“COMEÇAR SEM ÓLEO E ACABAR COM GÁS”

Estádio Municipal de Tomar

Árbitro – Raul Nazaré, de Setúbal

U. TOMAR – Silva Morais (0); Raul (1) (75m – Alexandre (1)), Calado (1), Faustino (0) e Fernandes (1); Zeca (1), Águas, «cap.» (2) e Cardoso (2) (55m – Camolas (1)); Pavão (1), Bolota (1) e Barrinha (2)

FARENSE – Benje (2); Caneira (1), Almeida I, «cap.» (2), Viola (2) e Lampreia (1); Manuel José (2), Sério (2) e Almeida II (2); Farias (0) (26m – Amâncio (2)), Adilson (1) (50m – Barbosa (2)) e Mirobaldo (2)

0-1 – Mirobaldo – 42m
0-2 – Amâncio – 67m
0-3 – Barbosa – 73m

«Substituições: todas as permitidas. No Farense, ainda no primeiro tempo (26 minutos, Amâncio (2) entrou, saindo Farias e na segunda parte, aos 5 minutos, foi a vez de entrar o ex-júnior Barbosa (2) para o lugar de Adilson. O Tomar fez as suas alterações no segundo tempo, saindo Cardoso e Raul para entrarem Camolas (1) e Alexandre (1), respectivamente aos 10 e 30 minutos.

Ao intervalo: 0-1.

Aos 42 minutos, 0-1. Na extrema direita Adilson fugiu a Fernandes, aproximou-se da linha final de onde cruzou rasteiro para o coração da área, aparecendo Mirobaldo a fazer o golo, à vontade, dando até a sensação de ter falhado o remate, a aproveitar os falhanços sucessivos de Faustino, Calado e do próprio Silva Morais, pois todos eles poderiam ter evitado que a bola chegasse ao avançado do Farense.

No segundo tempo: 0-2.

Aos 22 minutos, 0-2. A passe de Barbosa, Amâncio, mais rápido que Fernandes e Calado, estende o pé e, em esforço, empurrou a bola para a baliza que Silva Morais abandonava, sendo colhido na viagem.

0-3 aos 28 minutos. Acorrendo a um passe da esquerda, Barbosa, partindo de trás de Faustino, chegou primeiro à bola e, com o pé  direito, fê-la passar por cima de Silva Morais que saía ao seu encontro. Um autêntico «chapéu».

Resultado final: 0-3.

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No regresso à I Divisão, o Tomar não poderia ter começado pior: derrota em «casa» e por margem esclarecedora, para lá de uma actuação pouco convincente. Nada abonatório, sem dúvida.

É certo que no primeiro tempo, o Tomar, ainda conseguiu equilibrar os acontecimentos. Tratou-se de um equilíbrio consentido pelos algarvios? Ficou-nos a sensação de se ter tratado das duas coisas. Expliquemos: começando receoso, o Farense, ofereceu de entrada a iniciativa ao adversário, concedendo-lhe muito espaço de manobra o que, a um tempo, deixava transparecer a ideia de que à equipa faltava engrenagem, faltava-lhe movimentação, estava, por assim dizer, presa, «sem óleo nas dobradiças». Por outro lado, não parecia coerente que a equipa se abalançasse deliberadamente ao ataque. Disso se aproveitou o Tomar que, destacando Cardoso para marcar Manuel José que é, como se  sabe, uma das mais férteis nascentes de jogo dos algarvios, se assenhoreou do comando do jogo, vivendo-se largos minutos com o ataque tomarense a lutar com a defensiva farense que, apenas nos minutos iniciais sentiu algumas dificuldades ante o então mexido ataque de Tomar.

Crescem os algarvios

Os receios algarvios duraram cerca de trinta minutos. Depois, a equipa passou a exibir outra confiança, soltou-se mais, para o que muito terá contribuído a entrada de Amâncio que, dotado de uma mobilidade bem superior à de F[a]rias, trouxe à equipa a afoiteza necessária para, com muito maior rapidez, transformar as jogadas de defesa em ataque.

Com a saída de Farias a equipa abandonou o seu «4x3x3» para passar a jogar apenas com dois avançados (Mirobaldo e Adilson) originando, a partir de então, um maior ascendente farense no miolo, pois se Manuel José, muito marcado por Cardoso, descaía para a direita, levando consigo o tomarense, o que provocava a criação de certo espaço, Amâncio, mercê de uma maior rapidez largava por essa terra de ninguém em boa velocidade, obrigando Águas a grande desgaste para o tentar travar ou acompanhar, o que nem sempre sucedia. Assim, curiosamente, trocando um avançado (Farias) por um médio (Amâncio), o Farense ganhou maior capacidade ofensiva, passando o jogo a distribuir-se mais por um e outro meio campo, embora os ataques visitantes surgissem chancelados de maior perigo pois era flagrante a muito maior facilidade com que penetravam na área tomarense, ao passo que os lances ofensivos dos donos do campo, sempre muito iguais, usando e abusando dos lançamentos por alto para a área algarvia, poucas apreensões causavam a Benje, já que Almeida I e Viola os desfaziam sem grandes esforços.

Um golo «injusto»

O Tomar dispusera já do seu melhor período. Fora o inicial. Apesar de o Farense ganhar progressivamente as rédeas do jogo, o golo não parecia iminente. Nem para uma nem para outra equipa. Mas surgiu e para os homens de Faro. Se houvesse nestas coisas de futebol lógica ou justiça, este tento teria o seu quê de «injusto». É certo que ele surgiu quando a equipa dava mostras da sua maior capacidade, do seu melhor futebol, até da sua inegável supremacia mas, também não deixa de ser verdade, que a produção de jogo da equipa não fora de modo a justificar esse avanço no marcador, até porque o tento foi bastante consentido pela defensiva de Tomar. Sucedeu. No momento exacto a equipa do Farense não falhou. Soube concretizar a única hipótese de golo. Não terá isto o seu mérito?

