“TUFÃO NAS ANTAS – A «FORMA» DOS PORTISTAS

TOMAR NÃO TOMOU A DEVIDA PRECAUÇÃO”

Estádio das Antas, no Porto

Árbitro – António Garrido, de Leiria

PORTO – Tibi (2); Rodolfo (2), Murça (2), Simões (2) e Gabriel (2); Octávio (3), Cubillas (3) e Teixeira (2); Oliveira, «capitão» (3), Júlio (2) (52m – Gomes (3)) e Dinis (3) (Ademir (2))

U. TOMAR – Silva Morais (2); Kiki (1), Zeca (2), Faustino, «capitão» (2) e Romão (1); Barrinha (1), Calado (2), Pavão (1) (69m – Fernando (1)) e Cardoso (1) (61m – Sarmento (1)); Camolas (2) e Bolota (2)

0-1 – Bolota – 11m
1-1 – Cubillas – 18m
2-1 – Júlio – 21m
3-1 – Gomes – 55m
4-1 – Cubillas – 57m
5-1 – Gomes – 73m
6-1 – Gomes – 78m

«Suplentes – Rui, Ronaldo, Ademir (2), Gomes (3) e Seninho.

Suplentes – Quim Pereira, Carvalho, Sarmento (1), Fernando (1) e Caetano.

Na primeira parte: 2-1.

Aos 11 minutos, 0-1, por Bolota. Camolas dominou Murça e pôs a bola à frente de Bolota que, por seu turno, dominou bem Simões e, sereno, quando Tibi saiu ao seu encontro, fez o golo.

Aos 18 minutos, 1-1, por Cubillas. Oliveira executou um centro, a defesa nabantina foi mal batida e o peruano, de cabeça, estabeleceu a igualdade.

Aos 21 minutos, 2-1, por Júlio. Dinis fez um passe curto ao seu «ponta-de-lança», o qual driblou o guarda-redes, quando este abandonou a baliza, e marcou, sem custo.

No segundo tempo: 4-0.

Aos 7 minutos Gomes substituiu Júlio.

Aos 10 minutos, 3-1, por Gomes. Pontapé de «canto» executado por Dinis, magnífico salto de Gomes e um grande golo.

Aos 12 minutos, 4-1, por Cubillas. Num lançamento por alto, para Gomes, este, de cabeça e sem perda de tempo, colocou a bola à frente de Cubillas, que obteve um grande golo.

Aos 16 minutos, Sarmento substituiu Cardoso.

Aos 24 minutos, Fernando ocupou a posição de Pavão.

Aos 28 minutos, 5-1, por Gomes. O fiscal-de-linha chegou a assinalar «fora-de-jogo» ao «ponta-de-lança» portista, mas o árbitro, ali perto, considerou que a bola tocara, entretanto, na perna de um adversário – o que não vimos. Protestos inúteis da gente do União de Tomar.

Aos 33 minutos, 6-1, outra vez por Gomes. Centro de Octávio, Ademir tentou o remate de cabeça, que lhe saiu torto, mas Gomes, atento, emendou da melhor forma.

Resultado: 6-1.

———-

O que mais impressiona neste «F. C. Porto de Stankovic», é a condição física com que se apresenta logo no primeiro domingo de Setembro. Quando todas as formações ainda andam à procura de uma base atlética, que sirva de sustentáculo a rampa que há-de catapultá-las para uma aceitável acção técnica e de conjunto, o caso do União de Tomar, por exemplo, os portistas parece que estão já a meio do Campeonato, mantendo um ritmo notável de princípio a fim. A diferença de potencialidades, no campo da dinâmica e da resistência física, permitiu que o F. C. Porto chegasse ao fim como se nada tivesse acontecido, com um sorriso nos lábios, isto é, com uma frescura física invejável.

Levanta-se-nos, por isso mesmo, esta interrogação: não terá aparecido cedo de mais esta grande condição física dos seus jogadores? Não virão eles a descrever mais depressa a sua curva descendente, tradutora da forma atlética, do que as outras equipas, as que ainda se apresentam muito atrasadas?

O Campeonato é muito longo, dura nove meses, haverá entrementes a prova europeia e, por isso mesmo, se levantam estes pontos de interrogação.

Stankovic, que teve o condão de pôr neste apuro de forma física os seus jogadores saberá, com certeza, dosear os treinos, na segunda volta, por forma a evitar que a acumulação de fadiga faça estragos mais cedo do que o desejaria o F. C. Porto. Se ele tiver o condão de manter a uniformidade desta linha tradutora de velocidade de resistência da flexibilidade muscular dos seus homens, até final do Campeonato, fará do F. C. Porto, com toda a certeza, um candidato muito sério ao título. Os nossos receios de que, a meio da segunda volta, possa haver uma quebra, talvez não se justifiquem se, entretanto, lá chegar com um avanço de pontos tal, que não dê para sobrecarga nervosa e  que, ao mesmo tempo, sirva de estímulo. O F. C. Porto não vai atravessar a primeira volta, com certeza, com  a facilidade de ontem, jogo em que marcou seis golos mas em que poderia ter obtido outros tantos.

