U. Tomar - 1977-78

Uma equipa histórica do União de Tomar (época de 1977-78), com Eusébio e Simões.

De pé: Eusébio, Florival, Barrinha, Marito, Varela, Sarmento e Vieirinha
Em 1º plano: Graça, Alcino, Mário Pinto, Simões (cap.) e Faustino

(Foto no uniaotomar.no.sapo.pt)

Tinha 18 anos quando aterrou em Lisboa, a “metrópole”, a capital do império português a 15 de Dezembro de 1960, faz hoje meio século. Tinha viajado incógnito, com nome de mulher, Ruth Malosso, apelido da mãe. Vinha de Moçambique, de Lourenço Marques, um jovem “de aparência bastante robusta, com costas largas, boa altura” chamado Eusébio da Silva Ferreira. Ninguém sabia o que ia dar, ninguém sabia que aquele avançado africano iria ser um dos melhores futebolistas do planeta. O Benfica foi o seu clube de sempre, onde conquistou as maiores glórias e se tornou no “Pantera Negra”. Mas não foi o único. Andou pela América e acabou a jogar na segunda divisão portuguesa, no União de Tomar.

O União Comércio e Indústria de Tomar já tinha estado seis temporadas na primeira divisão, entre 1968 e 1976, mas naquele ano, 1977, estava no segundo escalão. Fernando Mendes, na altura o presidente do clube, queria mais sócios e mais público nos jogos do União e avançou para a contratação de duas estrelas cadentes do futebol português, Eusébio e António Simões. “Eles andavam a fazer uns contratos pela América e a ideia até foi do Simões. Combinámos no escritório do advogado dele, o dr. Paiva das Neves, em Lisboa. A única exigência que fez foi: ‘Quero cheques do sr. Fernando Mendes e não do União de Tomar”, recorda ao PÚBLICO o então presidente do clube, actualmente dono de uma agência funerária em Tomar, não se lembrando, no entanto, de quanto pagou a Eusébio pelos cinco meses em Tomar.

Tal como Eusébio, António Simões tinha 35 anos e longe dos tempos de glória do Benfica, onde se conheceram e brilharam. Nesta altura, precisiva de manter a forma para aspirar aos dólares que pagavam do outro lado do oceano Atlântico, na liga norte-americana, que reunia estrelas como Pelé ou Beckenbauer. “O campeonato dos EUA era de seis, sete meses e tínhamos todo o interesse em não parar”, refere Simões, que, depois de sair do Benfica em 1975, andou ainda pelo Estoril e pelos Boston Minutemen e os San José Earthquakes, antes de chegar a Tomar.

Quanto a Eusébio, também saiu do Benfica em 1975, passando pelos Rhode Island Oceaneers, os Minutemen, o Monterrey, Beira-Mar, Toronto Metros Croatia (onde foi campeão), Las Vegas Quicksilvers e New Jersey Americans. Dizia, na altura, que até tinha tido convites de clubes da primeira divisão. “Preferi vir para Tomar. Aliás, tenho muita honra e orgulho em vir envergar a camisola do União de Tomar, e uma vez integrado na equipa considero-me um jogador como qualquer outro”, dizia em entrevista ao jornal “Record”. A ideia do presidente do União de Tomar (que agora disputa a divisão principal do campeonato distrital da A.F. Santarém) deu resultados imediatos. O clube passou a ter mais gente no estádio e nos jogos fora, que o União não conseguia rentabilizar. “Os outros clubes faziam enchentes à nossa custa”, acrescenta Fernando Mendes.

Eusébio estreou-se com a camisola vermelha e negra do União de Tomar a 1 de Dezembro de 1977 frente ao Estoril, o primeiro de 12 jogos pelo clube (três golos). Mário Pinto era um jovem de 18 anos, um extremo ainda em início de carreira, quando o “Pantera Negra” chegou a Tomar. “Ainda era um excelente jogador, era muito útil. Aprendi muito com ele”, relembra Mário Pinto. Eusébio já não tinha a potência de outros tempos, aquele joelho esquerdo muito massacrado já não deixava e andava mais pelo meio-campo em vez de ser um avançado explosivo e veloz. “Até fazia carrinhos e ia pelo chão”, recorda. Mesmo num golo ao Sesimbra. “Foi num cruzamento rasgado, e o Eusébio, de carrinho na esquina da grande área, rematou de pé direito e a bola entrou junto ao poste mais distante.”

Eusébio e Simões não tinham de treinar-se todos os dias no União. Um, às vezes dois treinos por semana. Recorda Mário Pinto que viu, uma vez, Eusébio a dormir durante uma palestra do treinador Vieirinha: “Mas o treinador dizia: ‘Ele já sabe o que vai fazer em campo’.” “Era um fascínio para os miúdos do União de Tomar, conhecer o Eusébio e o Simões, quanto mais jogar com eles”, conta António Simões, o capitão de equipa, qua acabaria, mais tarde, por assumir as funções de treinador-jogador. E eram estes miúdos que corriam mais. “O nosso estilo já era diferente. Já não tínhamos pernas para lá ir, ficávamos mais no meio-campo. Mas o Eusébio, nos livres, era igual. Mantinha essa capacidade técnica, remates com força e direcção.”

Faustino, defesa-central do União, relembra que, num jogo em campo pelado, com um resultado num empate sem golos, Eusébio tem a oportunidade de cobrar um livre à entrada da área adversária: “De repente, tira um palito dos calções e começa a tirar ar à bola. Quase que entrava e ele depois disse-me: ‘Podíamos ter ganho’.”

A breve passagem por Tomar durou até Março de 1978. Depois ainda voltou aos EUA, para tentar uma experiência no futebol indoor, mas esta foi ainda mais efémera. António Simões também voltou ao continente americano nas mesmas condições, acabando por ficar lá mais algum tempo como treinador. Fizeram quase o mesmo percurso de vida desportiva. Começaram jovens no Benfica, estiveram ambos na selecção portuguesa que brilhou no Mundial de 1966, sairam da Luz no mesmo ano, foram atrás dos dólares americanos e terminaram ao mesmo tempo. Simões acabaria por ser treinador, algo que Eusébio nunca foi.

“O nosso trajecto foi muito igual”, sintetiza Simões. “Tínhamos uma cumplicidade muito grande. A mim chama-me o irmão branco e eu chamo-lhe o meu irmão africano, que será até ao resto da minha vida. Tive o privilégio de o ter percebido como futebolista. Como homem, só não cresceu de uma maneira. A sua vaidade não inchou. E ainda bem.”

(Público)

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