“PROGRESSO EM LIBERDADE – ESTRATÉGIA DOS ÚLTIMOS”

Estádio Municipal de Tomar

Árbitro – Melo Acúrsio, do Porto

U. TOMAR – Nascimento (2); Kiki (1), Cardoso (2), Faustino (2) e Fernandes (2); Raul (2); Manuel José (3) e Fernando (3); Raul Águas (3), Bolota (3) e Pavão (3)

BEIRA-MAR – Domingos (0); Ramalho (0) (45m – Cléo (0)) (53m – Bragança (1)), Inguila (0), Soares (0) e Severino (0); Colorado (1), Marques (0) e Almeida (1); Adé (1), Edson (1) e Alemão (1)

1-0 – Pavão – 7m
2-0 – Fernando – 21m
3-0 – Raul Águas – 48m
3-1 – Alemão – 51m
4-1 – Fernando – 70m
5-1 – Raul Águas – 73m
6-1 – Pavão – 79m
7-1 – Raul Águas – 84m
8-1 – Bolota – 90m


«Substituições – Duas, e ambas na equipa de Aveiro; ao intervalo Ramalho cedeu o seu lugar a Cléo (0) o qual, lesionado ao[s] 53 m, acabou por sair, sendo então substituído por Bragança (1).

Resultado ao intervalo: 2-0.

1-0 aos 7 m: passe de Manuel José para Pavão que, à entrada da área, disparou forte batendo Domingos.

2-0 aos 21 m: Raul Águas fez chegar a bola a Fernando que a recebeu parado, e parado arranca forte pontapé, mesmo de fora da área, que leva a bola a anichar-se no ângulo superior direito da baliza de Domingos.

Na 2.ª parte: 6-1.

3-0 aos 48 m: lançamento de Manuel José para Bolota, este recebe a bola mesmo à entrada da área e na impossibilidade de vencer a oposição de um defesa de Aveiro que lhe barra a passagem volta a cedê-la a Raul Águas que na passada atirou obtendo um golo de excelente efeito.

1-3 aos 51 m: fuga de Alemão, sai-lhe Nascimento ao caminho, voa-lhe aos pés, mas o brasileiro furtou-lhe a bola, desviou-a para a esquerda na procura de melhor ângulo, e atirou depois fazendo golo.

4-1 aos 70 m: passe de Bolota para Fernando que remata de pronto acabando a bola por sofrer um ligeiro desvio de trajectória ao embater em Inguila, o suficiente, todavia, para iludir Domingos e levá-la ao fundo das balizas.

5-1 aos 73 m: centro da esquerda, de Fernandes, tirado mesmo de cima da linha de cabeceira, a defesa do Beira-Mar, apática, não tenta o corte, e Raul Águas saltando de cabeça faz o golo.

6-1 aos 79 m: fuga de Bolota pelo lado direito, concluída com um centro bem medido para Pavão já de cima da linha de cabeceira, o qual, em posição frontal à baliza não teve dificuldade em fazer o golo.

7-1 aos 84 m: lançamento por alto de Pavão para Raul Águas e cabeceamento em voo do angolano, mesmo à boca da baliza, batendo Domingos.

8-1 aos 90 m: lançamento de Manuel José para Bolota que corre lesto para a baliza, dribla o guarda-redes, que entretanto lhe sai ao encontro e faz o golo atirando quase de cima da linha de baliza.

———-

Existia ali, vagamente, um risco para o Beira Mar. Que, se perdesse, poderia ganhar um lugar na «Liguilla», coisa que não constituiria prémio que interessasse sobremaneira aos aveirenses… Enfim, mesmo essa possibilidade era um tanto ou quanto extrema, como afinal acabou por se ver.

Extremismo, todavia, em que se não fiaram os jogadores de Aveiro. Em futebol, por vezes, o Diabo tece-as. Não fosse acontecer ali em Tomar uma surpresa com que ninguém contava…

Terá sido essa insegurança, essa intranquilidade que lhe advinha, afinal, da própria posição que ocupava aliada por outro lado à convicção da debilidade do adversário, que empurrou abertamente para o ataque uma equipa que como o Beira Mar perfilha abertamente os sistemas defensivos não costumando dispensar, mesmo a jogar no seu terreno, a recusa ao «libero».

Ali, em Tomar, não existia nada para defender. O que importava, isso sim, era assegurar a vitória no jogo, garantir os dois pontos, resolver, enfim, aquela malfadada questão da «Liguilla». Se possível sem a ajuda de ninguém. É que as vezes as desajudas aparecem de onde menos se as espera. E senão veja-se o resultado alcançado pelo Benfica, há uma semana, na Tapadinha. Não fosse o Montijo…

Depois, para espevitar os de Aveiro estavam os de Tomar do outro lado. Tomar que vinha somando resultados maus em cima de maus resultados. Pois agora era chegada a altura de o Beira Mar tirar o partido devido dessas facilidades de que de resto já tinham beneficiado muitas outras equipas.

Que era atacar, fazer golos, ganhar o jogo a preocupação dos de Aveiro foi facto que ficou patente logo desde os primeiros minutos. E isso porque:

– O Beira Mar, contrariamente à estratégia que costuma utilizar nos jogos fora, renunciou desta vez ao «libero»;

– Por outro lado utilizou sistematicamente durante a primeira metade do jogo as descidas dos «laterais» Ramalho e Severino, não alternativamente, tal como manda a boa prudência, mas cumulativamente.

Que consequências resultaram daqui? Muitas, e nenhuma delas favorável à equipa aveirense que frequentemente se via na situação de ter de defender com três (Marques recuava a dar cobertura a Inguila e a Severino) em lugar dos cinco que constituem o processo habitual.

