“…A MINHA VINGANÇA SERÁ TERRÍVEL!”

Estádio Municipal de Tomar

Árbitro – Jaime Loureiro, do Porto

U. TOMAR – Nascimento (1); Kiki (2), João Carlos (2), Faustino (2) (45m – Pedro (2)) e Fernandes (1); Cardoso (2); Manuel José (2), Pavão (1) e Fernando (2); Camolas (2) (76m – Bolota (1)) e Raul Águas (2)

CUF – Conhé (2); José António (2), Castro (2), Américo (1) e Vieira (2); Arnaldo (2), Vitor Pereira (2) e Vitor Gomes (2); Manuel Fernandes (2), Monteiro (1) e Juvenal (1)

1-0 – Raul Águas – 58m
1-1 – Manuel Fernandes – 68m


«Substituições: Após o intervalo, Pedro (2) rendeu Faustino, recuando Cardoso para o posto deste. A catorze minutos do fim, Bolota (1) substituiu Camolas.

Ao intervalo: 0-0.

Aos 13 minutos, 1-0. Fora da área, Camolas tocou para Águas, que rematou em desequilíbrio. A bola embateu em Américo e traiu Conhé.

Dez minutos depois, a igualdade. José António marcou um livre sobre a linha de meio-campo, descaído sobre a direita, com um pontapé por alto a fazer a bola cair na área do União. Arnaldo saltou e cabeceou. Nascimento defendeu em dificuldade para a sua frente e Manuel Fernandes estabeleceu a igualdade com uma recarga espectacular a fazer a bola entrar pelo ar, junto ao ângulo direito.

Resultado: 1-1.

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– Mas é assim só com dois lá na frente que «eles» querem ganhar o jogo?

E o adepto do União estava mesmo descoroçoado no intervalo do jogo. Porque «não havia direito», com tácticas daquelas nem ao Cascalheira se ganhava…

E o União não ganhou o jogo, porque ganhou um ponto. O seu segundo ponto em quatro desafios. Contra quatro equipas manifestamente superiores: Belenenses, Setúbal, Porto e CUF. (Com mais os dois pontos da primeira volta contra o Setúbal, foi um total de quatro pontos – e quem pode ufanar-se de ter somado quatro pontos nos jogos contra estes quatro adversários, que até  parecem ter muitas hipóteses de se classificarem nos seis primeiros lugares).

Mas o adepto não pensou nisso. Nem pensou que o Tomar será das raras equipas deste campeonato que vai chegar ao fim sem ter perdido contra o Setúbal. O adepto só pensou que o Tomar precisava de ganhar o jogo. E, na verdade, precisava mesmo.

Táctica realista

Pelo menos neste jogo – e esta crónica é a crónica deste jogo – o treinador Medeiros revelou-se um técnico realista e perfeitamente consciente daquilo que este jogo lhe poderia trazer. Por isso, nada de «loucuras». Quatro no meio-campo e só dois lá à frente. Claro que era «fácil» pôr três lá à frente, ou mesmo quatro. Mas, depois, quem é que travava o «miolo» da CUF. Se mesmo assim, com quatro, foi aquilo que se viu…

O Tomar começou, assim, o jogo com muitas cautelas. Um meio-campo muito elástico em que, sempre que possível, Pavão fugia para a extrema-direita e Fernando para a extrema-esquerda, mas só quando a equipa tinha a bola em seu poder. Porque, quando era a CUF que vinha para o ataque, os quatro do «miolo» eram poucos para fazer frente àquele Vitor Pereira, verdadeiramente endiabrado – que bem jogou ele, tão depressa a defender como, logo depois, aparecia lá à frente como o mais perigoso a catapultar Manuel Fernandes e Monteiro para a frente -, àquele Arnaldo, excelente sobre a direita, a criar espaços na defesa de Tomar e a criar dificuldades a um Fernando, por de mais desinspirado, àquele Vitor Gomes, que fez, ontem, o melhor jogo que lhe vimos por esta CUF, rapidíssimo e perigosíssimo a meter-se pela esquerda e a levar bolas à linha de cabeceira e, ainda, àquele Manuel Fernandes, que, quando via o caso mal parado, também ele recuava a dar uma «ajudinha»?