Cubillas – o fabuloso

A equipa, como expoente de técnica e como manifestação de conjunto, não impressionou tanto como a prova de força de que fez gala. Porque há ainda imprecisões nos passes, não há uma perfeita sincronização, nem se poderia exigir perfeição numa altura em que o Campeonato Nacional vive o seu 1/30 avos. Mas a base físico-atlética em que assenta a técnica de cada uma das suas individualidades, permite-lhe camuflar, ou, melhor, fazer esquecer essas deficiências, aliás, naturais em quem só agora principia a competir a sério. Não vamos escrever que o F. C. Porto foi uma «máquina», na ideia de tudo lhe ter saído bem, de tudo lhe ter corrido certinho. Mas foi indiscutivelmente um cilindro que «pisou» um adversário brioso mas impotente. Foi uma espécie de tufão que levou tudo na sua frente, com velocidade de pernas e de bola – o que é muito importante – em que teve lances que prometem uma época em cheio.

Cubillas voltou a ser o maestro de uma orquestra que ainda está a fazer a afinação, porque há «músicos» novos. Temos para nós que os adeptos portistas nunca o viram em forma tão apurada, tão desenvolta, tão azougada, tão irresistível, porque agora sim, ele está onde mais útil se pode revelar e onde mais gosta de jogar: lá na frente.

A um futebolista fabuloso como ele não se pode aplicar um espartilho, invertendo os cânones do jogo. Não se lhe pode pedir que seja ele a servir uma táctica, mas tem que se criar uma estratégia para as suas características.

Sempre nos pareceu ser esse o erro nos ultrapassados treinadores Gutmann e Aimoré, obrigando-o a defender, a «marcar», muitas vezes, quando o seu génio de criador é o de um homem de ataque por eleição, a quem se deve dar a liberdade, a quem se deve dar asas para voar para cima da baliza adversária como uma seta.

Ele é um verdadeiro interior de vaivém, empregando a terminologia ortodoxa, e nunca um médio-armador, isto é, que tem de prestar apoio directo aos seus defensores.

Ontem, Cubillas tantas vezes apareceu em posição de tiro, no centro do ataque, que mais parecia um «ponta-de-lança» de raiz. Marcou dois golos, talvez tenha falhado o triplo por uma unha negra, mas foi enorme. O adversário nunca conseguiu descortinar o melhor processo de o amarrar.

O União, com efeito,  a nosso ver, cometeu o erro de o imaginar um centro-campista, colocando Pavão à sua volta, mas nem este, que é médio, teve velocidade de arranque nem estofo para o segurar. Não foi feita a rectificação que se impunha. Cubillas foi, na prática, um centro avançado, sendo o ponto fulcral de algumas maravilhosas «tabelas» que requerem tempo de serem instintivamente adivinhadas pelos seus intérpretes, para que o lance saia como está no «risco».

O Tomar precisava de ter tentado amarrar Cubillas com um homem habituado às tarefas de «marcação», nunca com um homem de meio-campo que, de tanto obrigado a recuar, para tentar atrapalhar o seu par, acabou por não prestar apoio aos seus avançados, toda a tarde desamparados, porque o União, vá-se desde já adiantando, mais não pôde fazer do que esboçar três ou quatro contra-ataques.

Tomar teve sorte com o sorteio

Mas este F. C. Porto sensacional da abertura do Campeonato, não é só Cubillas. Ontem, mesmo sem necessidade de atirar cá para fora tudo o que sabe e pode, também foi, por exemplo, Octávio, parecendo já completamente «enraizado» – os bons jogadores acabam por ser úteis em qualquer clube, mesmo no Norte, onde se espirra e onde se ganha reumático; foi Oliveira, que, se já corria, agora parece uma lebre; foi Dinis, que tem dinamite no pé esquerdo; foi também, por exemplo, Gomes, que teve 38 minutos para mostrar o que vale um homem-golo e foi o suficiente para marcar por três vezes, e para pôr o selo de indiscutível valia no panorama do futebol de ataque portista, a despeito de se ter lesionado no desafio com os ucranianos e não mais ter competido. Não está rodado.

Foi muito fácil para o F. C. Porto. Pois foi. Às fraquezas naturais de uma equipa que não pode ter a rodagem do adversário, acresceu a circunstância do F. C. Porto ser forte de mais nesta altura para qualquer equipa, quer para o União de Tomar, para afinal de contas qualquer dos clubes que se preocupam, antes de mais, com o problema da sua sobrevivência na I Divisão.

Foi tão fácil que Stankovic não pôde ver a sua defesa, aliás «comida» com responsabilidades no golo de Bolota, mas sem tempo para se redimir. Por falta de trabalho.

