“SÓ FALTOU FUTEBOL – SOBEJARAM EMOÇÃO E GOLOS”

Campo «Luís de Almeida Fidalgo», no Montijo

Árbitro – Manuel Fortunato, de Évora

MONTIJO – Martins (2); Celestino (1), Moreira (1), Carolino (2) e Simplício (1); Raul Vitor (3), Espírito Santo, «cap.» (2) e Rachão (3) (55m – Louceiro (1)); Francisco Mário (2), Gijo (3) e Rangel (1)

U. TOMAR – Nascimento (1); Kiki (1), Cardoso, «cap.» (3), Faustino (2) e Fernandes (1); Raul (1), Manuel José (3) e Pavão (3); Camolas (1) (64m – Caetano (1)), Raul Águas (1) e Bolota (1)

1-0 – Gijo – 1m
2-0 – Celestino (pen.) – 4m
2-1 – Pavão – 14m
3-1 – Gijo – 25m
3-2 – Bolota – 76m

«Substituições – (Todas na segunda parte), no Montijo: aos 10 minutos, Louceiro (1) substituiu Rachão. No U. Tomar, aos 19 minutos, Camolas cedeu o lugar a Caetano (1).

1.º tempo: 3-1.

No primeiro minuto, com a grande maioria dos jogadores sem terem tocado ainda na bola, Francisco Mário, centrando, sobre a linha de cabeceira, coloca a bola em Gijo, que, de cabeça, marca o primeiro golo.

Aos quatro minutos, quando tentava meter-se pela defesa nabantina, embora nos parecesse ter anteriormente, tocado na bola com a mão, Raul Vitor foi rasteirado, aliás, sem necessidade, por Kiki. Marcado o respectivo «penalty» Celestino atirou sem hipóteses para Nascimento, fazendo 2-0.

2-1, aos catorze minutos. Também incompreensivelmente, numa disputa de bola alta, Moreira agarrou Bolota. O árbitro, no entanto, optou pela marcação de um «livre» indirecto, sobre a marca da grande penalidade, quando devia ter optado pelo «penalty».

Executado o livre, com um poderoso remate de Manuel José, estabeleceu-se grande confusão na barreira, até que surgiu Pavão, com muita oportunidade, a dar à bola a direcção indicada para bater Martins e todos os companheiros que procuravam cobrir a baliza.

Mas, aos vinte e cinco minutos, Gijo, à saída de um drible, simulando um passe, atirou, a cerca de vinte e cinco metros, batendo de forma imparável Nascimento, que, embora se lançasse bem ao ângulo inferior da baliza, não conseguiu evitar o êxito do poderoso remate do brasileiro.

2.º tempo: 0-1.

Aos trinta e um minutos, Bolota, rematando uma bola saída de um «corner», muito bem marcado por Pavão, atirou de cabeça para a baliza, já com José Martins batido no cruzamento. Celestino, sobre a linha, ainda tentou entrar que a bola entrasse, mas de cabeça, limitou-se a confirmar o golo, atirando contra a rede lateral.

Resultado final: 3-2.

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Se eram grandes as preocupações de os nabantinos quanto à sua sorte no jogo de ontem, não eram menores as dos seus adversários, ainda que a diferença entre ambas as equipas, se cifrasse em seis pontos de vantagem dos visitados.

Mas nem por isso, embora estivessem já livres da despromoção automática, os montijenses entraram no rectângulo com aquela descontracção que se impõe para a solução de problemas complexos, porquanto o espectro da «Liguilla», inversamente ao que há tempo tudo fazia pressupor, voltou a aparecer a todos os desportistas do Montijo que, não obstante, a sua equipa ter somado mais dois pontos, ainda não se poderão considerar absolutamente livres de maiores preocupações. A «Liguilla», como logo no início da prova o dissemos, só não poderá apoquentar as equipas que, no final da prova, tenham pelo menos vinte e seis pontos.

Ora a essa pontuação são muitas as equipas que ainda lá não chegaram… e até talvez acabem por não chegar.

