenses. Médios e avançados constituiam um bloco em constante movimento, um bloco em que uns e outros se interpenetravam, se ajudavam e completavam reciprocamente, a pontos de, muitas vezes, ser impossível dizer quem seria o médio e quem o avançado.

Na verdade a equipa do Belenenses parece já ter atingido esse grau de mecanização perfeita, que, noutras equipas, só ao cabo de vários anos de actividade em comum, os jogadores alcançam. Bola recebida, bola passada, jogador para receber e tornar e passá-la, sem que se quebre o fio à meada. Com ritmo vivo, com variantes sucessivas, com mudanças de velocidade inesperadas. Uma máquina, mas uma máquina que pensa, que inventa, que se recreia e entusiasma com aquilo que lhe sai do pensamento e dos pés. Nada que se pareça com o frio automatismo das máquinas de aço. Esta máquina do Belenenses tem sangue nas veias, massa cinzenta na cabeça, nervos por todo o corpo. Sabe, quer e pode.

Foi deveras fantástica a forma como a equipa lisboeta conseguiu, mesmo quando o União tentou tudo (incluindo, aqui ou acolá, um lance mais duro, de intimidação pura) abrir os espaços vazios necessários à sua progressão para as balizas. Uma finta, um passe, um centro, um cruzamento, quando menos se esperava ou para o sítio que menos se supunha, e eis que o caminho surgia, limpo e amplo, com um jogador belenense (ora este, ora aquele) a correr por ele em direcção ao alvo. Prodígios de varinha de Moisés abrindo passagem pelas águas do Mar Vermelho – passe mais esta hipérbole, com licença do leitor mais prosaico, a quem as imagens possam causar enfado.

O ataque do Belenenses não «está lá»; «aparece lá»… nos momentos precisos. Como? À força de mudanças de velocidade, de talento, de engenho inventivo, de conjugação de ideias e movimentos. Será esse um dos seus segredos?

Na tarde de ontem, pelo menos, foi. E, depois da bela lição de humildade com que principiou a partida – uma partida em que muitos receavam que os nabantinos cortassem as asas aos «pássaros azuis» – o Belenenses terminou a sua esplêndida exibição em Tomar, com uma lição magistral de futebol. O resultado (o melhor de quantos qualquer equipa obteve neste Campeonato, em campo adversário) sugere muito, mas não diz tudo. É preciso ver jogar o Belenenses como jogou ontem, para acreditar que, em tão pouco tempo, o «milagre de Scopelli» atingisse tais proporções.

Quem distinguir?

Habitualmente, este capítulo final das crónicas é destinado a pôr em evidência os nomes e os méritos dos jogadores que mais se distinguiram.

Relativamente ao Belenenses, temos um problema: não sabemos por quem optar.

Por Mourinho, que, sem ter sido muito posto à prova, não cometeu um único erro, nem deu uma única oportunidade a qualquer adversário?

Por Murça, que foi defesa, médio, extremo, «ponta-de-lança», segundo o favor do momento e da inspiração e fez alarde de uma técnica que muitos médios e avançados cobiçariam?

Por Calado, senhor incontestável da zona fronteira às suas balizas, tão firme a defender como exímio a transformar em começo de ataque quase todas as jogadas que lhe morriam nos pés?

Por Freitas, pletórico de energia e de entusiasmo, de eficiência e de abnegação?

Por Pietra, que como a própria equipa, denota progressos em cada jogo, a pontos de já poder ombrear com os «grandes» do seu lugar?

Por Quinito, um mouro de trabalho e de talento estratégico, tal como Quaresma e Ernesto, este último (espantoso!) a executar tão bem como os melhores executantes da sua equipa?

Por Gonzalez, com o seu portentoso segundo golo e uma mão cheia de jogadas dignas de figurar numa antologia dos artistas de futebol?

Por Laurindo, que, depois de um começo apagado e triste, se ergueu até à altura do Laurindo dos grandes dias?

Por Luís Carlos, a abrir caminho aos colegas, à custa do seu denodo, da sua aplicação, do seu dinamismo – e a marcar ele próprio, dois excelentes golos?

O mesmo problema se nos depara, em relação ao União de Tomar, mas por razões diferentes. Quem deveremos distinguir?

No bem, poucos, talvez nenhum. No mal… Não falemos em coisas tristes. O União de Tomar está a despertar de um sonho. É tempo de encarar de frente à realidade. Toca a descer das nuvens, a arregaçar as mangas…

Com alguns erros de somenos, a arbitragem de Ismael Baltasar situou-se em plano razoável. Compreendemos perfeitamente o rigor de que, em determinada altura da primeira parte, usou. O jogo estava a «aquecer» demasiado. Era preciso «salvá-lo». Bastaram dois «cartões amarelos» (a Fernando e Ernesto) na altura própria.»

(“A Bola”, 22.01.1973 – Crónica de Alfredo Farinha)



(Imagens – “A Bola”, 22.01.1973)