Foi neste dilema que se debateu Medeiros? Jogar pelo seguro, aguentando o pontinho que já tinha a seu favor, assim que a equipa subiu ao campo, e tentar depois, sempre que possível, uma ou outra incursão, a ver se «pegava» e aparecia um golito, ou então desfazer tudo aquilo e atirar-se «de cabeça» para a frente, «de qualquer maneira», como os adeptos da equipa exigiam.

Medeiros optou pela primeira solução – e, quanto a nós, bem. Porque, assim, ganhou um ponto. E se não fizesse assim – o espectro das «goleadas» contra o Belenenses e contra o F. C. Porto ainda pairava por ali…

Duas equipas calculistas

Viu-se, assim, o Tomar a fazer uma excelente exibição. Fria, bem esquematizada, com toda a gente a saber exactamente o que estava a fazer lá dentro no terreno. Sem «fúrias», sem futebol desordenado, sem pontapés para a frente, para cima da baliza, como os adeptos pediam, momento a momento.

Entretanto, do lado de lá, via-se uma CUF também calculista. Muito calculista, mesmo, apesar de a CUF poder arriscar (e o Tomar em posição desesperada não pode arriscar nada, porque mais um passo em falso…

Mas a CUF também não quis arriscar. «4-3-3», quando era a CUF que tinha a bola, e «1-3-3-3», quando era o Tomar a atacar, com Castro a recuar para «libero» e Vitor Pereira a substituir, então, Castro e a encarregar-se ele da marcação a Camolas, enquanto Américo marcava Águas (como o fazia sempre durante todo o jogo). Depois, lá mais para a frente, o «1-3-3-3» tornava-se, às vezes, em «1-3-3-3» sempre que os tomarenses apertavam mais – e, na primeira parte, houve diversas fases assim, com o Tomar a «carregar» mais e a CUF a defender-se, a defender-se.

Aos cinco minutos, um grande «tiro» de longe por Manuel José e uma grande defesa de Conhé. Depois um remate, de cabeça, de Vieira ao poste. De resto, muita luta, muita luta, no «miolo», com esterilidade quase total de parte a parte, com as defesas em vantagem, a superiorizarem-se nitidamente aos ataques adversários.

Pensava-se que, na segunda parte, o Tomar pudesse alterar a sua forma de jogar e arriscasse um pouco mais, aparecendo, então, mais na frente, ainda que desguarnecesse, assim, a sua defesa. Deveria ser isso, aliás, que os cufistas esperariam. Mas não. Apenas uma alteração. Cardoso, que era o centro-campista mais defensivo, recuou mesmo para a defesa e Medeiros fez entrar um centro-campista mais de ataque, como é Pedro. A alteração foi, aliás, muito bem vista, porque, abstendo-se, conseguiu dar-lhe assim uma dinâmica mais atacante.

Ainda que, com essa dinâmica, o que se viu, no entanto, foi um cariz semelhante à primeira parte, com as equipas a comportarem-se como «boxeurs» que andam, ali pelo meio do ringue, a tocar as luvas, mas com nenhum deles a arriscar em desguarnecer a sua defesa para tentar levar o adversário às cordas.

Assim, tudo continuou na mesma, até que a dinâmica um tudo nada mais ofensiva dos tomarenses lhes valeu um golo – o golo que pareceu vir dar razão a Medeiros e que avalizou afinal a sua táctica.

A «vingança» de dez… minutos

Mas não. A razão maior de Medeiros viria a seguir. Com aquela reacção espectacular da CUF e com a forma como o Tomar teve, então, que se haver frente a essa escalada dos barreirenses.

Porque a «vingança» foi terrível. A perder por 1-0, acabaram-se os «liberos». Acabaram-se os recuos de Manuel Fernandes. E Arnaldo foi outro. Muito mais rápido. Muito mais incisivo, sem andar, ali, pelo «miolo» a entreter a bola e aparecendo, agora, fulgurantemente, no ataque.

Então, a CUF fez o Tomar «cheirar» a bola, como se compreende se se atentar no (muito) maior fundo futebolístico dos cufistas. Kiki salvou sobre o risco. João Carlos teve de defender com as mãos dentro da área, mas o árbitro, incrivelmente, não assinalou o «penalty» respectivo. Manuel Fernandes estabeleceu a igualdade.

Foi uma escalada impressionante. Mas, depois do 1-1, de novo a CUF voltou ao que tinha sido até aí. De novo com Vitor Pereira a ser «libero», quando o Tomar atacava. De novo com Manuel Fernandes a recuar para o «miolo». De novo com Arnaldo preocupado em subtrair a bola à posse dos adversários, em vez de se preocupar ele em jogá-la.