Tudo mais fácil

Depois de ter obtido o seu tento a escassos três minutos do final da primeira parte, portanto, sem tempo para que o Tomar tentasse qualquer reacção, o Farense surgiu para a segunda parte com certas cautelas, esperando, certamente, a reacção contrária. Assim, não surpreendeu que Sério aparecesse a jogar um pouco mais recuado, mais próximo de Almeida I e Viola formando com estes um triângulo que teria por finalidade filtrar os ataques tomarenses. No entanto, aos 10 minutos, tudo se tornou mais fácil para a equipa agora comandada por Mário Lino, pois a saída de Cardoso nos tomarenses para tanto contribuiu. Manuel José terá respirado fundo, de alívio, Por certo Mário Lino também… Se durante toda a primeira parte a acção de Manuel José não se fizera notar, por força da boa marcação que Cardoso lhe movera,  a partir da saída deste, o excelente médio do Farense passou a jogar a seu bel-prazer: solto, sem ninguém a pisar-lhe os calcanhares, com todos os vagares, como ele tanto gosta. O Farense ganhava com a troca e os efeitos não tardaram.

Com a entrada de Camolas, o Tomar tentou alargar a sua frente de ataque, tentou avançar Águas, tentou Barrinha a meio-campo, enfim, tentou tudo, mas debalde. A saída de Cardoso estava a fazer-se sentir. Não na própria equipa tomarense mas sim na equipa algarvia. Não que a sua acção tivesse emprestado à equipa algo de transcendente, mas, através dela, Manuel José fora secado… E agora ele brotava…

Com efeito, por força da liberdade que lhe fora concedida, o médio farense viria mesmo a marcar um golo, aos 19 minutos, todavia o árbitro anulou-o e muito bem pois Manuel José, depois de rematar de cabeça a um poste, acorreu à recarga, juntamente com Raul, fazendo jogo perigoso. O sinal de que Manuel José não podia jogar sozinho estava dado. Havia que destacar alguém para o marcar. Quem? Não vimos ninguém.

…E o Farense surgiu então. Com força, com velocidade, trocando a bola, mostrando-se sob o comando de Manuel José e Mirobaldo, sempre muito bem acompanhados por Amâncio e Barbosa. Os golos apareceram. Dois. O Tomar baqueara por completo. Ao Farense sobrava agora em gás (força física) o que de início lhe faltara em óleo (ligação).

A entrada de Alexandre e a passagem de Barrinha para a zona intermediária ainda transmitiram alguma alegria à triste equipa tomarense mas era tarde porque os minutos escoavam-se e a equipa perdia por três golos. Nada a fazer. Estava consumada a derrota dos nabantinos no regresso à Primeira Divisão.

Aquela defesa

Sem que as responsabilidades da derrota dos tomarenses recaiam por inteiro na sua defensiva, a verdade é que foi nesse sector que a equipa teve os elementos em tarde de menor inspiração, com realce para o guarda-redes Silva Morais que foi mal batido nos dois primeiros golos. No terceiro, nada tinha a fazer porque o «chapéu» era… de se lhe tirar o chapéu. Faustino seguiu-se-lhe em desacerto, sem velocidade para certos lances. Raul e Fernandes equivaleram-se, sem terem atingido a regularidade. A meio campo, Zeca não começou mal para se ir afundando à medida que o tempo corria. Acabou a lateral direito depois da saída de Raul e nem por isso a sua actuação ganhou brilho. Águas teve um começo interessante, lutando muito,  o que até não lhe é habitual. Depois, com os «sprints» de Amâncio acabou cedo por entender acompanhar o algarvio. Cardoso esteve certíssimo na marcação a Manuel José, «secando-o» quase completamente. É certo que não foi mais além, [m]as depois da sua saída a equipa nem teve quem marcasse o médio contrário e… foi o fim do Tomar. No ataque, Barrinha foi o de melhor rendimento. Bolota começou bem para acabar depressa tal como Pavão. Camolas esteve generoso como sempre e Alexandre trouxe à equipa nos escassos quinze minutos em que esteve em campo.

Questão de tempo

O Farense foi uma questão de tempo. Primeiro os seus jogadores estiveram muito presos de movimentos mas depois o tempo foi passando e a equipa subiu para acabar possante. Benje esteve certíssimo, pois pouco teve para fazer. Almeida I e Violas situaram as suas actuações um pouco acima das de Caneira e Lampreia, talvez porque foram mais postos à prova. Sério e Almeida II equivaleram-se Manuel José apareceu (e bem) quando Cardoso desapareceu. Mirobaldo foi o melhor atacante, surgindo sempre onde havia perigo ou hipóteses de o haver. Barbosa, um ex-junior, impressionou igualmente. Bem dotado fisicamente, mete-se bem entre os defesas e tem alegria. Outro que teve actuação destacada: Amâncio. Com a sua entrada a equipa melhorou notavelmente conforme se assinala mais atrás.

Faltou um cartão

Se o árbitro tivesse mostrado o cartão amarelo a Calado quando, no segundo tempo, entrou a varrer Almeida II, a sua actuação ter-se-ia situado em excelente plano. Um reparo ao auxiliar do lado da bancada que deixou passar um «off-side» de Pavão que, por acaso não deu golo porque Benje efectuou magnífica defesa».

(“A Bola”, 09.09.1974 – Crónica de Joaquim Rita)

(Imagem – “A Bola”, 09.09.1974)