“TORRES QUE METE GOLOS – E METE MUITO MEDO”

Campo da Amoreira, no Estoril

Árbitro – José Luís Tavares, de Setúbal

Estoril ESTORIL – Ferro (2); Vieira (2), João Carlos (2), Amílcar (2) e Carlos Pereira (1); Eurico (2), Nélson (1) e Quim (1); Norton (2) (68m – Cepeda (1)), Clésio (2) e Norberto (1) (45m – Torres (2))

U. TOMAR – Silva Morais (1); Romão (1), Florival (1), Cardoso (1) e Zeca (1) (62m – Carvalho (1)); Faustino (1) (62m – Caetano (1)), Barrinha (2), Sarmento (1) e José Luís (2); Camolas (1) e Bolota (2)

1-0 – Torres – 55m
2-0 – Clésio – 61m

«Substituições: Após o intervalo, Torres (2) substituiu Norberto. Aos 62 minutos, sairam, no União de Tomar, Zeca e Faustino e entraram Carvalho (1) e Caetano (1). O Estoril faria a sua última substituição aos 68 minutos, trocando Norton por Cepeda (1).

Ao intervalo: 0-0.

Na segunda parte: 2-0.

1-0, aos 55 minutos. Nélson marcou um «livre» na intermediária do União, com um pontapé em arco, a bola seguiu na direcção de Florival que calculou mal o salto e deixou a bola passar. Atrás de si, Torres aproveitou a oferta e fez um «chapéu» a Silva Morais, quando esta saía da baliza.

2-0, aos 61 minutos. Quim arrancou pelo lado esquerdo, levou a bola até junto da linha de fundo e, depois, atrasou para Clésio, o brasileiro flectiu um pouco para o centro e rematou rasteiro. Silva Morais lançou-se tarde, não chegou à bola, e ela entrou junto ao poste esquerdo.

No final: 2-0.

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Estoril-Tomar, um jogo de saldo, produto em fim de estação, que não chegou a ser espectáculo. foi um joguinho que também não enganou muita gente. A tarde prometia chuva e poucos foram os que acreditaram que valia a pena subir até à Amoreira. A receita não terá dado nem para pagar à Polícia.

No que respeita ao Estoril, não se poderia esperar muito. A equipa já tinha conseguido o que realmente queria – manter-se na Primeira Divisão. Até final do campeonato será o cumprir calendário numa calma bem merecida de quem soube conquistá-la a tempo e horas. Mas esperava-se mais do União. Isso sim, que a equipa está lá no fundo da tabela, é uma das mais sérias candidatas a baixar de divisão e, por isso, deveria tentar, pelo menos, um pontinho. É que só tentar não custava muito…

Tomar teve medo. Mesmo quando o Estoril lhe deu trunfos para construir o resultado que lhe convinha, Tomar não acreditou, retraiu-se e desconfiou. Apenas a defesa, já preparada para aguentar o mais que pudesse, jogava com certa confiança, bem apoiada por Faustino, que fez de «pivot», jogando ali na boca da sua área. Foi este o «truque» de Francisco Andrade. E a verdade é que resultou, porque o Estoril, jogando sem grandes incentivos, jogando para matar o tempo, não conseguia entrar na grande área do adversário. À medida que o tempo passava, mais se ia notando a falta de produtividade atacante do Estoril. Norton, Clésio e Norberto estiveram sempre bem marcados e o seu meio-campo não conseguiu resolver aquele problema que se chamava Faustino. Eurico não entrava. Nélson não acertava um passe, Quim perdia-se em dribles e toques de habilidade.

Entretanto, Tomar usava, como seria natural esperar-se, o contra-ataque. E aí, sim, aí falhou a equipa de Andrade. Mais por culpa dos jogadores, porque a verdade é que ainda não se exige que os treinadores marquem golos. Houve oportunidades de baliza aberta, que os dianteiros visitantes não souberam aproveitar. Camolas e Bolota, os únicos homens que o União deixou na frente, foram suficientes para criarem sérios embaraços à defesa do Estoril, mas mostraram-se nervosos demais para acertarem com a baliza.

O primeiro lance de golo possível pertenceu ao União. Havia 23 minutos de jogo quando Camolas não conseguiu acertar na bola, a poucos metros da baliza de Ferro. E a segunda oportunidade de golo, voltou a pertencer ao União. De novo Camolas, que entrou isolado na área e acabou por não conseguir o chuto. Ficou a dúvida se Carlos Pereira o terá impedido, de forma irregular, de fazer o remate. O árbitro não viu motivo para «penalty» e o lance perdeu-se.

Assim, de falhanço em falhanço, chegou o União de Tomar ao final da primeira parte sem marcar um golo. Sem se adiantar no marcador.

António Medeiros esperava ansiosamente pelo intervalo. Aquilo não estava a correr nada bem, a equipa parecia desarrumada, desentendida com o adversário e a entrada do «velho» Torres poderia resultar. Torres e a sua experiência. Torres e o medo que ainda provoca nas defesas. Medeiros jogou abertamente em Torres e durante o intervalo o «bom gigante» ficou no campo a aquecer. Pois quando os homens de Tomar regressaram, mais parecia que tinham visto o diabo. A segunda parte começou. Torres foi lá para a frente e aquela defesa arranjadinha, até então consciente, passou a viver amedrontada com aquele senhor alto que gosta de pombos e que tem um jeito especial para marcar golos de cabeça.

E como se não bastasse este estado de espírito à defesa de Tomar, o mal viria a agravar-se com o estado físico de Faustino, o tal trunfo de Francisco Andrade. Faustino não serviu mais de impedimento ao ataque do Estoril. Vagueou pesadamente pelas zonas da sua defesa, mas a sua substituição, a cerca de meia hora do fim, só veio a pecar por tardia.

Com tudo isto, morreram as esperanças de um bom resultado para Tomar. O Estoril, por seu lado, compreendeu bem o que se passava e foi-se «divertindo» a assustar o adversário, metendo bolas por alto, na área, muitas vezes de qualquer maneira, a pedir a intervenção de Torres. Foi num desses lances que surgiu o primeiro golo. Bola pelo ar, Faustino deixou passar por cima da cabeça e Torres marcou. E, para cúmulo, com o pé…

Novo golo seis minutos depois, com culpas para Silva Morais e o assunto estava resolvido. O União de Tomar desiludiu-se por completo e nem novas oportunidades de golo, que surgiram, foram suficientes para animar a equipa. Já agora, assinalamos os lances: aos 72 minutos, Camolas, sem o guarda-redes Ferro na baliza, demorou o remate e, quando o fez, já lá estava Carlos Pereira. Depois de tantas perdidas, Camolas arrancou um «livre» em raiva. A bola foi como uma bala embater, com estrondo, num poste. Foi azar, sim senhor, mas o azar não explica tudo. Explica, mesmo, muito pouco…

José Luís Tavares veio de Setúbal e foi o árbitro. Teve uma actuação serena, sem espalhafatos, sem exageros de autoridade. Os jogadores não complicaram e tudo correu bem. De salientar que não houve um único cartão amarelo. Pequenos erros que lhe notámos, não chegaram para prejudicar, em grande, o seu bom trabalho. Recordamos, por exemplo, um excelente tiro de Clésio, aos 44 minutos, que Silva Morais defendeu – e muito bem – para «canto». O árbitro estava desatento e não viu a mão do guarda-redes desviar a bola. O juiz de linha também não e não houve «canto». Mas uma desatenção, quem não tem?»

(“A Bola”, 10.05.1976 – Crónica de Vitor Serpa)

(Imagem – “A Bola”, 10.05.1976)