“TRÊS GOLOS DE MOINHOS «ARRUMARAM» OS NABANTINOS”

Estádio do Bessa, no Porto

Árbitro – Ismael Baltasar, de Setúbal

BOAVISTA – Vitor Cabral (2); Bernardo da Velha (1), Mário João (2), Barbosa (2) e Lobo (3); Branco (3), Taí (3) e Acácio (3); Moinhos (3), Moura, «capitão» (1) e Salvador (2)

U. TOMAR – Nascimento (2); Faustino (2); Kiki (1), Cardoso (1), Raul (1) (45m – Bolota (2)) e Fernandes (1); Pavão (2), Raul Águas (2) e Manuel José, «capitão» (1); Camolas (1) e José do Carmo (1) (62m – Caetano (1))

1-0 – Moinhos – 27m
2-0 – Moinhos – 33m
2-1 – Bolota – 52m
3-1 – Moinhos – 68m


«Substituições: duas apenas, ambas efectuadas pelo União de Tomar e ambas no segundo tempo. A primeira, quando a equipa regressou da cabina, saindo Raul e entrando Bolota (2), a segunda aos 17 minutos, saindo José do Carmo e entrando Caetano (1).

Resultado do primeiro tempo: 2-0.

1-0 aos 27 minutos, por Moinhos. Golo bem preparado, com a bola a correr de Moinhos para Acácio e deste para Salvador. Salvador embrulhou-se com [o] esférico, mas acabou por o empurrar para a baliza. Acorreu um defensor, mas Moinhos mais lesto, foi quem veio a empurrar a bola para o golo.

2-0 aos 33 minutos, por Moinhos. Moinhos foi lançado que correu com a bola, flectiu para dentro, passando por entre dois defesas e quando Nascimento se adiantou, com um toque suave, bateu o guardião contrário.

Resultado do segundo tempo: 1-1.

2-1 aos 7 minutos, por Bolota. Pavão, depois de ser lançado, efectuou um centro do lado direito. Camolas, na passada, tocou o esférico para Bolota e este, com um toque ligeiro, alcançou o tento.

3-1 aos 23 minutos, novamente por Moinhos. Branco recebeu o esférico de Acácio e lançou Moinhos, o qual, isolado pelo passe do companheiro, rematou forte, da direita para a esquerda, obtendo o seu terceiro golo e fixando o resultado da partida.

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Em situação delicada na tabela da classificação, a equipa do União de Tomar tingiu de cautelas o começo da partida que ontem disputou, contra o Boavista, no Estádio do Bessa. Com Faustino jogando liberto de marcação a qualquer adversário, entre Nascimento e quatro defesas, e Raul Águas no miolo do campo, para se meter entre Camolas e João do Carmo, os dois jogando junto das linhas laterais, bem abertos, a clara intenção do processo nabantino era a de impedir o golo adversário, procurando chegar a ele em contra-ataques rápidos. O caso, porém, é que o «onze» forasteiro não passou da intenção, sem embargo de chegar quase à meia-hora com o resultado inicial, a despeito do domínio territorial «axadrezado», de antemão oferecido pelo antagonista, que fechara, todavia, todos os caminhos que poderiam levar até à baliza de Nascimento.

Na equipa da casa, Acácio foi então quem mais lutou para vencer a tenacidade defensiva dos visitantes, adiantando-se pelo seu corredor ou metendo-se para dentro, mas toda a sua lúcida actuação acabou por fracassar antes do remate final ou já neste, transviado em demasia.

Com o Boavista ao ataque, não surgiram, também, ensejos para o contra ataque adversário, lento em demasia a passar das suas cautelas defensivas para um contra-ataque que, sem rapidez, não lograva fazer oscilar a defensiva local onde o poder atlético de Mário João e de Barbosa ganhava os lances sem dificuldade.

Durante mais de vinte minutos, o futebol praticado foi pobre, sem emoção e sem beleza, pese embora toda a acção de Acácio, vivo e azougado, pisando bem o terreno, reagindo francamente ao ataque.

De repente, porém, o Boavista carregou no acelerador e deu cabo da sistematizada e reforçada defesa de Tomar. Aos golpes de Acácio juntou-se a velocidade de Moinhos e a isso ainda se somou a boa visão dos lances por parte de Branco, que sabe de sobra como enfunar as velas de Moinhos, pondo-lhe a bola a correr na sua frente.

Moinhos iniciou o lance do primeiro golo, que depois de ter estado à vista parecia já impossível. Mas a sua velocidade de pernas permitiu-lhe ir ainda aproveitar o lance e marcar o tento.