A partir daqui facilmente se poderá inferir da desorganização e depois desorientação que chegou a grassar na defesa de Aveiro. De princípio ainda o sistema funcionou bem, com o Beira Mar a atacar e a carregar sobre a baliza de Nascimento. Mas esse funcionar bem não resistiu mais do que uns escassos minutos. Porque logo o União descia em rápido contra-ataque e obtinha o seu primeiro golo, facilitado, aliás, pela defesa adversária e mesmo pelos homens do meio do campo, que não procuravam marcar os avançados de Tomar. A bem dizer todo o espaço de terreno compreendido para além da grande área constituía zona livre. Só se esqueceram que também de fora da grande área se podem fazer golos…

Aos 7 m já havia 1-0, golo obtido por Pavão, com forte remate disparado (sem estorvo) de fora da área. Aos 15 m o resultado mantinha-se mas com manifesta dose de sorte por parte dos de Aveiro, que tinham visto dois remates de Tomar (disparados de fora da área, claro…) passarem ao lado da sua baliza.

Não se davam, todavia, por convencidos – e continuavam na sua, insistindo lá à frente, procurando o golo com quanta energia tinham. – mal podendo imaginar ainda que seria esse entusiasmo, esse afã de ganhar, e por outro lado uma certa dose de excesso de confiança, de que por muito tempo fizeram alarde , que lhes viria a custar uma vitória que em princípio se reputava ao seu alcance. Tem destas coisas o futebol!

Aos 21 minutos veio o segundo golo – que, enfim, bem poderia ter chegado um bocado mais cedo. E a partir daí, sim, as coisas complicaram-se decisivamente para os de Aveiro, que nunca mais conseguiram atinar com o futebol que já se lhes tem visto jogar.

Tudo começou por um equívoco de estratégia – não resultando as incursões de Ramalho e de Severino, aliás dois «laterais» cheios de boa vontade (só que boa vontade não faz golos) esses adiantamentos vinham criar cá atrás «brechas» que os seus companheiros nunca se mostraram capazes de tapar. Daí os sucessivos e desesperados recuos de Inguila, de Marques e de Soares, daí o à-vontade, a liberdade de acção de que gozaram praticamente durante todo o jogo Fernando, Bolota, Raul Águas e Pavão. Tanta liberdade, necessariamente, não poderia conduzir a nada de bom…

Depois do intervalo as coisas precipitaram-se com o terceiro golo dos tomarenses, obtido logo no minuto terceiro, aqui também com responsabilidades para a defesa de Aveiro. E foi o estado de sítio que mais e mais se acentuava à medida que o jogo caminhava para o fim.

Ali já ninguém mais pensava em virar o resultado. Ou melhor: terão pensado nisso quando Alemão fez 1-3. Mas foi sol de pouca dura porque ao 3-1 sucedeu o 4-1 e dpois o 5-1 e o 6-1… até ao 8-1. Enfim, não apareceu nem o 9.º nem o 10.º golo porque o jogo tinha só 90 minutos. Porque se metesse prolongamento por certo que a contagem não ficaria por ali…

De tudo isto, de todo este rosário de golos (houve-os para todos os gostos) uma coisa (inesperadamente) ressaltou: a capacidade da equipa de Tomar.

É evidente que exibições como a de agora e como a da Luz vai para algumas semanas não podem acontecer sempre durante um campeonato. Mas mesmo encarando-a pelo prisma da excepção, mesmo tomando em linha de conta que foi também excepcionalmente negativa a exibição da equipa de Aveiro, sem qualquer espécie de dúvidas capaz de produzir mais e melhor, ainda assim há que valorizar devidamente o triunfo dos homens do Nabão, aplaudir sem regateio este último brilharete na I Divisão e enfim, admitir que se não fossem certas circunstâncias que em determinados momentos bastante pesaram no rendimento da equipa havia ali madeira não já (é evidente) para garantir os tais lugares do topo que o meirinesco Medeiros reivindicava mas pelo menos para tornar possível a presença entre os grandes.

Em trinta jogos de campeonato o União encontrou apenas um domingo de tranquilidade – o último, pois qualquer que fosse o resultado que adregasse no jogo com o Beira Mar isso não teria a mais leve influência na sua classificação. Pois foi precisamente nessa jornada derradeira, jogando sob tais auspícios, que os tomarenses deram um ar da sua graça, construiram um resultado que não oferece margem para dúvidas, e quase marcaram mais golos do que ao longo das 29 jornadas de Campeonato. Isto é sintomático!

Quanto ao Beira-Mar, perdendo, sofrendo mesmo uma goleada, garante a permanência na I Divisão sem necessidade de recurso à «Liguilla», e esse era afinal, o grande objectivo da equipa.

Foi muito «mau» aquilo em Tomar? Foi. Foi tudo muito mau. Tão mau que apenas dois homens, a espaços (muito espaçados…) escaparam ao descalabro geral: Colorado e Alemão. É pouco, Muito pouco. Mas para o Beira Mar assim mesmo foi quanto bastou. E como, afinal, em futebol ainda são os resultados que contam…

Dirigiu a partida o árbitro portuense Melo Acúrsio. Erros? Teve-os alguns, sim senhor, mas simples questões de pormenor, nada afinal que comprometesse ao de leve que fosse o seu bom trabalho. E, que Diabo, num jogo daqueles, em que uma equipa derrota outra por margem tão pesada, quem é que consegue sair comprometido, quem?

Oito golos dão para tudo…»

(“A Bola”, 12.06.1973 – Crónica de Carlos Sequeira)


(Imagem – “A Bola”, 12.06.1973)