Março 2017


U. Santarém – Mação – 1-2
Cartaxo – Amiense – 1-2
U. Almeirim – Coruchense – 1-1 (1-2 g.p.)
At. Ouriense – Torres Novas – 0-1

Os jogos das meias-finais, esta temporada disputadas a duas mãos, estão agendados para os próximos dias 14 e 19 de Abril.

Os campeonatos distritais sofrem nova interrupção neste fim-de-semana, para entrada em cena da Taça do Ribatejo, com a disputa dos 1/4 de final, na qual marca presença um único clube da divisão secundária, o histórico U. Santarém.

Numa fase da prova já bastante avançada, a tendência de equilíbrio deverá imperar, atendendo inclusivamente a que os desafios desta competição se revestem de características especiais, em virtude do sistema de eliminação, em que tudo se joga em 90 minutos, constituindo-se em oportunidades para que equipas teoricamente menos fortes se possam suplantar.

Pese embora não seja possível extrapolar a partir do desempenho que as equipas vêm apresentando nos campeonatos para os jogos desta tarde, socorro-me, ainda assim, do historial recente de confrontos entre as formações que hoje se cruzam.

O “jogo-grande” desta ronda realiza-se em Almeirim, entre o União local e o Coruchense, prestes a sagrar-se Campeão Distrital (e por três vezes já vencedor da Taça), o que, contudo, não invalida que se possa dizer que não haverá um favorito claramente definido nesta partida. Até porque, curiosamente, não existe, neste caso, histórico recente de embates entre estes dois grupos, se exceptuarmos o jogo da 1.ª volta do campeonato, no qual a formação do Sorraia venceu então, no seu terreno, por 2-1. Um jogo de “tripla”, em que qualquer desfecho parece possível.

O Cartaxo, agora animado com o triunfo alcançado na última jornada do campeonato, recebe a visita de um clube vocacionado para a Taça do Ribatejo (contando também, no seu palmarés, com três troféus conquistados, o Amiense, que, na época passada, atingiu as meias-finais, e que, este ano, tão bom comportamento tem registado no campeonato. Nos jogos realizados entre ambos os clubes no Cartaxo, nas últimas seis temporadas, a turma da casa tem ligeira vantagem, com 2 vitórias e 2 empates, apenas tendo consentido um desaire… precisamente nesta época, por 2-0, no passado mês de Dezembro. O conjunto de Amiais de Baixo apresenta-se com algum favoritismo para o encontro desta tarde, mas uma surpresa não pode ser excluída.

Em Ourém, uma bastante irregular equipa do At. Ouriense tem a visita do pendular Torres Novas, que, tal como o Amiense reunirá maior dose de favoritismo. Contudo, a imprevisibilidade do comportamento dos donos da casa deixa também todas as possibilidades em aberto. Até porque, curiosamente, a tendência dos últimos anos é bastante favorável aos oureenses, com três triunfos e três empates, apenas por uma vez tendo os torrejanos saído vencedores, já na distante época de 2011-12.

Por fim, a única formação do escalão secundário ainda em prova, U. Santarém, recebe a visita do Mação, com o favoritismo teoricamente a pender para os maçaenses, mas numa eliminatória que se antevê possa ser também equilibrada, com os escalabitanos a procurar o estatuto de “tomba-gigantes” nesta edição da prova.

Na última vez que os dois conjuntos se defrontaram em Santarém, em jogo da I Divisão Distrital, em 2014-15, uma temporada bastante negativa para os santarenos, que culminou com o último lugar e consequente despromoção, o desfecho foi de 5-3 a favor do Mação. Mas será difícil extrair ilações desse resultado para o desafio desta tarde, em que, à partida, nenhuma equipa poderá dar por antecipadamente garantido o apuramento para as meias-finais…

(Texto da rubrica da Rádio Hertz, com a perspectiva da jornada – 26.03.2017)

Pulsar - 23

(“O Templário”, 23.03.2017)

No “jogo do título”, Coruchense e Riachense acabaram por se “anular” mutuamente, o que, não obstante, não deixa de favorecer mais as aspirações do turma do Sorraia, que continua a necessitar somente de mais um triunfo para confirmar o título, não obstante os adversários que o calendário lhe reservou para as três rondas finais não sejam dos mais fáceis…

Destaques – O principal destaque da 23.ª ronda terá de ir necessariamente para esse confronto em Coruche, no qual se defrontaram o líder e o vice-líder, os quais, no termo dos noventa minutos, não conseguiram desfazer o nulo inicial, pese embora tenham sido os homens da casa a procurar de forma mais afirmativa o golo, num desafio em que, porém, era ao Riachense que competiria, em primeira análise, buscar a vitória, que lhe permitisse ainda acalentar esperanças.

