“UNIÃO SOUBE UNIR-SE E DESUNIR O VITÓRIA”

Estádio «25 de Abril», em Tomar

Árbitro – António Espanhol, de Leiria

U. TOMAR – Silva Morais (2); Carvalho (1), Zeca (1), Faustino (1) e Fernandes (1); Calado (2), Águas, «cap.» (2) e Florival (1) (48m – Barrinha (1)); Pavão (1), Camolas (2) (85m – Sarmento (-)) e Bolota (2)

GUIMARÃES – Rodrigues (1); Ramalho (1), Rui Rodrigues, «cap.» (1), Torres (1) e Alfredo (1); Pedrinho (1), Abreu (2) e Almiro (1); Tito (1), Jeremias (1) e Romeu (1)

0-1 – Abreu – 2m
1-1 – Raul Águas – 50m
1-2 – Jeremias – 70m
2-2 – Calado – 72m
3-2 – Camolas – 82m

«Suplentes: Quim Pereira, Raul, Barrinha, Sarmento e Cardoso.

Suplentes: Sousa, Artur, Ernesto, Pedroto e Osvaldinho.

Substiuições: apenas o União de Tomar as fez e no segundo tempo. Três minutos após o recomeço, Barrinha (1) passou a actuar em vez de Florival e a cinco minutos do termo do encontro, Sarmento (-) rendeu Camolas.

Ao intervalo. 0-1.

Eram jogados apenas dois minutos e o Guimarães «sprintou». Jeremias, à entrada da área, elevando-se melhor do que Zeca, tocou a bola, de cabeça, por cima de Faustino, acorrendo prontamente Abreu a rematar de forma imparável a escassos metros de Silva Morais que, em derradeira tentativa, abandonava os postes.

Na segunda parte: 3-1.

Aos 5 minutos: 1-1. A passe de Calado, Águas, «furando» entre Ramalho e Rodrigues, não teve dificuldades em marcar.

O Guimarães voltou a adiantar-se no marcador aos 25 minutos. Depois de tabelar com Tito, à entrada da área tomarense Jeremias «serpenteou» entre Zeca e Faustino, evitou Silva Morais que lhe saiu ao encontro e, por fim, com o pé esquerdo, rasteiro, fez o golo.

2-2, aos 27 minutos. Da extrema direita, Camolas cruzou largo para a área onde Ramalho não interceptou de cabeça, sobrando a bola para Bolota que rematou prontamente, levando-a a embater no poste direito da baliza de Rodrigues, ressaltando, depois, para a área, acudindo Calado, de cabeça, a dar-lhe o caminho das malhas.

Aos 37 minutos, 3-2. Na linha média vimaranense, Águas tocou a bola para Camolas que, pelo centro, entrou na área e rematou rasteiro, com o pé direito, fixando o resultado.

Castigos: cartão amarelo para Tito, aos 44 minutos, por ter tocado a bola com as mãos.

Resultado final: 3-2.

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Para cada um sua perseguição. Claro que uma mais ambiciosa do que outra. Um persegue uma competição europeia na próxima época e outro a fuga à »Liguilla». Guimarães e União de Tomar, respectivamente. Após os emocionantes noventa minutos de ontem, o Tomar pode respirar um pouco, enquanto o Guimarães se viu alcançado pelo Boavista na luta por um lugar no comboio da Europa.

Surpreendente o triunfo nabantino? Que o seja. De qualquer forma ele teve tanto de certo, de indiscutível e de «moral», como terá de inesperado.

…Nem a marcação de um golo cedíssimo (os espectadores não tinham tido ainda tempo de se acomodarem) chegou para embalar os vimaranenses para uma exibição, não diremos que positiva, porque ela até foi salpicada, aqui e além, embora espaçadamente, por períodos de bom futebol, mas ao nível do Guimarães que esta época tem dado tão brilhante conta do recado. É um facto que nos parece inegável que a grande «forma» de jogadores altamente influentes na manobra da equipa está ultrapassada… Mas se esse facto pretender ser negado, então diremos que ontem, a vontade, o apego, a ânsia e a motivação dos tomarenses contribuiu para que a «forma» desses jogadores, grandes responsáveis pelo brilharete vitoriano, não se visse, não se desse por ela, não se notasse.