E assim se chegaria ao fim com o 1-1. Afinal, o empate que parecia ter sido acordado tacitamente entre os jogadores, entre os treinadores.

Por que não dez minutos «vezes» nove?

Da equipa da CUF diga-se que fez pena ao espectador neutro que não se tivesse batido durante os noventa minutos tal como o fez naqueles dez minutos diabólicos em que levou tudo à sua frente até chegar ao empate. Ficou em toda a gente a sensação de que, se os cufistas tivessem entrado a jogar assim, talvez não tivessem ficado muito atrás de belenenses ou portistas… No entanto, a CUF «só queria» o empate. E foi pena.

Conhé esteve muito bem. Fez uma defesa aparatosa logo ao princípio e continuou sempre bem. A defesa esteve também sempre bem, com realce para os laterais, que se adiantaram espectacularmente naqueles dez minutos da «vingança terrível». Vieira teve uma bola ao poste e José António foi perigosíssimo. Castro esteve melhor a «libero» do que a marcar Camolas e Américo teve culpas no golo dos tomarenses.

Vitor Pereira foi excepcional, quer a defender quer a atacar. Mas depois do 1-1, caiu notoriamente. Vitor Gomes foi perigosíssimo a ir até à linha – e foi o único que tentou a penetração por aí. Manuel Fernandes marcou um belo golo e apesar de ter que recuar para o «miolo» foi, mesmo assim, mais perigoso do que Juvenal e Monteiro, que estiveram sempre lá na frente – mas estiveram mal, desapoiados e incapazes de  procurar as soluções necessárias para se ir além do empate. De Arnaldo já se falou – dos oitenta minutos para «entreter» e dos dez minutos para jogar mesmo a sério, como ele sabe e de que maneira!…

Não esquecer as lições do «passado»

O Tomar, inicialmente criticado pelas cautelas de que deu mostras, veio depois a confirmar plenamente a sua táctica. Porque, se os tomarenses não estivessem a jogar assim, como poderiam reagir a uma «escalada» no estilo daquela que a CUF fez naqueles dez minutos? Medeiros mostrou – e muito bem, pelo que está de parabéns – que não esqueceu a  lição-Belém e a lição-Porto.

Nascimento esteve bem – excepto no golo em que não socou para o lado, como devia. João Carlos esteve muito bem – excepto no lance do «penalty», que cometeu, mas que o árbitro não quis ver. Fernandes foi o mais fraco da retaguarda. Cardoso esteve bem, quer no «miolo», quer (depois) na defesa. Manuel José excepcional na primeira parte. Pedro muito bem a lançar a equipa para a frente – mas não se viu naqueles dez minutos diabólicos. E, numa equipa como o Tomar, não pode haver centro-campistas do estilo «exclusivista», que só atacam…

Fernando esteve melhor no «miolo» do que como o temos visto lá na frente, noutros jogos. Pavão foi o mais discreto de todos, mas lá na frente, Camolas e Águas, apesar de, muitas vezes sozinhos contra três e contra quatro, deram muito que fazer aos cufistas. Bolota não trouxe qualquer melhoria à equipa.

Fita métrica

Do árbitro diga-se que errou muito. Demasiado. Depois do 1-0, descontrolou-se nitidamente e somou erros sobre erros, «estragando» o que fizera até então. Negou um «penalty» nítido aos cufistas. Se aquilo não é «penalty», então não há mais «penalties». Pessimamente auxiliado pelo «liner» do lado da bancada, marcou «off-sides» que não existiram e deixou passar deslocações escandalosas. Os «livres» foram marcados sistematicamente, com barreiras, pelo menos, dois metros mais perto da bola do que a lei permite. De futuro, talvez seja de aconselhar uma fita métrica…

Mostrou o cartão amarelo ao «capitão» do Tomar, quando este protestou (com razão) contra uma «falta» marcada ao contrário. E fez o mesmo a Águas, quando este protestou também com razão. Claro que os defensores dos árbitros quando estes têm e não têm razão poderão dizer que os jogadores estão lá é para jogar e não para protestar, que o árbitro é o único juiz, etc., mas  tudo tem limites – não será Jaime Loureiro?»

(“A Bola”, 26.02.1973 – Crónica de Jorge Schnitzer)


(Imagem – “A Bola”, 26.02.1973)