Realce também para a goleada imposta pelo União de Tomar na recepção ao Benavente, ganhando por 6-0, igualando assim o “record” desta edição do campeonato, que o Coruchense alcançara, logo na jornada inaugural, na Ribeira de Santarém, ante os “Caixeiros”. Apesar disso, os unionistas desperdiçaram uma oportunidade soberana de atingir uma marca histórica, tal a debilidade evidenciada desta feita pelo “lanterna vermelha”.

O triunfo dos tomarenses possibilitou-lhes ascender ao 4.º posto da tabela, e só não atingiram já uma posição no pódio, devido ao desaire sofrido pelo Mação, derrotado (1-2) no seu reduto por uma formação do Samora Correia que, continuando a surpreender pela positiva, obteve notável triunfo, o que lhe permitiu isolar-se de novo no 3.º lugar. De notar que, até este jogo, os maçaenses apenas haviam sido batidos no seu terreno pelo Riachense e pelo Torres Novas.

Surpresas – Poderá talvez dizer-se, com maior propriedade, que se terá tratado de duas “meias-surpresas”, as registadas no Cartaxo e em Ourém…

Por um lado, a vitória do Cartaxo na recepção ao U. Almeirim, por 3-1, assim colocando termo a uma sucessão de quatro derrotas sucessivas, num desfecho crucial para encetar a necessária recuperação, que possa tirar os cartaxeiros da parte abaixo da “linha de água”, agora somente a um escasso ponto do Pego.

Por outro, porventura mais imprevisto, o triunfo do At. Ouriense sobre o Amiense, por 2-0, tendo nomeadamente em atenção os maus resultados que o conjunto de Ourém vinha registando, sofrendo mesmo algumas pesadas goleadas, não esquecendo, contudo, que tinha ganho também, no anterior encontro em casa, ao Samora Correia, precisamente por igual marca.

Confirmações – Nas restantes duas partidas, o Fazendense confirmou o favoritismo na recepção aos Empregados do Comércio, pese embora tenho vencido por tangencial 1-0, enquanto o Torres Novas, ganhando no Pego por 2-1, prossegue na senda dos resultados positivos (tendo ascendido à 7.ª posição), vindo, paralelamente, confirmar a tendência descendente dos pegachos (terceira derrota consecutiva, somando oito desaires nas últimos dez jornadas, em que obteve uma única vitória, em Benavente).

De facto, para além de ter visto reduzida à expressão mínima a sua vantagem sobre o Cartaxo (na segunda volta somou somente quatro pontos, ou seja, apenas metade dos obtidos pelos cartaxeiros), o Pego vê ampliar-se já para cinco pontos o seu atraso em relação ao At. Ouriense. Na hipótese de poderem vir a ser três os clubes a despromover ao segundo escalão, parecem estar encontrados os que acompanharão o Benavente… Pego ou Cartaxo (em princípio, apenas um deles) só se “salvarão” desde que o Alcanenense se mantenha no Nacional.

II Divisão Distrital – Na ronda inaugural da fase de disputa do título de Campeão e, adicionalmente, das três vagas de promoção ao principal escalão do futebol distrital, as três formações visitadas fizeram impor a sua lei, triunfando face aos adversários, com destaque para o Marinhais, que bateu a U. Atalaiense por 3-1, no único jogo entre clubes que haviam disputado diferentes séries na primeira fase. Nos outros dois encontros, vitórias pela margem mínima: 2-1 no caso do Moçarriense, que recebeu o rival U. Santarém; e 1-0 no U. Abrantina-Ferreira do Zêzere, com os abrantinos a pretender confirmar o 1.º lugar alcançado na sua série.

Campeonato de Portugal – Na série de promoção, o Fátima voltou às vitórias, na recepção ao anterior líder, Praiense, tendo ganho por 2-1, tendo igualado este mesmo adversário a nível pontual, partilhando ambos agora a 2.ª posição, somente a um ponto do novo guia, o Torreense, numa série muito equilibrada, na qual, após a disputa de seis jornadas, os seis primeiros classificados se concentram num intervalo de apenas três pontos.

