“UM  GOLO SEM PREFÁCIO UMA HISTÓRIA SEM SENTIDO”

Campo da Avenida, em Espinho

Árbitro – Bastos da Silva, do Porto

ESPINHO – Aníbal (3); Bernardo da Velha (2), Valdemar (2), Simplício (1) e Gonçalves (1); Meireles (1), Washington (1) (62m – João Carlos (2))  e Júlio (1); Augusto (1) (62m – Ferreira da Costa (1)), Telé (2) e Malagueta (2)

U. TOMAR – Silva Morais (1); Carvalho (1), Calado (1), Zeca (1) e Fernandes (1); Florival (1) (56m – Camolas (1)), Faustino (1) e Raul Águas (2); Pavão (1) (72m – Barrinha (1)), Nh’abola (2) e Bolota (1)

0-1 – Nh’abola – 1m
1-1 – Washington – 43m
2-1 – Telé – 82m

«Substituições: duas para cada lado. Todas na segunda parte. Aos 11 minutos, Camolas (1) rendeu Florival, jogando na frente e recuando Pavão para o meio-campo. Seis minutos depois, no Espinho, procedeu-se à primeira alteração: João Carlos (2) entrou para o lugar de Washington.

Aos 17 minutos, e de novo no Espinho, Ferreira da Costa (1), substituiu Augusto. Finalmente, aos 27 minutos, Barrinha (1) passou a jogar no meio-campo do U. Tomar, tendo saído Pavão.

Ao intervalo: 1-1.

Logo no primeiro minuto, o U. Tomar adiantou-se no marcador. Bolota apareceu descaído sobre o lado direito, entrou na área isolado, apesar das tentativas de Simplício e Gonçalves, e quando Aníbal se preparava para intervir, tocou a bola para o lado, na direcção de Nh’abola, que se limitou a empurrá-la para a baliza.

Aos 43 minutos, o Espinho conseguiu empatar. Após um pontapé de canto, apontado por Bernardo da Velha, estabeleceu-se enorme confusão junto à baliza de Silva Morais. Num ressalto, a bola voltou ao defesa direito do Espinho que centrou, de novo para Washington cabecear. A bola embateu na barra e ressaltou para além do risco de golo. Sendo depois afastada por um defesa de Tomar. No entanto, o árbitro, bem colocado, assinalou o golo.

Na segunda parte 1-0.

Aos 37 minutos do segundo tempo, o Espinho fez 2-1, num lance bem idêntico ao do seu primeiro golo. Grande confusão na grande área do União, remate de Malagueta devolvido pela barreira defensiva dos visitantes e recarga vitoriosa de Telé, que fez a bola embater em Calado e transpor a linha de golo, voltando um defesa visitante a afastá-la para longe. De novo o árbitro, em cima da jogada, assinalou o golo.

Este lance originou alguns protestos por parte dos jogadores do União e o juiz portuense decidiu mostrar o «cartão amarelo» a Carvalho.

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De que mistérios estará embebido esse jogo-espectáculo, que dá pelo nome de futebol, para podermos encontrar qualquer explicação referente à sua falta de lógica?

Aqui, a esse mesmo campo da Avenida (um género de quintal aplanado) veio, há pouco, uma equipa chamada Vitória de Setúbal, com alguns «doutores futebolistas», e perdeu por 1-0.

É um facto que a vitória então conseguida pelo Espinho, teve o seu preço no esforço, nas dificuldades e no sacrifício da equipa. No entanto, ontem, foi necessário esse mesmo esforço e esse mesmo sacrifício para ultrapassar iguais dificuldades. A equipa adversária, chamava-se União de Tomar.

Diria qualquer matemático, no termo da demonstração, que, então, Vitória de Setúbal igual a União de Tomar. E todos aqueles habituados a gozar hora e meia de espectáculo nos estádios do País, poderão apontar o erro de semelhante igualdade. Mas, nesse caso, como será possível que equipas tão diferentes possam conseguir resultados idênticos?

A resposta está no (im)próprio campeonato. É verdade que há mais. Nem só o Espinho possui um campo pelado na primeira divisão, mas isso não pode servir de consolação e, muito menos, de motivo de impedimento à base da nossa crónica.

Um outro futebol

As palavras têm o seu próprio significado, sobretudo se as aplicamos a coisas. Mas se nos referimos a homens há sempre a incontida tentação de olharmos aos condicionalismos. O mesmo acontecerá se adjectivamos o trabalho desse tal animalzinho complexo e inteligente. Transportando este raciocínio para o futebol, recebemos o admissível direito de criticarmos o jogo pelo filtro dos valores individuais (ou mesmo colectivos) de uma equipa. Em termos simples e resumidos, é a tal história de uma falha de um jogador banal, ter mais desculpa que uma falha do Eusébio. E um mau jogo entre equipas de segunda divisão, ter mais desculpa que um mau jogo entre equipas da primeira divisão.

