“O ETERNO PERIGO DO CONTRA-ATAQUE…”

Estádio 25 de Abril, em Tomar

Árbitro – Fernando Alberto, do Porto

U. TOMAR – Silva Morais (3); Kiki (2), Zeca (2), Faustino (2) e Carvalho (2); Barrinha (1) (60m – Fernando (1)), Sarmento (2) (68m – Cardoso (2)) e Florival (2); Pavão (2), Camolas (3) e  Bolota (3)

ACADÉMICO – Marrafa (3); Brasfemes (2), Alhinho (3), Freixo (2) e Martinho (2); Gervásio  (3), Gregório (2) (45m – Vitor Manuel (2)) e Mário Campos (2); António Jorge (2), Vala (1) e Costa (3)

0-1 – Vala – 26m
1-1 – Camolas – 34m
2-1 – Bolota – 88m

«Aos 60 minutos, saiu Barrinha tendo entrado Fernando (1) para o seu lugar e, oito minutos depois, Sarmento cedeu o seu posto a Cardoso (2).

No recomeço, Vitor Manuel (2) surgiu no lugar de Gregório.

Cartões: amarelo, aos 32 minutos e encarnado, aos 37, para Vala, por meter intencionalmente a mão à bola.

Ao intervalo, 1-1.

0-1, aos 26 minutos, por Vala, com um pontapé forte disparado à entrada da área e que deu a sensação de apanhar a defensiva tomarense desprevenida.

1-1, aos 34 minutos, por Camolas. Centro de Pavão e Camolas, chegando à bola primeiro que Marrafa e Freixo, tocou o esférico para o fundo das balizas, já desguarnecidas.

Na segunda parte, 1-0.

2-1, aos 88 minutos. Bolota pegou no esférico cá atrás, progrediu sem encontrar oposição directa dos homens de Coimbra e, isolado frente a Marrafa, atirou em jeito, num golo da sua total responsabilidade.

———-

Se o leitor bem se recorda, Francisco Andrade, o treinador dos tomarenses, escolheu o «seu» Académico para início do campeonato da sua nova equipa: «O jogo de hoje, tal como o da semana passada frente ao F. C. Porto, não faz parte do nosso campeonato. Só no próximo domingo é que o União de Tomar iniciará o «seu» campeonato» – afirmou o técnico nabantino após a derrota, no domingo anterior, do União de Tomar frente ao Benfica, como que procurando fazer ressaltar o ingrato princípio de Campeonato que o sorteio traçara aos tomarenses: Porto (nas Antas) e Benfica (em casa), dois adversários que – não seria necessário que Francisco Andrade o proclamasse – pertencem bem a «outro campeonato» que não aquele em que têm assento tomarenses e conimbricenses, os adversários de ontem, à tarde.

Começou, pois, bem para os tomarenses, o «seu» campeonato, mas – e nada nos custa adiantá-lo desde já – começou também com uma certa felicidade, já que o triunfo da equipa nabantina surgiu precisamente com o último lance do encontro, exactamente numa altura em que se adivinhava mais o tento dos «académicos» que, muito embora reduzidos a dez unidades, lutavam entusiasticamente por um triunfo que esteve prestes a acontecer e que Bolota, numa jogada pessoal, toda ela fundida no cadinho da determinação e do inconformismo, não só contrariou como trocou de destino…

Deixando a sua missão atacante entregue a apenas dois homens (Camolas e Bolota), o União de Tomar cedo deixou perceber qual a sua maior preocupação frente a um adversário de características bem definidas: a luta pela supremacia no meio-campo, tentando, tanto quanto possível, roubar ao seu categorizado adversário o poder de iniciativa a partir dos meio-campistas. Tarefa que, convenhamos, não foi fácil e nem sempre possível, pois que foi exactamente nesse espaço de jogo que o «onze» de Crispim se apoiou para com um futebol de indiscutível melhor valia técnica e duma muito maior variedade de lances, construir uma série de lances ofensivos que poderiam ter sido o suficiente, senão para ganhar o jogo, pelo menos para que os visitantes regressassem a Coimbra com um ponto no seu activo.