Em contrapartida, os tomarenses, embora com outras limitações, conseguiram «inventar» processos e maneira de confundir o seu cotado adversário, conseguindo até suplantá-lo quer em jogo-jogado quer, sobretudo, naquilo que mais lhe interessava, no resultado.

Facilidades aparentes

Começou bem o Guimarães. Da melhor maneira, com um golo. Começou mal o Tomar sofrendo um golo a «frio», embora dele tenham que se lamentar os seus «centrais» que no mesmo lance perderam duas vezes a hipótese de evitar o tento. Primeiro foi Zeca que se viu batido por Jeremias que se elevou mais alto, tocando a bola por cima de Faustino e, depois, foi este que viu a bola passar-lhe por cima da cabeça para ser recolhida por Abreu para o remate vitorioso.

Até que ponto este golo, obtido ainda na madrugada da partida, terá marcado a actuação de uma e outra equipa e, consequentemente, o próprio resultado?

Marcando assim um golo, do «pé para a mão», trocando a bola com mais facilidade, segurando o jogo a meio-campo, os homens de Wilson não pareciam dispostos a acreditar que o jogo viesse a conhecer outro desfecho que não fosse aquele que melhor serviria os seus anseios. Com Abreu a manobrar no miolo, usando de uma velocidade que mais nenhum outro centrocampista então exibia, o «minorca» de Gumarães chegava para garantir, nessa zona, uma certa ordem, compensando a falta de «explosão» de Almiro, muito retraído, muito encostado a Alfredo. Esse bom começo de Abreu, se a um tempo permitia à sua equipa determinado desafogo de ordenação, de manobra, contribuía, por outro lado, para cada vez mais se pensar que «aquilo» seria uma «pera doce» para os minhotos. Afinal, tudo aparência. Porque o União que então se mostrava desunido, viria a modificar o seu modo de actuar; porque Abreu não havia de «durar» todo o jogo e ainda porque, no segundo tempo, Artur Santos, responsável tomarense, encontraria maneira de esgotar a nascente de todo o jogo ofensivo da sua equipa: Ramalho e Pedrinho.

Qual «pera doce»

Mas o Tomar não estava ali para perder o jogo. Pelo menos para o perder logo aos dois minutos, sabendo que tinha mais oitenta e oito para discutir. E discutiu logo. Eram jogados apenas seis minutos e Camolas dava o sinal de alarme. Ele levou a «bomba» à área vimaranense só que esta não «explodiu», porque o árbitro fez vista grossa, muito grossa mesmo, a um «penalty» flagrantíssimo, cometido por Ramalho sobre o atacante de Tomar, derrubando-o, quando este, em plena área, se preparava para «despoletar» o tiro. O árbitro, embora perto do lance, não assinalou a grande penalidade.

O Tomar iniciava então o seu «forcing». Águas adiantava-se um pouco mais, no terreno para, de mais perto, procurar lançar Camolas e Bolota, na área de Guimarães. Compreendeu-se a medida de Tomar. A equipa estava em desvantagem e nada tinha a perder por se afoitar mais na ofensiva. A pouco e pouco o Tomar libertava-se do colete de forças que lhe era imposto por Abreu, Tito e Jeremias e os lances de perigo passaram a surgir com muito maior frequência junto das redes de Rodrigues. Camolas era o nabantino que mais se fazia notar. Aos dez minutos, acorrendo a um passe de um companheiro isolou-se e Rodrigues teve de sair de entre os postes para oferecer o corpo à bola, depois do remate do irrequieto avançado do Nabão. Quatro minutos depois, o mesmo Camolas concluiu com um remate à barra um passe de Carvalho. O perigo chamava-se Camolas. Um perigo que se prolongaria até ao minuto 85.