Da segunda divisão eram, na época passada, o Espinho e o União de Tomar. Ontem, defrontaram-se no campeonato da primeira. Por isso, menos desculpa terão as más exibições de ambos, apesar dos condicionalismos, semelhantes, que se mantiveram.

Jogou-se, ontem, em Espinho, um outro futebol, que não o de primeira divisão. É difícil (reconhecemos) jogar-se bem naquele campo – que o diga o Vitória de Setúbal – mas teremos de exigir aos jogadores uma certa adaptação. E neste aspecto – adaptação – Espinho e Tomar falharam por completo.

Um golo sem prefácio

Havia um minuto de jogo, quando Bolota ofereceu o golo a N’habola. Eram dois homens, perante quatro. Estranho que ainda haja defesas que acreditem na desnecessidade de marcação nos começos dos jogos…

Portanto, com um golo sem prefácio, o União de Tomar estava em vantagem. Adivinhava-se, facilmente, as naturais intenções da equipa de Caiado. O União de Tomar é dos que pertence ao subcampeonato do Espinho. Em «casa», nem o empate poderia servir.

Na verdade, o Espinho pensou em atacar abertamente e concretizou a ideia. Só que atacou mal. Sem clareza. Sem discernimento. Atacou muito com os pés. Não atacou nada com a cabeça.

Foram quarenta minutos de correrias deitadas à rua e ficámos com a sensação de que poderiam ser oitenta e nove, caso a defesa do União de Tomar tivesse correspondido correctamente. Mas não. As hesitações de Zeca, as «fífias» de Calado e o imobilismo de Carvalho e Fernandes, foram o melhor alento para os avançados de Espinho. Claro que não lhes ensinaram os caminhos mais curtos e práticos para o golo, mas também não barricaram os longos atalhos.

A caminhada durou quarenta e dois minutos. Depois, foi o golo. Tal como o jogo, confuso e atabalhoado.

Falámos na culpabilidade da defesa de Tomar. No entanto, deveremos, igualmente, referir as falhas dos restantes sectores: no meio-campo, só Raul Águas jogou. Foi um autêntico senhor do defende-ataca-defende. Foi o dono da sua zona. Daqui resultou que, mesmo sem grande ajuda, surgisse um Espinho partido na sua coluna dorsal. Culpado foi, também, o ataque do União que, antes da sua equipa ter consentido o empate, poderia ter aumentado a vantagem. Após a meia hora, duas oportunidades de golo feito: uma de Florival que quis acertar com o pé, onde já quase tinha a cabeça e outra de Pavão que, entusiasmado pelo lance, nem viu Bolota completamente só, ao pé da marca de «penalty».

Intervalo… Só para descansar

Foi um intervalo só para descansar. De modificações nítidas, nada houve. Provavelmente – diga-se – perante o desespero dos técnicos, que deveriam estar insatisfeitos com o rendimento dos seus jogadores.

Continuou a lei da atrapalhação. Do pontapé para a frente. Da bola para o ar.

Porém, notou-se mais – em termos de lances perigosos – a supremacia do Espinho. Uma causa – Raul Águas estava «rebentado».

Mas trinta e sete minutos de frenesim, com a defesa do União a procurar manter, de qualquer forma, o empate, e com os avançados do Sporting de Espinho com os olhos fixos na baliza de Silva Morais. Uma luta. Um vencedor – o ataque do Espinho que, afinal, conseguiu atingir o objectivo. Outro golo à moda do jogo: confusão, tabelas, atabalhoamento e mais uma bola que entrou, sem tocar na rede.

Por jogar, faltavam oito minutos. Mandava o regulamento que assim se fizesse. Estiveram lá os jogadores, mas até eles sabiam que o jogo tinha acabado naquele momento.

O árbitro

O juiz do encontro é novo nestas andanças de jogos de primeira divisão. Chama-se Bastos da Silva, é do Porto, ouviu alguns protestos, mas esteve muito melhor que o jogo.

Nos dois golos do Espinho, confessamos que não vimos a bola transpor o risco. É natural, porque o aglomerado de jogadores (nos dois lances) foi de tal forma, que se tornava impossível ver a bola. Viu o árbitro, que estava mesmo junto à baliza.

Num pretenso lance de «penalty», já na segunda parte, por «mão» de Calado, também julgou bem, uma vez que a bola foi chutada, violentamente, a curta distância.

E estes foram os lances mais difíceis de resolver.»

(“A Bola”, 30.09.1974 – Crónica de Vítor Serpa)

(Imagem – “A Bola”, 30.09.1974)