Consequentemente, essa descontracção tão necessária em jogos de tanta transcendência para a vida dos clubes não acompanhou ontem as duas equipas. Bem pelo contrário. Era notório o estado nervoso em que se encontravam alguns elementos que, certamente, ao sairem das cabinas para iniciarem a partida, já o terão feito mais cansados que o desgaste físico do jogo lhes viria a ocasionar. Mas houve diferença, bem visível também, na forma como ambas as equipas iniciaram o jogo. A pressão nervosa, para os montijenses, valeu-lhes como «doping», reforçado com um golo logo no primeiro minuto.

Ao invés do que se verificou com os seus adversários que ao saltarem ao rectângulo, não escamoteavam quanto os atormentava o perigo de verem, no térreo rectângulo do Montijo, o dissipar-se muitas das esperanças com que iniciaram este «Nacional». E esse golo relâmpago, causou tanta mossa no espírito da equipa, que a oferta do «penalty» com que Kiki obsequiou os vencedores, não foi mais do que produto da descrença que se abeirou de todos os nabantinos. Aos quatro minutos de jogo, quem tanto precisava de os marcar, receber dois golos, viu-se demasiado atrasado para poder operar qualquer recuperação, sobretudo porque os seus adversários, durante bons momentos andaram pelo campo, já livres de receios, a impor o seu melhor futebol, sem contudo o nível ter atingido grandes proporções.

Passou, de facto, a existir maior confiança nos montijenses e, como consequência disso, até o que lhes saía mal em passes extraviados, terminava por lhes oferecer «chances», dado o descontrolo da defesa nabantina que, acumulando erros sobre erros, ia admitindo todas as suas sortes aos seus opositores para a obtenção de mais golos, antes de se chegar ao intervalo.

Sucedeu porém que, com a obtenção do seu primeiro golo, os nabantinos reagiram, e bem, passando, desde logo, o futebol montijense a ter menos clarividência. Valeu para que, ao intervalo, o resultado da partida não tivesse menor expressão, que Gijo, inesperadamente obtivesse, com extraordinária classe, o terceiro golo.

Essa jogada, no entanto, certificado da ingenuidade da defesa visitante, teve o condão de espevitar, novamente, o entusiasmo dos visitados, na mesma medida que voltou a dar um esticão no moral de os nabantinos, dando a sensação de que lhes tinha tirado o que lhes restava de força anímica.

Os últimos vinte minutos que precederam o intervalo, efectivamente, serviram para se constatar quão valiosa era a acção de Raul Vitor, Espírito Santo, Rachão, Gijo e Francisco Mário, num despique sempre favorável com Manuel José e Pavão, onde Cardoso também queria competir de igual para igual com os seus adversários embora sem possibilidades de êxito, por carência de laterais com estofo para o coadjuvarem nos momentos de perigo para Nascimento.

Deste despique, consequentemente, com a bola mais afagada pelos montijenses, nasceu a melhor factura de futebol que, até ao intervalo, se observou. E se melhor não resultou foi precisamente por nos sectores recuados, tal como no dos seus adversários, ter havido mais preocupação de destruir (mal) do que construir (bem) a favor do jogo ofensivo da equipa.

Reacção notável

Se é certo a tarde estar muito quente, de sofrer com a canícula, estranhamos a disposição com que ambas as equipas reiniciaram o jogo, absolutamente oposta ao que haviam apresentado no início do jogo.

Os locais, talvez crendo em maiores facilidades do que aquelas com que haviam contado no primeiro período do jogo deram-nos a ideia de considerarem o jogo arrumado, no que se referia a resultado. Seria questão de mais golo menos golo, terão pensado os montijenses.

