“UMA FOLGA MERECIDA APÓS A CAMPANHA NORTENHA

FÁCIL TOMAR O PODER FRENTE A UM TOMAR SEM PODER”

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro – Ismael Baltasar, de Setúbal

BENFICA – José Henrique (2) (70m – Bento (1)); Artur (3), Barros (2), Messias (2) e Bastos Lopes (2); Toni, «cap.» (3), Vitor Martins (2) (38m – Nelinho (2)) e Shéu (3); Nené (3), Jordão (3) e Moinhos (3)

U. TOMAR – Silva Morais (2); Kiki (2), Calado (2), Faustino, «cap.» (2) e Zeca (2); Barrinha (1) (58m – José Luís (1)), Sarmento (1), Pavão (1) e  Florival (2); Bolota (2) (67m – Caetano (1)) e Camolas (2)

1-0 – Messias – 21m
2-0 – Nené – 36m
3-0 – Jordão – 48m
4-0 – Jordão – 50m
5-0 – Jordão – 79m
5-1 – Florival – 80m
6-1 – Nené – 90m

«Suplentes: Bento (1), Eurico, Nelinho (2), Diamantino e Romeu.

Suplentes: Quim Pereira, Cardoso, José Luís (1), Fernando e Caetano (1).

Na primeira parte, 2-0.

Aos 21 minutos. Falta sobre Toni, livre cruzado por Vitor Martins, remate de cabeça de Messias, que se elevou muito bem.

Aos 36 minutos, 2-0. Novo cruzamento de Vitor Martins da direita, toque de cabeça de Shéu, a oferecer o golo a Nené, que cabeceou à vontade.

Aos 38 minutos, Nelinho substituiu Vitor Martins, lesionado.

Na segunda parte, 4-1.

Aos 3 minutos, 3-o. Moinhos, na extrema direita, «papa» dois defesas, em dribles curtos, chuta, o guarda-redes larga, Jordão mergulha e, de cabeça, faz o golo.

Aos 5 minutos, 4-0. Shéu pica da esquerda. Nené remata de cabeça, é provável que a bola entrasse, mas Jordão, à cautela, dá-lhe o último toque.

Aos 13 minutos, José Luís rende Barrinha.

Aos 22, entra Caetano para o lugar de Bolota.

Aos 25, Bento ocupa a baliza, saindo José Henrique.

Aos 34 minutos, 5-0. Cruzamento longo de Bastos Lopes, cabeça pouco convicta de Jordão, a bola descreve um arco, o guarda-redes está adiantado e ela sobrevoa-o e anicha-se.

Aos 35 minutos, 5-1, numa bela recarga de Florival, com o pé esquerdo. Aos 42, sai Messias, lesionado numa clavícula, de modo que o Benfica joga com dez homens os três últimos minutos.

No último minuto, 6-1. Marca-se um «livre» e Jordão, com um toque de cabeça oferece o golo a Nené.

———-

O Benfica mereceu bem esta folga de ontem, depois da sua árdua campanha nortenha, tão custosa (Antas e Bessa) quanto proveitosa (3-2 e 4-1). Foi assim uma espécie de jogo-treino com antigos reservistas, todos ainda de meias vermelhas, pois nada menos que sete dos homens de Tomar, ontem em jogo eram ex-Luz: Silva Morais, Kiki, Calado e Zeca (quase toda a defesa, por conseguinte), Sarmento, Pavão e Camolas.

Ressalve-se, desde já, que o Benfica não encontrou qualquer outro tipo de facilidades que não fossem aquelas que resultam, inevitavelmente, da grande diferença de poder entre as duas equipas: os campeões, já de novo isolados no comando, e o União entre os penúltimos. Em pontos, 29-10. Tão-só… diz tudo!

Com um Tomar assim sem poder, fácil se tornou ontem para o Benfica assumir e exibir a sua força: dois golos no primeiro tempo, quatro depois e um consentido, quando a conta já estava em 5-0. Tudo normal, inclusivé a evolução do resultado, porque, como é da norma, o mais fraco faz das fraquezas forças, organiza-se para aguentar o 0-0 inicial e sente-se estimulado enquanto o marcador não funciona. Vem o primeiro golo (no caso, tardou 21 minutos) e vacila. Do segundo em diante, tanto se pode chegar à meia-dúzia (foi o caso) como calhar mais ou menos um ou dois.

