“DOIS GOLOS DE RECARGA SALVARAM ACTUAÇÃO MODESTA”

Estádio Municipal de Guimarães

Árbitro – Fernando Alberto, do Porto

GUIMARÃES – Sousa (2); Alfredo (1), Artur (2), Torres, «cap.» (2) e Osvaldinho (1); Pedroto (1) (66m – Ferreira da Costa (1)), Almiro (2) e Abreu (2); Pedrinho (2) (61m – Abel (1)), Tito (3) e Rui Lopes (1)

U. TOMAR – Silva Morais (1); Kiki (1), Calado (2), Faustino, «cap.» (2) e Zeca (1); Pavão (1) (70m – Caetano (1)), Barrinha (1) (45m – Fernando (1)), Sarmento (1) e José Luís (1); Camolas (2) e Bolota (1)

1-0 – Tito – 17m
1-1 – Bolota – 26m
2-1 – Abreu – 32m
3-1 – Ferreira da Costa – 83m

«Substituições: No segundo tempo, Pedrinho, lesionado, cedeu o lugar a Abel (1) aos 16 minutos e Pedroto saiu aos 21 para entrar Ferreira da Costa (1).

Substituições: Quando do regresso para o segundo tempo, Fernando (1) ocupou o lugar de Barrinha e mais tarde, aos 25 minutos, saiu Pavão e entrou Caetano (1). Resultado do primeiro tempo: 2-1.

1-0, aos 17 minutos, por Tito. De fora da área, Abreu visou a baliza. Silva Morais mergulhou sobre a direita, repelindo o esférico. Tito acorreu com presteza à recarga, que fez sem oposição nem dificuldade de qualquer espécie.

1-1, aos 26 minutos, por Bolota. Contra-ataque rápido, com Pavão conduzindo a bola pelo lado direito. O centro não foi cortado e Bolota, de cabeça, empurrou o esférico para a baliza.

2-1, aos 32 minutos, por Abreu. Alfredo adiantou-se e centrou raso. Foram ao lance Calado e Tito. A bola «sobrou» para Abreu e este, com um remate colocado alcançou o golo.

Resultado do segundo tempo: 1-0.

3-1, aos 38 minutos, por Ferreira da Costa. Tito, no lado esquerdo centrou muito bem para Abel que, com a cabeça, baixou o esférico para Ferreira da Costa. Silva Morais tentou interpôr-se, mas Ferreira da Costa, com um toque subtil, fez passar a bola exactamente pela única abertura de que dispunha para fixar o resultado final.

Vitória de Guimarães, 3-União de Tomar, 1.

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Mais de 50 minutos demorou o Vitória de Guimarães a alcançar o golo da tranquilidade, o golo que o poria a coberto de um lance de surpresa, a concluir contra-ataque rápido, como sucedera no tento em que Bolota, bem depressa, aliás, respondera ao golo inicial de Tito, repondo então a igualdade. O golo de Tito foi obtido de recarga, como de recarga viria a resultar o tento de Abreu, que, antes ainda do intervalo, colocou novamente o Vitória na posição de vencedor.

Duas recargas-dois golos salvaram actuação modesta do «onze» vimaranense, que ouviu assobios dos seus adeptos mais exigentes e exaltados e menos conformados com uma exibição de algum modo dificultada pela concentração defensiva do antagonista.

Recordado por certo de anterior partida pregada ao Vitória no Estádio Municipal de Guimarães, o «onze» de Tomar acautelou a defesa, organizando duas linhas de quatro jogadores, e deixando apenas na frente Camolas e a sua velocidade e Bolota e a sua pertinácia. Desta feita, porém, o êxito não acompanhou os forasteiros, mais lentos que da outra vez, menos decididos, menos expeditos e menos rápidos na passagem da defesa para o ataque.

Todas estas circunstâncias, favorecendo o Vitória, não lhe permitiram, porém, mais que obter o triunfo, aliás merecido, sem, todavia, realizar actuação que regalasse os seus adeptos. É certo que houve, na equipa, ausências bem sentidas. Alfredo, por exemplo, não terá substituído mal Ramalho na função defensiva nem no trajecto ofensivo, que ele soube percorrer quase sempre da melhor maneira. Mas conclui, em geral, mal os lances, o que sucedeu, aliás, também, com Osvaldinho, no outro lado.