O quarto golo, que nunca apareceu, embora houvesse estado à vista logo numa das primeiras jogadas, quando Gijo obrigou Nascimento a meter o corpo à bola, sem contudo a segurar, e Rangel, sem ângulo para remate, não deixou seguir a bola para Espírito Santo aumentar o «score». Essa perda, que viria a modificar a fisionomia da partida, poderia ter tido piores consequências, pois a equipa nabantina já havia começado a actuar com outro estado de espírito bem diferente daquela com que havia iniciado a partida. Perdido por dois, perdido por quatro e dentro desta ideia, com Manuel José a jogar solto, a pressão nabantina aumentou grandemente sobre a defesa adversária. Para fortificar ainda mais a determinação de os visitantes, Rachão, que até então estava em todas as zonas do meio-campo onde se pedia luta de corpo-a-corpo para desarme vitorioso, foi rendido. Daí resultou melhoria acentuada para os visitantes e desequilíbrio notório nos montijenses.

Como consequência dessa melhor toada dos nabantinos, com Manuel José e Pavão a saírem do meio campo contra a defesa da casa, onde só Carolino se revelava certo e calmo nas decisões, passou a estar à vista o segundo golo nabantino. Portanto quando ele apareceu, como corolário da sua extraordinária reacção, tornou-se mais visível a hipótese do empate que aumento da margem de vitória da equipa local.

O último quarto de hora, com os visitantes em nítida vantagem no futebol jogado, contra uma defesa que não merecia nenhuma confiança, tornou-se emocionante, de tal modo que teria sido de aconselhar os cardíacos a abandonarem o campo.

A equipa montijense, então imbuída das maiores preocupações e cautelas, acabou por se descontrolar, de tal modo que a surgir o empate, disso seria ela única e exclusivamente responsável.

E foi com José Martins já contagiado pelos erros da sua cobertura, que tudo de bom que a sua equipa tinha apresentado durante o primeiro tempo, se ia desmoronando. Também com muito mérito da equipa nabantina – diga-se – de tal  modo que quando o árbitro deu o jogo por terminado, tanto os elementos da equipa como os seus adeptos respiraram fundo. E não foi caso para menos, embora houvesse triunfado a equipa que, no cômputo geral, se revelou mais incisiva e melhor estruturada, sobretudo no primeiro tempo.

Corpo pequeno e alma grande

Já dissemos em devido tempo, ter o Montijo um dos melhores brasileiros que militam no futebol nacional: Gijo. Ainda ontem o magnífico «lança» não só por ter marcado dois golos, confirmou tudo o que pensávamos dele, quando tivemos ensejo de o ver pela primeira vez.

Ontem, pois, voltou a impressionar-nos. Teve pormenores de execução de elevado nível, do mesmo modo que se revelou, novamente, o chutador de eleição.

Mas o elemento que mais nos impressionou na equipa que o Montijo apresentou ontem, foi o franzino Raul Vitor. Pode dizer-se que a sua genica e intuição para o jogo, mais a experiência do pendular Espírito Santo, foi a grande base deste difícil triunfo da sua equipa.

Além disso, Francisco Mário, Rachão e Carolino também estiveram muito bem numa equipa que como tantas outras, começa a sentir os efeitos de uma prova longa e sem substitutos à altura.

Sempre o mesmo

Lástima que Manuel José, como ontem mais uma vez ficou exuberantemente demonstrado, não tenha mais três ou quatro elementos do seu nível dentro da equipa. Voltou a ter, frente ao Montijo, aquela preponderância que lhe é habitual no rendimento da equipa.

Pode dizer-se, sem que isso constitua exagero, que esta equipa do União de Tomar joga e rende sempre de harmonia com o que produz o seu magnífico centro-campista.

Ontem, como muitas vezes tem sucedido, só teve em Pavão e, por vezes, Águas, quem o compreendesse na frente onde fez tudo quanto possível ao seu alcance para modificar o curso do jogo e do resultado.

Na defesa Cardoso, foi o elemento de toada mais uniforme durante toda a partida, resolvendo os seus problemas e também muitos mais de alguns companheiros.

Arbitragem razoável

Manuel Fortunato, não tendo uma grande actuação, teve o condão de não ter influência no resultado. Acreditamos que não tenha visto Raul Vitor conduzir a bola com a mão na jogada que precedeu o «penalty».»

(“A Bola”, 14.05.1973 – Crónica de Severiano Correia)