Dado o cariz que o jogo estava a tomar, Romeu passou a actuar mais recuado, prestando auxílio ao seu miolo, onde Abreu se ia apagando a pouco e pouco e onde Almiro continuava sem poder de mando nem de briga, e ainda, onde Pedrinho se mostrava bem quando combinava com Ramalho nos lances de teor atacante, mas não exibia a mesma produção na hora de disputar a bola, de a procurar roubar aos seus adversários. Faltava àquele meio-campo de Guimarães, alguém que jogasse mais «feio» mas que «fosse a todas», que não se encolhesse, que «mordesse a relva». Havia naquele trio muita técnica, muito saber mas pouca «fome de bola», pese o bom começo de Abreu.

Havia de ser ainda o Tomar a desperdiçar uma ocasião magnífica, quando [a]os quarenta minutos, não conseguiu ao golo, e permitindo a defesa de Rodrigues, num lance que parecia fatal para os minhotos. O Guimarães viria a dispôr, no primeiro tempo, apenas de uma oportunidade, mais, esta na sequência de um pontapé de canto que Pedrinho executou, na direita, e que Romeu esbanjou, fazendo a bola sair por cima da barra.

Amarrando o falso extremo

Para o segundo tempo o Tomar apresentou-se ainda mais audacioso. Artur Santos ordenou a passagem de Bolota para o flanco esquerdo para, assim, amarrar Ramalho. Barrinha, pouco depois do recomeço, entrou para o lugar de Florival para marcar Pedrinho mais em cima. Que pretendeu com isso o técnico de Tomar? Nem mais nem menos do que segurar Ramalho e Pedrinho, os homens que na primeira parte tinham funcionado com[o] extremos pois, ora um ora outro, desciam pela direita para o que terão contado, a «colocação» de Florival que jogando numa «terra de ninguém», nem era médio nem defesa nem avançado, nem nada. Andava para ali. Bolota que vinha actuando na zona frontal, passou a jogar mais na esquerda, cabendo-lhe a marcação a Ramalho, o outro falso extremo com que a equipa do norte contara na primeira parte. A medida resultou e logo aos cinco minutos, a igualdade apareceu. Depois dela alcançada, Pavão passou a surgir no meio campo, na tentativa de marcar Romeu; que, como se referiu, actuava muito recuado.

À medida que o tempo passava, a incerteza no resultado aumentava. Os lances de perigo sucediam-se. O Guimarães procurava «matar» o jogo do adversário no meio campo, no qual se procurava incorporar Rui Rodrigues quando a equipa atacava. O Tomar, à custa de muito nervo e contando com os constantes incitamentos (e comando) do seu […] sossegava um só momento, mostrava-se perigoso, sobretudo, nos lances em que a velocidade tinha que ditar as suas leis. Camolas, Bolota e Águas ainda tinham carga nas baterias e provaram-no na resposta pronta e categórica que deram aos vimaranenses, após o golo (excelente) obtido por Jeremias e, a oito minutos do final da partida, Camolas, a «granada Camolas», fez ir pelos ares a equipa de Guimarães ao obter o terceiro golo da sua equipa. Era o triunfo. Era o passo de gigante para os anseios da equipa. Era o respirar fundo. Um respirar tão fundo que Camolas não teve mais fôlego e teve de ser rendido por Sarmento nos minutos finais da partida.

Camolas e Abreu

Jogou muito com o coração a equipa de Tomar. Entregou-se ao jogo de princípio a fim, na certeza de que só à custa dessa mesma entrega poderia alcançar os seus objectivos. Alcançou-os. Não vamos falar em actuações brilhantes, numa ou noutra equipa. Antes teremos de referir as actuações mais influentes de uma e outra formação.