Esta a história do jogo. Toda ela.

Podemos, sim, falar de jogadores.

Jordão e Nené

Para começar, Jordão, porque fez três golos. Seguidos. O tal «hat-trick» celebrado pelos ingleses. O truque do chapéu. Só que Jordão não precisou de qualquer sorte de prestidigitação, tudo claro como água, simplesmente classe, nítida, apesar de umas amostras de nevoeiro que, de vez em quando, apareceu na Luz.

O angolano está numa bela forma, bem a mostrou no Porto (Antas e Bessa), não era agora contra o Tomar, na Luz, que se ia desmentir. Só que, às vezes estes jogos fáceis amolecem os craques e Jordão até parece molengão mesmo, quando não está em boa forma. Agora, está. Fez dois golos de cabeça e, no outro, deu-lhe com os pés, à queima, sobre o risco, roubando a autoria a Nené, que cabeceara antes, mas Jordão retribuiu, porque, no sexto golo do Benfica, aconteceu precisamente a inversa: foi o angolano quem, de cabeça, ofereceu a Nené para fechar a conta.

A dupla Jordão-Nené assinou cinco dos seis golos, sem sombra de «fossanguice», talvez até pelo contrário, houve até umas deixas de um para o outro que talvez se escusassem, mas é bonito, futebol é jogo de conjunto, nada de egoísmos, Jordão e Nené estão a ligar muito bem.

E Jordão a concluir muito bem. Nené não, falhou muito golo que parecia fácil, há ali uns pormenores de execução que Wilson tem de ver, pois todo o craque, por mais craque, tem sempre algumas coisas mais para aprender. A posição dos braços, a posição do tronco, ao chutar. Por que saem altos tantos remates de Nené?

Pormenores curiosos quanto aos golos do Benfica:

– Quatro foram marcados de cabeça: primeiro (Messias), segundo (Nené), terceiro (Jordão) e quinto (Jordão).

– Três resultaram de passes de cabeça feitos ao marcador: segundo (passe de Shéu), quarto (passe de Nené) e sexto (passe de Jordão).

…Mas não é justo encerrar este capítulo referente ao ataque do Benfica, sem uma palavra de apreço para Moinhos que, sem ter marcado qualquer golo, foi um dos benfiquistas que mais influência teve na quebra da defesa tomarense, graças à sua velocidade e à sua movimentação constante. Está a driblar curto e a correr largo com muita eficácia, e, no primeiro aspecto, foi notável a sua jogada que motivaria o quinto tento. Ocupa agora, durante a maior parte do tempo, a extrema-direita, o lugar onde muito se distinguiu (no Boavista) e que é, nitidamente, onde se sente mais à vontade.

Nené cede-lhe a posição, atarda-se agora mais pelo centro do terreno e é por isso que falha agora mais golos: é que, ali, as oportunidades aparecem-lhe em maior quantidade. De qualquer modo, como vimos, o seu entendimento com Jordão é perfeito, não se atropelam, pelo contrário, mas também é verdade que (sem Simões e sem Diamantino) o Benfica não tem um atacante, chamemos-lhe assim, esquerdino de carreira e, às vezes, nota-se a falta.

Artur e Messias

Como também Artur, ontem (e não só ontem), foi mais um avançado do que um defesa, mais se acentuou essa tendência direitista do Benfica («honny soit»…) e a verdade é que ontem, quase todos os golos (aqueles cruzamentos muito bem tirados por Vitor Martins, os dribles de Moinhos) vieram da direita, sem esquecer muitos outros lances também perigosos aí criados e que só não resultaram, porque não podem entrar todas.