Subiu claramente o Boavista, mais rápido, mais versátil e de muito maior imaginação. Acácio perdeu o segundo golo, concluindo com um remate ao lado uma jogada toda ela feita ao primeiro toque. Mas o novo tento tardou pouco. Branco lançou Moinhos e este, em corrida e com a bola controlada, na sua jogada típica, passou por dentro do central que o marcava e por fora o companheiro que dobrava o defesa batido, culminando o seu vertiginoso «slalon» com um toque pleno de subtileza, quando Nascimento se adiantava desesperadamente para a tentativa de defesa, que não resultou.

Ainda houve outro lance de golo, quando um corte de Barbosa levou o esférico a Salvador. O cruzamento deste levou a bola a Moinhos, que passou Nascimento, de novo a adiantar-se, tocando o esférico para dentro mas de forma a bater na base do poste mais próximo, precisamente ao lado de fora.

Embora adiados, os golos do Boavista acabaram por aparecer, não surgindo, porém, qualquer contra-ataque perigoso do União de Tomar, que o conduzisse ao golo ou pelo menos a situação de apuro para a baliza de Vitor Cabral.

Daí que os forasteiros regressassem para o segundo tempo com outro sistema, assente em menos cautelas defensivas e visando já um maior poder atacante. A saída de Raul levou Faustino para o grupo dos quatro defesas e a entrada de Bolota deu outra dimensão ao ataque, acompanhada também pelo avanço de Pavão no lado direito.

Daqui resultou um despique mais amplo, já a todo o comprimento do terreno e não só em metade do campo, como sucedera inicialmente. E como o «onze» visitante cedo chegou ao golo, aliás em lance bem esquematizado, com solicitação ao extremo, centro recuado deste e toque de Camolas para a frente, apanhando a defesa nos dois golpes, sempre em contra-pé, a partida ganhou outro interesse.

Todavia, a superioridade do Boavista não chegou sequer a ser posta em dúvida, a despeito deste perder, de imediato, dois golos. No primeiro lance, a bola foi a Branco e o centro, com o esférico rente à relva, chegou a Moura, o qual, a dois metros da baliza, e com o pé de dentro acabou por levantar excessivamente o esférico. No segundo, perdeu-se o que era capaz de ter sido o mais espectacular dos golos do encontro. Acácio, com Moinhos a internar-se a solicitar o passe, pôs-lhe a bola a correr à frente. Passado o defesa, na corrida, e driblando Nascimento, que se adiantara, o remate de Moinhos veio a sair ao ladinho do poste, com a baliza desguarnecida.

O terceiro golo apareceu mais tarde, aliás com naturalidade. Branco «viu» outra vez o lance mais aconselhável e pôs o esférico em Moinhos, isolando-o na área. Desta feita, Moinhos não perdoou e fez o seu terceiro golo.

O vencedor estava achado, aliás com todo o mérito. A solidez defensiva, assente na autoridade de Mário João e Barbosa, começara por justificar mais merecido e mais meritório ainda em função de toda a tarefa catalizadora de Branco, Taí e Acácio, um meio-campo hábil, talentoso, sempre em movimento, que se fartou de empurrar o ataque, onde Moura andou um pouco perdido e Salvador não conseguiu atingir o nível habitual. Moinhos, porém, marcou por todos, ainda que tivesse a ficado a dever golos a si próprio.

É certo que, à entrada do quarto de hora final, na sequência de um desentendimento da defesa contrária, Bolota acabou por ficar só diante da baliza, apenas com Vitor Cabral na sua frente. O remate fez subir por demais o esférico e a hipótese dos 3-2, claríssima, veio a perder-se, perdendo-se também, por certo, um final mais emotivo. Mas nos nabantinos, sem força de ânimo para superar as contrariedades, vencidos já por toda uma série de maus resultados anteriores, a que se juntava em definitivo a derrota evidentemente, ficou ainda a coragem para lutar, lutar sempre, com afinco e determinação mas sem a convicção que resultaria de uma situação mais tranquila na tabela da classificação.

Não houve outra hipótese de golo, com o Boavista a actuar já em jeito de tranquilidade e o adversário a lutar «à pressão», aplicado mas sem serenidade e também sem forças.

Assentou a acção mais certa dos vencedores no meio-campo, através do qual Mário João e Barbosa foram quase impecáveis, e à frente dos quais Moinhos foi simplesmente demolidor.

Nos vencidos, a acção de Pavão e Bolota esteve na base dos melhores lances ofensivos do segundo tempo, que foi o período em que Tomar atacou de facto.

Certa e facilitada pela correcção da luta, a arbitragem de Ismael Baltasar, que não teve qualquer problema durante toda a partida.»

(“A Bola”, 04.06.1973 – Crónica de Álvaro Braga)


(Imagem – “A Bola”, 04.06.1973)