A defesa de Tomar viu-se batida com frequência nos lances por alto, o que não admira, dada a estatura de Zeca e Faustino, para não falarmos em Carvalho e Fernandes. Silva Morais não teve culpas nos golos e nos lances donde eles resultaram, fez o que estava ao seu alcance. Calado não tem ritmo de médio mas marcou um golo daí a «nota 2». Águas foi mais útil à frente, marcou um golo e deu outro. Camolas, para lá do golo do triunfo, fez a «cabeça em água» ao «patrão» Rui Rodrigues. Bolota foi um poço de energia, nunca se poupando, acorrendo a todos os lados e tendo uma missão positiva (marcar Ramalho) na fase decisiva da partida.

A equipa de Guimarães não nos pareceu bem. Já não nos tinha parecido «au point» sobretudo a sua defesa, no jogo que disputou em Alvalade, com o Vitória de Setúbal. Quando é obrigada a marcar, «aquilo» emperra… Ontem, a equipa voltou a demonstrar que não se dá bem quando é obrigada a disputara a bola, quando tem que ir à procura dela, em vez de a esconder ou de a levar até à baliza contrária. Rodrigues não foi um guarda-redes tranquilo. Esteve lento na recolocação, no segundo golo do União. Se tivesse voltado mais rapidamente para a baliza, talvez evitasse o golo de Calado. Ramalho esteve bem a atacar, no primeiro tempo, depois… Bolota marcou-o o bem. Rui Rodrigues e Torres não se entenderam com [a]  técnica «industrial» de Camolas e Bolota ou, se preferirem, com a pouca técnica de um e outro. Alfredo não esteve melhor que qualquer um dos companheiros e não teve força, no segundo tempo, quando Pavão recuou, para se integrar nos lances de ataque. Abreu começou bem mas deu o «berro». Pedrinho combinou bem com Ramalho de início mas pecou por não marcar, tal como Almiro, este, em ritmo de poupança. Romeu não se viu, Tito idem, parecendo afectado pelo cartão amarelo que lhe foi mostrado à beira do intervalo e Jeremias foi o melhor avançado, aquele que mais se movimentou e que mais rematou.

Que espanholada…

Como um avançado falha um golo, como um guarda-redes dá um «frango», como um defesa coloca a bola nos pés de um adversário, também o árbitro pode errar. É um homem e como tal… Mas ontem, em Tomar, muito errou o senhor António Espanhol. Começou por errar logo no primeiro lance da partida, não prestando a devida atenção ao seu auxiliar (Augusto Matos) que assinalara um «off-side»a Bolota. Por acaso o lance perdeu-se… No «penalty» cometido por Ramalho, ele foi nítido, pois o lateral de Guimarães «ceifou» o atacante de Tomar dentro da área. Aos treze minutos, Pedrinho, depois de atingido (sem intenção) por Águas, ficou a contorcer-se com dores, tendo o árbitro mandado prosseguir o jogo para, depois, o interromper, para prestar assistência ao brasileiro do Guimarães. Aos trinta e seis minutos, Bolota isolou-se, depois de agarrar Rui Rodrigues, por acaso do lance nada resultou… Por fim, aos vinte e três minutos da segunda parte, ia havendo «carnaval». Romeu, atingido por Carvalho, ficou junto à linha lateral a queixar-se. Bolota acorreu e pretendeu levar o vimaranense para lá da linha lateral, ao que Romeu respondeu com um esticar de pernas. O treinador, o massagista e alguns suplentes do Tomar correram de pronto para protestarem junto do árbitro que, de resto, estava pertíssimo do lance. Um espectador saltou ainda, valendo, então, a pronta e serena intervenção de Águas que o impediu de entrar no relvado.

Que assinalou António Espanhol a tudo isto? Nada.

Será necessário dizer mais da sua actuação?… Que espanholada…»

(“A Bola”, 31.03.1975 – Crónica de Joaquim Rita)

(Imagens – “A Bola”, 31.03.1975)