Apesar de tudo, a indicação que nos ficou foi esta: Simões está um poço (sem fundo) de energias, mas não tem rotina do lugar; Murça pode vir a ser muito mais útil a lateral, pela colaboração que lhe é tradicional na manobra atacante. Vê-se, sem custo, que ele se sente amarrado, que gostaria de ir por ali abaixo fazer centros e até atirar o seu «morteirozinho». Temos, pois, que a única reserva a pôr, neste momento, é ao quarteto defensivo «azul-branco». É preciso esperar que seja posto à prova noutras condições.

Ontem, que eram quatro para Bolota e Camolas, os quais, repita-se, por seu turno, estavam muito desamparados, porque o União meteu nove homens no meio-campo, por via de regra. Não terá sido para evitar mais golos, foi, com toda a certeza, por força… da força insuperável do F. C. Porto, que a caminhar para a baliza se adivinha já uma formação de nível europeu.

O União de Tomar acabou por ter sorte no sorteio. Sorte, sim, porque este jogo das Antas é sempre de perder. Em qualquer altura. Logo, é um excelente motivo para 90 minutos de rodagem a sério, uma boa pedra de toque para Francisco Andrade aferir das possibilidades de conjunto e das suas individualidades, logo no primeiro dia. Na altura ideal, portanto.

A equipa bateu-se com uma generosidade sem limites, foi de uma lisura de processos elogiável, mas deu-nos a sensação de estar ainda muito atrasada na sua condiºão geral. Os defesas jogaram em punhos de renda e hoje um «back» tem de ser valente, não pode voltar a cara à luta, tem de saber meter o ombro, tem de saber lutar sem tergiversar, embora sem nunca ultrapassar os limites que a lei permite. Pois, se bem analisámos o comportamento dos nabantinos, eles saíram das cabinas já condenados, já derrotados, nem mesmo o facto de terem estado sete minutos a ganhar os galvanizou e lhes deu a sensação de que poderiam cometer uma proeza, porque, desde os primeiros pontapés, tornou-se por de mais evidente a diferença de velocidade entre as duas equipas. Sem falar no resto…

Falta a prova dos nove à defesa portista

Por isso mesmo é que o F. C. Porto sofreu o golo, ficou a perder e manteve-se impávido e sereno – dentro da sua fogosidade actual – como se nada tivesse acontecido, confiante em que a sua hora chegaria. Ao intervalo a sua vantagem poderia ser já de vários golos, tantas foram as oportunidades que Júlio e Cubillas perderam «por um cabelo», ali a dois passos da baliza à sua mercê. O peruano entrou pelo eixo da defesa com uma facilidade impressionante, mesmo quando, na segunda parte, já sem forças, os defensores de Tomar se fecharam ainda mais no eixo longitudinal do terreno. Só que Octávio e Cubillas jogavam para as laterais, obrigavam o leque a abrir-se e os últimos 35 minutos foram verdadeiramente dramáticos para os visitantes.

Já escrevemos, há dias, aqui, que o F. C. Porto há vários anos não vinha jogando tão bem pelos extremos como agora. Não afunila, muda rapidamente de flanco, atrapalha as cortinas defensivas contrárias, despista-as, põe-nas fora de combate e depois é só esperar que lá no meio o ponta-de-lança salte bem, esteja atento ou que seja devidamente «dobrado» por uma desmarcação de qualquer companheiro que se encaminhe no sentido da baliza.

Já o repetimos: o F. C. Porto marcou seis – deixou outros tantos golos por marcar: por erro milimétrico ou à «tabela». Sem falar no remate de Júlio à barra (oitavo minuto) e de Gabriel ao poste (34.º minuto). Mas a superioridade do F. C. Porto deu para tudo, deu para a benevolência do seu público e para as experiências que Stankovic fez quando mandou sair um defesa, recuou Teixeira e mandou entrar Ademir. Essa circunstância fez com que o F. C. Porto jogasse, no último quarto de hora, com «3x4x3» ou «3x3x4», com a vantagem de tanto Cubillas como Ademir saberem entrar na grande área como faca na manteiga e de atirarem ao golo com a espontaneidade de um morteiro que sai da boca de um canhão.

Portanto, e em conclusão: um F. C. Porto impressionante de força, de velocidade, de alegria de jogo, factores que só por si lhe garantiram uma superioridade incontestável. O F. C. Porto, aliás, com alguns jogadores já em forma técnica muito apreciável até para a época que atravessamos. O conjunto tem bom andamento de afinação, mas com reservas quanto a labor defensivo, pelo menos do quarteto ontem utilizado. A prova dos nove tem de ser tirada num jogo fora das Antas.

Palmadinhas nas costas, não

Dentro da correcção inexcedível com que o desafio decorreu, tudo foi fácil também para o árbitro, que até se excedeu na sua confiança. Um árbitro não tem nada que dar palmadinhas nas costas do avançado que errou por pouco o remate. É perigoso. Pode ser mal interpretado pelos «outros», os do lado contrário.»

(“A Bola”, 08.09.1975 – Crónica de Justino Lopes)

(Imagens – “A Bola”, 08.09.1975)