Por seu lado, na série de disputa da manutenção, o Alcanenense obteve novo triunfo, no seu terreno, ganhando por 2-0 ao V. Sernache, repartindo agora também o 2.º posto com o Caldas; contudo, mantém-se inalterada a vantagem de quatro pontos em relação ao 6.º classificado, que define a fronteira da “linha de água” (os clubes classificados nessa posição no final terão de disputar um “play-off” de manutenção). Nesta ronda, destaque para a retumbante goleada (14-1) com que o Mafra “atropelou” o histórico clube da Naval 1.º de Maio, da Figueira da Foz!

Antevisão – No próximo fim-de semana os campeonatos distritais estarão em pausa, para disputa dos 1/4 de final da Taça do Ribatejo, que compreende os seguintes alinhamentos: U. Almeirim-Coruchense, o “jogo-grande” desta ronda, sem um favorito definido; Cartaxo-Amiense e At. Ouriense-Torres Novas, em que, sendo os visitantes, em ambos os casos, favoritos, os “donos da casa” poderão, contudo, surpreender; por fim, a única formação do escalão secundário ainda em prova, U. Santarém, recebe a visita do Mação, em eliminatória que se antevê possa ser também equilibrada.

No Campeonato de Portugal, atingindo-se já a derradeira jornada da primeira volta desta fase final, o Fátima desloca-se a Loulé, para defrontar o histórico Louletano, para já 7.º (penúltimo) classificado, existindo expectativa de um desfecho positivo para os fatimenses; o Alcanenense vai também de viagem, até às Caldas, precisamente o clube com o qual partilha o 2.º lugar.

(Artigo publicado no jornal “O Templário”, de 23 de Março de 2017)

Sp. Pombal – Naval – 2-2
U. Tomar – Borbense – 5-4 (08.04.2017)
D. Castelo Branco – Marinhense – 3-2
Sintrense – O Elvas – 1-0

1º Naval, 35; 2º Sintrense, 31; 3º Sp. Pombal e Marinhense, 28; 5º Borbense, 22; 6º D. Castelo Branco, 18; 7º O Elvas, 14; 8º U. Tomar, 4

CADE – U. Almeirim – 1-5
Torres Novas – Samora Correia – 0-1
Fátima – Salvaterrense – 4-0
Cartaxo – U. Tomar – 1-2
Moçarriense – Amiense – 1-5
Folga: U. Atalaiense

1º Amiense, 48; 2º Fátima, 40; 3º U. Almeirim, 37; 4º U. Tomar, 29; 5º Torres Novas, 26; 6º Salvaterrense, 25; 7º CADE, 22; 8º Moçarriense, 21; 9º Cartaxo, 16; 10º Samora Correia e U. Atalaiense, 13

Ainda com duas jornadas por disputar, o Amiense garantiu já a conquista do título de Campeão Distrital de Juniores da temporada de 2016-17.

A equipa do União de Tomar recitava-se como um poema. Havia Pavão, Bolota e Camolas. Totói, o Mãozinha, vinha no fim…

Primeiro vou falar de o Divino Manco. Hector Castro. Era filho de galegos e nasceu no Uruguai, em 1904. Jogava nas calles de Montevidéu com os garotos da sua idade. Aos 13 anos trabalhava como ajudante de carpinteiro. Uma serra elétrica cortou-lhe o braço direito, logo abaixo do cotovelo.

Hector era um rapaz teimoso, obstinado. Queria ser jogador de futebol e foi-o. Aos 17 anos estava no Clube Atlético Lito. Montevidéu é uma cidade encantadora. E com uma particularidade única: todos os clubes uruguaios estão lá sedeados. O Nacional é um deles. Clube Nacional de Football, assim mesmo à inglesa. El Rey de Copas. O Divino Manco chegou cedo ao Gran Parque Central. Ficou.

Era estranho ver jogar Hector Castro. Faltava qualquer coisa aos seus movimentos rápidos, habilidosos, enleantes. Não era apenas o braço, era uma espécie de equilíbrio, uma dança disforme, um ritmo dissonante. Isso nunca o impediu de ser grande.

Em Amesterdão, nos Jogos Olímpicos de 1928, Portugal esteve presente. Chegou aos quartos-de-final. E tinha Pepe. É fundamental, um destes dias, falar de Pepe. O Uruguai foi campeão. Tinha José Leandro Andrade, a Maravilha Negra, filho de escravos fugidos do Brasil, o homem que dançou com Josephine Baker. E tinha o mítico José Nasazzi, El Terrible, o defesa-central que levantou a Taça do Mundo. Isso foi dois anos depois, no primeiro campeonato, o de 1930, precisamente em Montevideu.