Artur, dizíamos, foi mais um avançado e foi, mas sem faltar à sua missão defensiva, que, aliás, pouco o tomou. O União nunca teve mais do que dois homens à frente, como lhe é habitual (Camolas e Pavão), às vezes, até só um, chegando e sobejando Bastos e Barros para as encomendas e também Messias, que meteu um golo, é certo, mas as suas idas à frente não resultavam de raides, digamos, mas de umas saltadas para dar uns saltos, de cada vez que havia assim «corner» ou «livre» para pingar.

Jogou Artur nos cem metros do seu flanco e bem, com força. Pois é, demais, ia estragando tudo logo de entrada, levou a mal uma entrada de Bolota, «cegou»e entrou pior-que-mal ao primeiro que lhe apareceu, o bom do Zeca. É uma chatice, até porque Artur ainda não deixou de fazer progressos (repete-se: todo o craque tem sempre que aprender, o próprio Eusébio tinha defeito no jogo de cabeça), Artur melhora muito no trato da bola. Falta o outro trato. E melhora também no processo de jogo, teve umas quantas aberturas longas muito bem vistas, mais úteis, muitas vezes, do que as desenfreadas correrias com a bola.

Messias fez um golo, mas «esteve» também no golo do União, se bem nos pareceu. Momentos antes, fora lá abaixo tentar mais um cabeceamento que lhe saiu mal, magoou-se na cara, talvez num olho e, de aí, porventura, que tenha visto mal o lance que proporcionou o golo único dos tomarenses. Mas, mesmo absolvido desse lance, a verdade é que ontem refinou no seu vício de complicar o que é fácil, com mais uma voltinha, uma demora para fazer «suspense». O adversário ontem deu para tudo e também é verdade que, em apertos, já ele não pode dar-se tanto a tais luxos.

Barros e Bastos não tiveram problemas, nem os criaram, idem José Henrique, não-idem para Bento, que teve o problema de sofrer um golo, mas sem culpa, porque Florival acertou em cheio.

Shéu e Zeca

O meio-campo do Benfica jogou bem, mormente Toni e Shéu, de princípio ao fim, no mesmo ritmo poderoso – ritmo e poder que bem se conhecem no Toni-em-boa-forma e que mais impressionam em Shéu, pela sua aparência mais frágil. Mas não, vai a todas, ganha os choques e os ressaltos e chega ao fim da hora e meia, a fazer «sprints» prolongados.

Vitor Martins também estava a jogar bem (deu os dois primeiros golos), mas saiu por lesão, dando assim ensejo a que Nélinho se mostrasse um jogador em evolução, menos saltitão, já com sentido posicional, a merecer, na verdade, algo mais do que as missões específicas de marcar o craque contrário.

Do lado do União, fez-se o que se pôde. O guarda-redes safou muito golo, mas pareceu-nos mal colocado no último de Jordão. Kiki teve menos trabalho, do que o pobre do Zeca, pois parece que, no Benfica, todo o mundo é extremo-direito (Moinhos e Artur, os mais assíduos). Calado em estilo, e Faustino, em esforço, ainda cortaram muito lance e receberam o auxílio possível dos homens de meio-campo.

Bom golo o de Florival, mas, do «miolo», foi Pavão quem mais se «soltou» para a frente. Sem proveito, mas tentou. Bolota e Camolas, apesar de todo o desamparo, ainda uma vez por outra fizeram correr os defesas do Benfica, mas foi sempre um esforço inglório.

Ismael

As coisas chegaram a estar mal afiguradas para o árbitro e para o fiscal do lado do terceiro anel, por causa dos azedumes de Artur, ainda com 0-0, mas vieram os golos e o povo serenou. Porém, à beira do fim, (havia 5-1) uma queda de Jordão, dentro da grande área, levantou novos protestos. Terá havido ou não derrube intencional, mas, se estávamos mal colocado para ajuizar, o árbitro também não se pode gabar de estar em cima e tanto assim que manifestou a sua dúvida, olhando para o fiscal, que não fez sinal nenhum.

Portanto, terá havido ou não falta para «penalty», mas houve, com certeza, durante todo o tempo, uma certa falta de mobilidade do árbitro.»

(“A Bola”, 19.01.1976 – Crónica de Carlos Pinhão)




(Imagem – “A Bola”, 19.01.1976)