O jogo de Tomar, foi, pois, um curioso diálogo de meio-campo (Gervásio, Gregório, Mário Campos, dum lado; Barrinha, Sarmento, Pavão, e Florival, do outro) e o desequilíbrio, que nunca chegou a ser muito flagrante, pendeu quase sempre a favor dos «académicos», pois que, acima do resto, era deste lado que estava Gervásio, em tarde de magnífico acerto, a «tirar» o esférico ao adversário e a metê-lo, lá na frente, por detrás da defensiva tomarense, em constantes solicitações a Costa e António Jorge, esforçados mas desamparados pela saída de Vala, a unidade que terá faltado ao futebol atacante de Coimbra para cobrar o rendimento da tarde inspirada de Gervásio…

Gervásio foi, pois, o desequilíbrio numa partida equilibrada, mais: a contrariedade que o meio-campo de Tomar encontrou e que não conseguiu superar. Mas os tomarenses, se não possuíram Gervásio, puderam dispor de Bolota para, num «raid» pessoalíssimo, conseguir aquilo que o médio de Coimbra inúmeras vezes solicitou de Costa e António Jorge e que os dois avançados de Coimbra não foram capazes de realizar, um golo que desempatasse o jogo e que surgiu a favor de quem menos o prometera. Não ter Gervásio e dispor de Bolota, eis a questão…

Com duas ou três intervenções de valor o guardião Silva Morais segurou o resultado no período de insistência dos «académicos» e os restantes homens do sector recuado foram todos muito iguais, com Kiki atento e esforçado no apoio ao contra-ataque da sua equipa e Zeca discreto e seguro como como lhe é peculiar. Barrinha, no «miolo», terá sido o menos certo, mais preocupado no desfazer que no construir o contra-ataque da sua equipa. Florival, muito apagado no período inicial, subiu bastante na segunda parte, para acabar a jogar muito bem. Pavão está longe da sua melhor «forma» e procurou esconder essa contrariedade com uma aplicação entusiástica. Bolota e Camolas foram o ataque tomarense. O primeiro, pujante, teve o mérito de saber construir o triunfo da sua equipa com um golo «inteiramente seu» e o segundo foi um lutador do primeiro ao último minuto, travando com Alhinho um duelo que chegou a entusiasmar. Ganhando e perdendo lances…

Marrafa não teve culpas nos tentos e o de Bolota levava mesmo o selo do golo. Alhinho fez do seu «diálogo» com Camolas um dos aliciantes da partida. Brasfemes e José Freixo muito iguais. Ambos bem. No «miolo» o melhor foi, à distância, Gervásio. A segurar a bola no período de maior assédio – ponta final do primeiro meio-tempo – dos locais, ou na ponta final da partida, a tentar esconder a ausência de Vala, solicitando Costa e António Jorge em toda a frente do seu ataque, o «seis» do Académico foi, indiscutivelmente, principal figura do encontro. Gervásio que, pelo acerto do seu labor, não merecia (pelo menos ele) perder… Mário Campos, muito bem na primeira parte, quebrou nitidamente no período final. Na frente, António Jorge e Costa, pouco apoiados – a sua equipa jogou durante 53 minutos com menos um jogador – foram esforçados e teimosos na sua luta, desigual, com a defensiva local. Melhor Costa, por mais lutador e com mais força para dialogar… Vitor Manuel entrou para o lugar de Gregório, numa substituição bem vista e que se destinava a compensar, com a entrada um jogador jovem e com muita pujança, a ausência de Vala. E não desmereceu, antes pelo contrário, correspondendo ao esforço que se lhe exigiu. Com bom toque de bola, Vitor Manuel demonstrou poder lutar por um lugar na equipa principal…

Há que definir, com urgência e exactidão, o problema que se avoluma de jogo para jogo – da utilização dos «cartões amarelos» quando os jogadores jogam a bola com a mão.

Em Coimbra, fez ontem oito dias e no dizer do nosso camarada Aurélio Márcio, quase que se jogou andebol durante o Académico-Porto, perante a indiferença (ou a colaboração) do «juiz» de campo. Ontem, em Tomar, o Académico – uma das equipas que, em Coimbra tinha podido jogar com a mão a seu belo prazer – viu-se, num ápice, reduzido a dez unidades por expulsão de Vala, punido, no espaço dois ou três minutos, com dois «amarelos» por ter jogado a bola com a mão.

O «juiz» portuense Fernando Alberto esteve bem nos «cartões de Vala» que, por sua vez, se poderá considerar vítima (em Tomar) das liberdades desfrutadas (em Coimbra). De qualquer forma, o problema persiste, à procura duma solução que estabeleça um critério único, para se evitar o que aconteceu com Vala, em dois domingos seguidos, para o mesmo campeonato e para o mesmo futebol!

O olhar perplexo dos colegas e adversários – e  do público também – para a consequência duma decisão (acertada) do árbitro portuense é um apelo para uma tomada de posição definitiva, que, duma vez para sempre, acabe com estas situações dúbias, que não prestigiam nada nem ninguém.»

(“A Bola”, 22.09.1975 – Crónica de Rebelo Carvalheira)

(Imagem – “A Bola”, 22.09.1975)