Hector Castro foi campeão olímpico, em 1928, e campeão do mundo, em 1930, no Estádio Centenário. Não pôde agarrar a Jules Rimet com as duas mãos porque a direita não estava lá. Mas foi para além dessa ausência até ao momento estático da grandeza: dia 18 de Julho, precisamente às 15 horas e 35 minutos. Congele-se a imagem. O golo. Congele-se outra imagem, ainda: dia 30 de Julho de 1930, minuto 89 da final entre Uruguai e Argentina. A Celeste Olímpica vence por 3-2. Essa equipa ficou para a história como um quadro de Ernesto Laroche, o pintor das carreteras. Ballestero; Mascheroni e Nasazzi; Andrade, Fernández e Gestido; Dorado, Scarone, Castro, Cea e Iriarte. Castro, o Divino Manco, faz o 4-2, de cabeça. O Uruguai esgota-se na festa impossível. Braços erguem-se para o céu. O direito de Castro só pela metade.

O meu bom amigo Bernardo Trindade, melhor alfarrabista de Lisboa, devolve-me muitas vezes à memória um jogador que se chamou António Eduardo Fortes. Claro que ninguém se lembra dele por este nome. Era o Totói. O Mãozinha.

Veio de Cabo Verde com o irmão gémeo, o Djunga. Passou pelo Lusitano de Évora, pelo Farense. Em 1964 foi para Tomar, jogar no União.

Quando era miúdo, gostava muito do União de Tomar. Não sei se por causa do equipamento, às riscas grossas, se por causa do nome. Certamente também por causa de Totói. O avançado que não tinha uma mão, a esquerda. Chamaram-lhe o Eusébio de Tomar antes de o verdadeiro Eusébio ter jogado no União. Mas podiam ter-lhe chamado Divino Manco. Ficar-lhe-ia bem.

Ao contrário de Hector Castro, Totói não perdeu a mão: nasceu sem ela. Ou melhor: com um arremedo de mão, atrofiado, inútil. Era avançado, volta e meia fazia golos, perguntei-me sempre como marcaria os lançamentos laterais, talvez o dispensassem dessa tarefa. O defeito não lhe prejudicava nem o equilíbrio nem a funcionalidade. E o nome ressoava como o de um personagem de Machado de Assis, Brás Cubas ou assim.

União Futebol Comércio e Indústria de Tomar. Um clube que sempre teve nomes estranhos, melhores do que os machadianos, até, Quincas Borba, Iaiá Garcia ou o diabo que os valha. Porque havia o Camolas e o Bolota. E o Bilreiro e o Dui. O Barrinha e o Ferreira Pinto. Como houve o Florival, o Lecas, o Pavão e o Leitão. Pelo meio, o Manuel José e o Raul Águas. E o Simões e o Eusébio, que não eram alcunhas, eram eles mesmos, ainda que por pouco tempo.

Totói era nome de avançado único. Mas depois dele ainda veio o N’Habola e a gente pensava que não poderia existir nada de foneticamente mais esquisito. Totói, o Mãozinha, que não tinha mão e corria em direção às balizas contrárias com a vontade inequívoca do golo.

Diziam que Castro era mau, com aquela gana uruguaia de transformar os campos de futebol em campos de batalha. Que golpeava os adversários com o coto, sem contemplações, no pescoço, na cabeça. Totói era tranquilo e delicado de morabeza, com a felicidade tranquila do Mindelo. Da rádio, em voz abafada, a gente ouvia: Pavão, Bolota, Camola e Totói. E achávamos que fazia sentido como um poema dedicado à mágica senhora das paixões: a bola.

Porque esse União de Tomar também começava com um outro poema, talvez um soneto. E rimava assim: Conhé, Kiki, Caló, Faustino e Barnabé. Totói vinha no fim.

afonso.melo@newsplex.pt

(Artigo de Afonso de Melo, jornal “Sol”, 19 de Março de 2017)

De pé: Conhé, Alexandre, Cabrita, Bilreiro, Faustino e Santos
Em 1.º plano: Lecas, Djunga, Alberto, Cláudio e Totói

(Foto gentilmente cedida por Alexandre Rosa Freitas, enviada por José Jorge – clicar na foto para ampliar)

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