Artur, que alinhou ao meio da defesa, cumpriu, sem dúvida, a tarefa defensiva, mas por aí se quedou.

Ora, sem defesas-alas que se transformassem em extremos de boa qualidade, nas situações para o remate, a grande e marcada tendência vimaranense para atacar, quase exclusivamente pela faixa central do terreno, degenerou em exibição modesta e foi, ao mesmo tempo, facilidade entregue à avolumada defensiva dos adversários.

Acrescente-se, ainda, a carência de velocidade sentida na acção dos médios, sobretudo Pedroto, e ter-se-á ideia muito aproximada do modo desaconselhável como o Vitória agiu.

Almiro, pela sua constante movimentação atrás e à frente, Pedrinho e Tito, pelas suas deambulações, foram os jogadores locais que mais procuraram superar uma exibição mais modesta que a esperada. Mas Pedrinho, ora na direita, ora na esquerda, foi sempre mal servido e solicitado em regra tardiamente. Tito, com o seu apurado sentido da área, esse conseguiu, de facto, ser o elemento desejado, o homem decidido e também decisivo para o resultado da luta.

Repare-se que foi dele a recarga vitoriosa do primeiro golo, Foi ele quem impediu Calado de afastar bem a bola, o que permitiu a Abreu a recarga vitoriosa do segundo golo. Foi ele, ainda, quem solicitou muito bem Abel para o lance do último tento, cuja obtenção Abel entregou também muito bem a Ferreira da Costa, que, embora tenha entrado tardiamente no jogo, imprimiu outra dinâmica ao futebol de ataque vimaranense.

Com todas as reservas postas à actuação do Vitória e sabendo-se, como já foi dito, que os vimaranenses mereceram, mesmo assim, ganhar sem reticências, é fácil de deduzir que o União de Tomar se tornou adversário fácil em demasia, incapaz de tirar proveito da lentidão do jogo adversário e da sua tendência para atacar por faixa demasiadamente estreita. Tudo isso, terá permitido aos visitantes impedir outro resultado mais desnivelado e nem mesmo a igualdade obtida, a nove minutos do descanso, serviu de estímulo, como servira na temporada anterior, para uma partidinha pregada ao Vitória. Ontem, os nabantinos nem um susto chegaram a pregar. Camolas bem se esforçou, Bolota ainda lutou, mas a preparação do contra-ataque que os lançasse a caminho do golo foi quase sempre mastigada, pastosa, lenta e complicada. O que deu a Artur, e sobretudo a Torres, tempo de sobra para impedir momentos de aflição.

Antes do intervalo, houve ainda um remate de Camolas que saiu a rasar o poste e, já depois do 2-1, houve outro lance em que Sousa perseguiu Sarmento, que tinha a bola à sua frente e que por seu turno perseguia, tendo-se Sousa arrojado contra as suas pernas, derrubando-o numa atitude que nos não pareceu facilmente aceite pelas leis do jogo mas que o árbitro aceitou bem.

Depois do descanso, foi ainda mais inócuo o contra-ataque forasteiro, incapaz de criar perigo autêntico. E só a vantagem de um golo, que durante muito tempo o Vitória deteve, é que ajudava a emprestar ao jogo uma réstia, aliás muitíssimo pequena, de emoção ou de dúvida. Que não de interesse.

Com o tento de Ferreira da Costa tudo se resolveu e a monotonia, até então reinante, passou a pesar sobre o jogo como chumbo. O final foi, de facto, um alívio. Não pela dúvida quanto ao resultado. Mas pela falta de vibração e de interesse, pelo modo como o jogo se arrastou, sem velocidade, sem entusiasmo, sem conteúdo técnico-táctico ou menos aceitável.

Referidos os pormenores que fizeram sobressair os jogadores de ambos os lados, quer no bom quer no mau sentido, quer também no bom e mau contributo dado ao espectáculo, restará falar da arbitragem. De que gostámos francamente, apenas com a ressalva da dúvida quanto ao tal derrube de Sarmento pelo guardião Sousa. O árbitro, no entanto, estava mais bem colocado do que nós para avaliar o lance.»

(“A Bola”, 29.12.1975 – Crónica de Álvaro Braga)

(Imagem – “A Bola”, 29.12.1975)